Uma guerra estrangulou o Estreito de Ormuz. Uma onda de calor eliminou cerca de 9 milhões de toneladas das projeções para a produção de grãos da União Europeia e do Reino Unido. A Oxford Economics agora espera que o clima acrescente mais à inflação dos alimentos em 2027 do que o impacto da guerra, que está perdendo força. O próximo problema inflacionário pode começar não em um terminal de petróleo, mas em um campo que ficou quente demais para produzir uma safra.
Benoît Merlo passou dez anos preparando sua propriedade em Auvergne Rhône Alpes, para uma França mais quente: culturas de cobertura para conservar a umidade, rotações para distribuir os riscos e variedades de sementes desenvolvidas para suportar calor e seca. Então veio um mês de junho em que os termômetros se recusaram a baixar. “Com temperaturas acima de 38°C durante semanas seguidas, tudo está entrando em colapso”, afirmou ele em comunicado divulgado pela Energy and Climate Intelligence Unit. O produtor espera perder metade de algumas culturas e até 70% da soja.
Merlo fez o que os agricultores ouvem constantemente que devem fazer: adaptar-se. Investiu, mudou e se preparou. Mesmo assim, o calor ultrapassou o limite contra o qual suas medidas de preparação poderiam protegê-lo. Isso faz com que sua história seja mais do que um relato sobre agricultura. É uma história sobre inflação, e a afirmação macroeconômica mais marcante deste verão não veio de um banqueiro central, mas de uma projeção de safra.
O verão em que os números mudaram
Junho de 2026 foi o mês de junho mais quente já registrado na Europa Ocidental, segundo o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas. A França registrou o dia mais quente da história considerando a média nacional; Alemanha, Dinamarca e República Tcheca estabeleceram recordes históricos de temperatura. Foi a terceira grande onda de calor desde o fim de maio, justamente quando as lavouras estavam mais vulneráveis.
Os danos provocaram uma reação praticamente inédita do próprio setor de comércio de grãos. A Coceral, que é a associação dos comerciantes de cereais da Europa, publicou uma projeção extraordinária, fora de seu calendário habitual, reduzindo a produção esperada de grãos da União Europeia e do Reino Unido para 286,6 milhões de toneladas, cerca de 9 milhões de toneladas abaixo da própria estimativa de junho.
O total também está 23,4 milhões de toneladas abaixo do ano passado, embora essa diferença anual mais ampla não possa ser atribuída integralmente ao calor de junho. A Energy and Climate Intelligence Unit estima perdas brutas de cerca de 10 milhões de toneladas, correspondentes a cerca de 2 bilhões de euros (R$ 12 bilhões na cotação atual) em receita agrícola; descontados os ganhos registrados em outras partes da Europa, a redução líquida é de cerca de 9 milhões de toneladas, no valor de 1,8 bilhão de euros (R$ 10,77 bilhões).
Nada disso surpreendeu a ciência do clima. O estudo rápido da World Weather Attribution tem um título que também funciona como veredito: as emissões de combustíveis fósseis agravaram rapidamente as ondas de calor europeias em apenas algumas décadas. E o verão ainda não terminou.
No momento em que este texto é escrito, incêndios queimam áreas do sul da Europa, e Maria Zuber, chefe do Centro de Coordenação de Resposta de Emergência da União Europeia, alertou que, se os incêndios na Península Ibérica voltarem a se intensificar em agosto, “teremos toda a Europa em chamas”. O milho e o girassol que ainda estão de pé nesses campos têm semanas pela frente. Uma safra não está segura enquanto não for colhida.
Quando uma onda de calor pesa mais do que uma guerra
É aqui que esta deixa de ser apenas uma história sobre o clima. Os recordes quebrados na Europa coincidiram com uma guerra no ponto de estrangulamento mais importante do mundo para a energia fóssil. Em 28 de fevereiro, irrompeu um conflito no Golfo Pérsico e o tráfego de navios tanque pelo Estreito de Ormuz caiu mais de 90% em questão de dias, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O petróleo disparou. Os fertilizantes dispararam. Todos os economistas recorreram ao roteiro de 2022.
Ainda assim, quando a Oxford Economics projetou os preços dos alimentos na Europa neste mês, concluiu que as ondas de calor serão “um fator de alta mais forte para os preços dos alimentos no próximo ano do que a guerra”, conforme escreveram seus economistas em análise publicada pela Euronews. Uma guerra fechou o estreito pelo qual normalmente passa cerca de um quarto do comércio mundial de petróleo transportado por via marítima e, mesmo assim, espera-se que o clima tenha um impacto maior.
