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Apoiada por Corteva e Fundação Gates, biotech argentina quer crescer no Brasil, Paraguai e EUA

Conheça a Puna Bio, startup de bioinsumos que nasceu por causa de pesquisas de bactérias capazes de sobreviver a condições extremas de radiação, salinidade e seca

5 min

No salar mais alto e seco do planeta, um grupo de cientistas encontrou bactérias capazes de sobreviver a condições extremas de radiação, salinidade e seca. Essa descoberta, resultado de mais de 20 anos de pesquisa na Puna argentina, foi o ponto de partida da Puna Bio, empresa de Tucumán fundada em 2020 que atualmente desenvolve bioinsumos agrícolas a partir de microrganismos extremófilos e conseguiu atrair investidores globais do porte da Corteva Agriscience e da Fundação Gates.

“Ao observar que essas bactérias estavam ajudando as plantas a crescer sob condições tão difíceis, surgiu a ideia de utilizar seu potencial para ajudar as culturas agrícolas a suportar o estresse na agricultura”, explica Franco Martínez Levis, CEO e cofundador da Puna Bio, sobre a origem da companhia, que nasceu da união entre três cientistas com trajetória no Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet), María Eugenia Farías, Elisa Violeta Bertini e Carolina Belfiore, e seu próprio perfil de negócios, desenvolvido com um MBA pela Wharton e experiência em consultoria e startups.

Do laboratório acadêmico ao mercado internacional

A passagem da ciência acadêmica para a gestão empresarial exigiu uma profunda mudança de mentalidade. “O principal desafio é passar da gestão do conhecimento para publicações ou artigos científicos ao desenvolvimento de soluções ou produtos que cheguem ao mercado”, afirma o CEO, que ressalta que a demanda comercial exige outra escala, outros custos, maior velocidade e novas exigências regulatórias.

Esse processo de transformação ocorreu em grande parte dentro da GRIDX, fundo de venture capital especializado em biotecnologia no qual a pesquisa científica foi integrada à visão de negócios.

“Nem a ciência nem o negócio, isoladamente, são suficientes para criar uma empresa de base científica; desenvolver ambos em conjunto foi o que nos permitiu, posteriormente, atrair investimentos e lançar produtos bem sucedidos”, afirma o empreendedor.

Atualmente, a estrutura da empresa é um reflexo dessa forte característica técnica: das 50 pessoas que integram a equipe, 35 são cientistas e 18 têm doutorado. A companhia mantém uma coleção própria de mais de 2.500 cepas, realiza mais de 180 ensaios de pesquisa por ano e conta com uma rede de avaliações de campo que soma mais de 600 medições em conjunto com o Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina (INTA). Esse desenvolvimento foi reconhecido pela Falling Walls Foundation como Science Breakthrough of the Year e contou com o apoio da Bayer Foundation.

Puna_DivulgAs pesquisas com bactérias que inspiraram a startup

Para sustentar esse ritmo de inovação, a decisão financeira é direta: “Atualmente, investimos mais em P&D do que geramos. Investimos muito em pesquisa e desenvolvimento porque a tecnologia é o nosso diferencial”, destaca Martínez Levis. Nessa linha, a empresa avança em infraestrutura: “Estamos ampliando nosso laboratório na Universidade San Pablo T, em Tucumán, e, ao mesmo tempo, estamos prestes a abrir um laboratório satélite com pesquisadores sediados nos Estados Unidos”.

Os indicadores financeiros e o plano de expansão global

No aspecto econômico, a Puna Bio superou US$ 1 milhão (R$ 5,22 milhões na cotação atual) em faturamento no último ano e projeta triplicar suas vendas no exercício atual. Desde sua fundação, a empresa já captou mais de US$ 10 milhões (R$ 52,23 milhões na cotação atual) em capital privado. Sua rodada Série A foi liderada pela Corteva Agriscience, juntamente com a Fundação Gates como investidora minoritária, em um de seus primeiros investimentos em startups de biotecnologia na América Latina, embora o valor específico dessa rodada seja mantido sob confidencialidade.

Quanto à implantação agronômica, a companhia prevê alcançar entre 300.000 e 400.000 hectares tratados nesta safra, com a meta de duplicar essa área no próximo ano. Suas tecnologias proporcionam retornos entre 6 e 10 vezes o custo para o produtor. Entre seus principais produtos estão o Kanzama, um tratamento para trigo e cevada que fornece o equivalente a 36 kg de nitrogênio por hectare por meio de fixação biológica, e o Kunza, um bioestimulante para soja, algodão e feijão já validado em mais de 300.000 hectares.

Puna_DivulgAs três cientistas do Conicet ao lado de Franco Martínez Levis

A estratégia comercial para os próximos meses inclui um avanço importante: “Tivemos um avanço tecnológico que nos permite não apenas tratar as sementes no campo, mas também entrar em processos industriais e na venda de sementes já tratadas, o que nos abre grandes possibilidades com empresas de sementes”.

No mercado internacional, atua diretamente nos Estados Unidos, Brasil e Paraguai, enquanto, por meio de alianças estratégicas, chega à Europa, Austrália e África. Neste último continente, o trabalho em conjunto com a Fundação Gates pretende levar bioinsumos a pequenos produtores para melhorar sua produtividade e segurança alimentar.

Ao analisar os obstáculos para empreender em biotecnologia a partir do norte da Argentina, Martínez Levis conclui com franqueza: “Muitas vezes, para ser empreendedor na Argentina, precisamos ser um pouco extremófilos. O desafio não está no conhecimento científico, mas nas condições macroeconômicas e regulatórias para atrair investimentos e interagir com o mundo”.

Publicada originalmente em Forbes Argentina

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