A dificuldade para contratar trabalhadores já altera decisões de produção, mecanização e expansão nas propriedades rurais brasileiras. Em pesquisa apresentada nesta terça-feira (25), em São Paulo, durante o “Agenda Brasil, Crescimento, Emprego e Competitividade”, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 45% dos produtores colocaram a escassez de mão de obra como seu principal desafio, à frente de custos, clima e preços. Entre os três principais problemas, a proporção chega a 75%, enquanto 95% afirmaram enfrentar ou já ter enfrentado dificuldade de contratação. A discussão reuniu Isabel de Faria, da CNA; Laura Muller Machado, do Insper; Paulo Tafner, do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, e André Portela, da FGV.
“A mecanização tem produzido desemprego rural? A resposta é não”, afirma Isabel, que é economista sênior da CNA, ao relacionar as mudanças no emprego à transformação produtiva do setor. Nos últimos 30 anos, a produtividade do trabalho agropecuário cresceu 515%, contra 28% no conjunto da economia. Na soja, mesmo com forte mecanização, o número de trabalhadores aumentou quase 200% desde 2012. Para parte dos produtores entrevistados, a compra de máquinas foi antecipada justamente pela dificuldade de encontrar pessoas para determinadas operações.
E os efeitos já chegaram ao planejamento das fazendas. A pesquisa registra atrasos em operações, aumento de custos e desistência de projetos de expansão. Quase 30% dos entrevistados disseram ter mudado de atividade em razão da escassez, optando por sistemas menos dependentes de trabalho. Ao mesmo tempo, os salários agropecuários se aproximaram dos pagos pelo restante da economia: entre 2012 e 2015, cresceram 14%, ante recuo de 0,1% nos demais setores, e avançaram 35% entre 2021 e 2025. Moradia, alimentação, água, energia e internet, fornecidas por parte das propriedades, aumentam a remuneração disponível, embora esses benefícios não apareçam integralmente nas estatísticas salariais.
A redução da oferta de trabalhadores também tem componentes de longo prazo, entre eles o crescimento da escolaridade que ampliou as alternativas profissionais fora da agropecuária, a urbanização que diminuiu a população residente nas áreas tradicionalmente utilizadas para recrutamento e o setor de serviços que passou a competir pelas mesmas pessoas. O quadro convive, porém, com um contingente expressivo de brasileiros que trabalham menos horas do que gostariam, desistiram de procurar ocupação ou permanecem fora do mercado. Isabel estima entre 14 milhões e 15 milhões de pessoas nessa situação. No Nordeste, onde produtores relataram maior dificuldade de contratação, a taxa de desemprego citada foi de 8,3%, mas a subutilização chegou a 24,4%; no Sul, o desemprego estava em 3,6%.
Essa distância entre vagas disponíveis e pessoas que poderiam trabalhar abriu espaço para outra discussão: os incentivos criados pelas políticas de transferência de renda. Segundo a apresentação da CNA, o valor médio do Bolsa Família passou de R$ 280 em 2018 para R$ 715 em 2025, enquanto o número de famílias beneficiárias saiu de cerca de 12 milhões a 13 milhões para 19 milhões. No recorte feito para a agropecuária, a pesquisa encontrou efeito negativo sobre a oferta de trabalho. Entre os produtores entrevistados, 83% disseram perceber interferência do programa na contratação e 63,2% relataram recusas reiteradas de candidatos que temiam perder o benefício ao aceitar uma vaga.
Laura Muller Machado, professora do Insper e ex-secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, fez uma ressalva à interpretação desses números. “O problema é quando o Brasil fala para esses indivíduos que se ele arrumar um emprego, ele perde o programa”, afirmou. Segundo ela, a literatura acumulada sobre transferência de renda não sustenta que o benefício, por si, leve as pessoas a trabalhar menos. O problema estaria na retirada abrupta da renda quando surge uma vaga formal, condição que pode estimular a opção por atividades informais. Laura citou ainda cerca de 7 milhões de pessoas pobres que dizem querer trabalhar e não conseguem.