Os números explicam o motivo. O Deutsche Bank estima que o choque das commodities na primavera elevará os preços dos alimentos em cerca de 1,3% no Reino Unido e 0,8% na zona do euro, um aumento significativo, mas administrável. O calor não substitui esse choque; ele se soma a ele. Um estudo do Banco Central Europeu constatou que a onda de calor de 2022 acrescentou 0,67 ponto percentual à inflação dos alimentos na Europa e que um único choque de temperatura continua pressionando os preços por até 12 meses.
Uma pesquisa liderada por Maximilian Kotz, do Barcelona Supercomputing Center, mostra como isso aparece nas prateleiras: azeite de oliva 50% mais caro depois da seca na Península Ibérica, arroz 48% mais caro no Japão e cacau 280% mais caro após uma onda de calor atingir a África Ocidental. Eventos climáticos extremos deixaram de ser ruído de fundo nos dados de inflação. Tornaram-se um fator determinante.
A guerra que chegou às lavouras do mundo
O conflito com o Irã continua sendo extremamente importante, mas seu principal efeito sobre os alimentos percorre um caminho mais lento: os fertilizantes. O Golfo fornece de 30% a 35% da ureia mundial, e cerca de 30% do comércio de fertilizantes normalmente passa por Ormuz, conforme explicou o economista chefe da FAO, Máximo Torero, na análise da organização sobre o conflito.
Quando o estreito foi fechado, a ureia praticamente dobrou de preço, passando de cerca de US$ 400 por tonelada (R$ 2.073 por tonelada na cotação atual) para mais de US$ 850 por tonelada (R$ 4.404 por tonelada) em abril, e o índice de fertilizantes do Banco Mundial atingiu seu maior nível desde outubro de 2022.
O fertilizante é um choque de efeito retardado. Ureia cara em março não altera o preço do pão em abril; altera quanto os agricultores plantam e o desempenho das lavouras na safra seguinte. Boa parte da conta da guerra sobre os alimentos provavelmente aparecerá por volta da safra de 2027, com variações conforme a cultura e a região.
Esse intervalo explica por que as prateleiras tranquilas deste verão, com a inflação de alimentos, bebidas alcoólicas e tabaco na zona do euro em apenas 1,5% em junho, são uma ilusão provocada pelo calendário, e não um sinal de segurança. Os preços das commodities podem mudar rapidamente; decisões sobre fertilizantes, safras e contratos do varejo transmitem esses choques mais lentamente, e as prateleiras dos supermercados reagem ainda mais tarde. Até o índice global de preços dos cereais da FAO caiu em junho, embora permanecesse acima do nível registrado um ano antes.
A margem para erros está diminuindo
O choque sobre a safra europeia chega a um sistema alimentar mundial que ainda dispõe de reservas, mas em menor quantidade do que antes. Nos Estados Unidos, o USDA projeta a menor safra de trigo em mais de meio século, com a menor área plantada desde o início dos registros, em 1919, e a menor produção de trigo duro vermelho de inverno, o trigo usado para pão nas Grandes Planícies, desde 1957, após uma seca severa. As monções na Índia chegaram em junho com precipitação quase 40% abaixo do normal, antes de se recuperarem em julho, reduzindo o déficit para cerca de 16%.
As chuvas de agosto ainda são extremamente importantes, mas a Índia entra na temporada com estoques substanciais de arroz; uma nova restrição às exportações, como a de 2023, continua sendo um risco negativo, e não o cenário mais provável. Mais adiante nessa mesma faixa produtora de arroz, o Ministério da Agricultura da Indonésia contabiliza mais de 30 mil hectares de arroz atingidos pela seca, dos quais mais de 12 mil hectares tiveram perda total, em um país que recentemente suspendeu as importações de arroz em nome da autossuficiência.
A China estabeleceu um recorde na safra de verão, mas as próprias autoridades de Pequim alertam que a safra de outono, muito maior, enfrenta enchentes, tufões e mudanças abruptas entre seca e excesso de chuva.
Economistas agrícolas têm um nome para a situação em que várias das principais regiões produtoras de alimentos do mundo fracassam ao mesmo tempo: quebra simultânea de múltiplos celeiros agrícolas. Não é isso que está acontecendo em 2026. O quadro é mais sutil e difícil: uma sequência sincronizada de anos simplesmente ruins, cada um suportável isoladamente, mas que, em conjunto, consomem as reservas.
Perdas menores mal aparecem nas manchetes ocidentais: enchentes repentinas deixaram Bangladesh diante de um déficit de mais de 200 mil toneladas de arroz, segundo a Reuters, e o setor cafeeiro brasileiro alerta que o El Niño pode reduzir em 15% a 20% a safra recorde esperada. É preciso considerar que o El Niño que provoca seca na Ásia historicamente trouxe períodos mais chuvosos para a Argentina e o sul do Brasil, de modo que boa parte do alívio que ainda resta ao mercado depende agora de a chuva chegar na época certa aos Pampas. Quando as reservas estão reduzidas, a chuva que chega no momento certo em uma região torna-se a apólice de seguro de todos os demais.
Quanto custa e quem paga
Para os consumidores, o choque chega em ondas. A primeira, a partir deste outono no Hemisfério Norte, atinge os produtos feitos de grãos: pão, massas, cereais, aveia e farinha. Helena Hansson, professora de economia da Universidade Sueca de Ciências Agrárias, disse nesta semana ao jornal sueco Dagens Nyheter que os produtos processados à base de grãos provavelmente serão os primeiros a subir, e ela não descarta um choque semelhante ao observado na Europa em 2022.
O segundo chega no inverno pela porta dos galpões de criação, porque grãos são ração, frequentemente o maior custo variável na produção de carne suína, frango, ovos, leite e carne bovina; as máximas dos contratos em Paris representam antecipadamente as contas de ração do próximo inverno. O terceiro pode aparecer do fim de 2026 ao ciclo da safra de 2027, à medida que os custos dos fertilizantes influenciem as decisões de plantio e a produtividade. Um quarto canal é a substituição: quando os alimentos básicos europeus ficam mais caros, os compradores migram para alimentos produzidos em outros lugares, elevando os preços de produtos que jamais enfrentaram uma onda de calor europeia.
Há então a distinção mais importante desta história. Na Europa, o que está por vir é chamado de inflação. Nos países que importam o mesmo trigo e arroz, onde as famílias já gastam metade ou mais da renda com alimentação, a mesma variação de preços não é medida em euros, mas em refeições. No Quênia, a FEWS NET espera que um quinto do milho produzido na região cerealista de Trans Nzoia seja perdido, e os preços já estão subindo, meses antes de os consumidores europeus perceberem qualquer coisa.
Ali, os preços já são uma questão política: em maio, protestos em todo o país contra aumentos dos combustíveis provocados pela guerra deixaram pelo menos quatro mortos, em um país onde a inflação dos alimentos já superava 9% antes da quebra da safra. Os dois choques tratados neste artigo, a guerra e o clima, já derramaram sangue no Quênia. A palavra inflação suaviza o problema. Para a classe média europeia, os alimentos ficam mais caros. Para muitos dos mais pobres do mundo, tornam-se inacessíveis.
E na semana passada, a pressão chegou à própria fronteira da Europa. Em dois dias, quase 60 mil pessoas atravessaram do Marrocos para o enclave espanhol de Ceuta, com mais de 50 mortes durante a tentativa, e, poucas horas depois, a França havia reforçado sua fronteira com a Espanha e a Itália havia suspendido Schengen.
Nenhuma causa isolada explica uma crise fronteiriça, e esta está permeada por fatores geopolíticos. Mas o terreno em que ela se formou está bem documentado: sete anos de seca, a pior do Marrocos em quatro décadas, reduziram quase pela metade suas safras de cereais e eliminaram 720 mil empregos agrícolas, empurrando famílias rurais em direção às cidades, ao litoral e para além das fronteiras, um movimento migratório que o relatório climático do Banco Mundial sobre o Marrocos havia previsto em termos quase idênticos. A pressão climática não permanece confinada a lugares distantes. Nesta semana, ela contornou a nado uma cerca de fronteira.
Agora olhe para o calendário. O choque dos grãos europeus, o choque dos fertilizantes do Golfo e os riscos climáticos mais amplos convergem todos para o mesmo período: do fim de 2026 ao primeiro semestre de 2027. Três pavios separados. Uma janela perigosa.