Para reduzir esse descompasso, Laura defendeu uma saída gradual do Bolsa Família depois da entrada no emprego formal, com redução progressiva do benefício à medida que o salário passa a sustentar a família. O mesmo critério deveria orientar a qualificação profissional. Ela citou avaliações segundo as quais, na média, cursos oferecidos sem conexão com as vagas existentes apresentam impacto próximo de zero sobre emprego e renda. Como referência, mencionou uma modalidade do Pronatec que consultava empresas sobre competências, localização e necessidade de contratação antes de montar os cursos.
Paulo Tafner concordou que o desenho dos programas interfere nas escolhas de trabalho, mas acrescentou o valor do benefício à equação. “É muito possível que a gente possa fazer uma política social melhor do que a de hoje, com mais efetividade, com mais focalização e, muito provavelmente, a um custo menor”, afirmou. Ao mesmo tempo, apresentou resultados de um estudo que acompanhou crianças beneficiárias do Bolsa Família em 2005 e procurou esses jovens entre 2015 e 2019. O levantamento encontrou maior probabilidade de ingresso e permanência no emprego formal entre os mais pobres, sobretudo quando eles viviam em municípios com melhores serviços de educação, saúde e outros equipamentos públicos.
Segundo Tafner, a transferência protege renda, mas não substitui políticas capazes de produzir mobilidade social. “O Bolsa sozinho não tira ninguém dessa situação”, disse. Os melhores resultados apareceram no Sul e no Sudeste, com aproximação dos indicadores do Centro-Oeste. Tafner associou parte desse movimento ao desempenho econômico da agropecuária e ressaltou que o setor acumulou taxas de crescimento da produtividade próximas de 6% ao ano, mais recentemente em torno de 5%, enquanto boa parte da economia brasileira não acompanhou esse ritmo.
A tecnologia ainda oferece espaço para novos ganhos, mas o uso dos equipamentos depende da formação dos trabalhadores. No caso de sua pesquisa, Isabel citou entrevistas com empresas segundo as quais apenas cerca de 50% das funções tecnológicas embarcadas em máquinas agropecuárias são efetivamente utilizadas. Na comparação internacional apresentada por ela, o valor adicionado por trabalhador no agro brasileiro ficou em cerca de US$ 12,7 mil, ante US$ 29,3 mil em países de renda comparável e até US$ 85 mil nos Estados Unidos. A diferença coloca educação, treinamento e custo do capital entre os fatores que determinarão a próxima etapa da produtividade rural.
André Portela, professor da FGV, relacionou parte do baixo desempenho brasileiro à combinação de vínculos curtos, informalidade e programas de proteção concebidos separadamente. “Quando você junta todos eles num liquidificador só, dá uma confusão de incentivos”, afirmou ao citar Bolsa Família, seguro-desemprego, FGTS e abono salarial. Para ele, alta rotatividade reduz o interesse das empresas em treinar funcionários e diminui o incentivo do trabalhador para acumular conhecimento dentro da mesma organização. A produtividade, em sua avaliação, depende da qualificação da pessoa, da tecnologia disponível no posto e da capacidade de combinar cada trabalhador com uma função compatível com suas habilidades.
A proposta de redução da jornada e de mudança da escala 6×1, um assunto em pauta nos dias atuais e que tem sido colocado para decisões no congresso e senado federal, entrou nessa conta pelo impacto potencial sobre custos. Portela calculou que a combinação de jornada de 44 para 40 horas, dois dias de descanso remunerado e irredutibilidade salarial poderia elevar em cerca de 20% o custo do trabalho para empresas que hoje operam com 44 horas e em 9,1% para aquelas que já trabalham com 40 horas. “Redução de jornada não é uma política de emprego”, afirmou. Ele defendeu que eventuais mudanças considerem produtividade e diferenças entre setores. No agro, Isabel acrescentou que plantio, colheita e outras operações seguem janelas determinadas por clima e ciclo das culturas, o que torna a organização do trabalho distinta da observada em atividades urbanas e isso deveria ser levado em conta nos atuais embates sobre um novo modelo de jornada e escala.