Três cenários para sua conta no supermercado
Uma projeção responsável trabalha com uma faixa de possibilidades. Em termos domésticos, no cenário base, a Oxford Economics prevê que a inflação dos alimentos na zona do euro subirá de 1,5% em junho para cerca de 3% em 2027, concentrando-se no primeiro semestre. Para uma família que gasta 400 euros por mês com alimentação (R$ 2.394), isso representa cerca de 144 euros a mais ao longo do ano (R$ 862) do que se os preços permanecessem estáveis, ou cerca de 72 euros a mais (R$ 431) do que se a inflação continuasse em 1,5%, com pão, massas e ovos apresentando as variações mais perceptíveis: algo que muitos conseguem absorver, mas doloroso para famílias de baixa renda.
No cenário de tempestade perfeita, outro choque atinge um sistema já enfraquecido: a Índia restringe exportações, a China perde parte da safra de outono, a Argentina enfrenta uma temporada de plantio seca, Ormuz não reabre ou a Europa simplesmente enfrenta mais calor.
Um El Niño em fortalecimento está se formando sobre o oceano mais quente já registrado, como escrevi aqui no início deste mês, e o mercado já está reagindo: no fim de julho, o trigo em Chicago chegou brevemente a superar aproximadamente US$ 257,20 por tonelada (R$ 1.333 por tonelada) após ataques interromperem o transporte de grãos pelo Mar Negro, enquanto o petróleo Brent passou brevemente de US$ 100 por barril (R$ 518 por barril) depois de ataques dos houthis contra navios tanque sauditas no Mar Vermelho.
Acrescente mais um choque às reservas hoje mais reduzidas e haverá o risco de retorno ao choque de 2022 e 2023, quando a inflação de alimentos, bebidas alcoólicas e tabaco na zona do euro atingiu 15,5% em março de 2023. Para a mesma família, isso significa mais de 700 euros por ano (mais de R$ 4.189), além de restrições às exportações e da expansão da fome em países que já estão sob pressão.
No cenário de alívio, parte do qual já pode ser observada, a desescalada se mantém: a ureia recuou para US$ 453 por tonelada (R$ 2.347 por tonelada), próximo aos níveis anteriores à guerra, o Hemisfério Sul entrega sua produção e 2026 entra para a história como um sinal de alerta. Os mercados conseguem se adaptar às guerras com uma rapidez extraordinária. A questão é saber se conseguem se adaptar com a mesma rapidez a um clima que continua mudando.
A diferença entre 1,5% e 3%
Essa alta de um ponto e meio no cenário base parece um erro de arredondamento. Em termos macroeconômicos, é o ponto em que uma quebra de safra se transforma em um problema monetário. Alimentos, bebidas alcoólicas e tabaco representam cerca de 19% da cesta de preços da zona do euro e, em junho, essa categoria contribuiu com 0,29 ponto percentual para a taxa geral de 2,8%. Dobre a inflação dos alimentos e aproximadamente se dobra essa contribuição: três décimos de ponto na inflação geral provenientes apenas das lavouras, em um momento em que o BCE já está oito décimos acima de sua meta de 2% e tenta voltar a esse patamar.
A conta é a parte menor da história. Os preços dos alimentos têm um peso desproporcional na maneira como as pessoas percebem a inflação porque são os preços com os quais as famílias se deparam com maior frequência. Em uma pesquisa do BCE, quase dois terços dos entrevistados disseram que os preços dos alimentos moldam suas expectativas de inflação, mais do que qualquer outro item da cesta. Um estudo do Banco da Inglaterra constatou que os alimentos têm peso significativamente maior nas expectativas do que qualquer outro componente, inclusive energia, e concluiu que o risco de as expectativas das famílias se consolidarem em uma inflação persistente é maior depois de um grande choque nos preços dos alimentos.
Essa é a transmissão que os investidores devem acompanhar. As expectativas podem transformar um choque pontual de oferta em um problema inflacionário: famílias que esperam preços mais altos negociam salários maiores, empresas que esperam custos mais elevados aumentam os preços antecipadamente, e a inflação dos serviços, quase metade da cesta, pode começar a subir por motivos que nada têm a ver com trigo. Nesse momento, um banco central deixa de olhar para uma safra e passa a observar efeitos de segunda ordem, e seu instrumento para enfrentá-los é o preço do dinheiro. Um mês de junho seco na França, transmitido pelo canal das expectativas, pode acabar aparecendo na taxa de juros de um financiamento imobiliário.
Há um canal mais direto. Como as famílias não podem simplesmente deixar de comer, contas mais altas no supermercado deixam menos dinheiro para todo o resto. Durante o choque de 2022 e 2023, os consumidores reduziram fortemente os gastos discricionários, com queda de 20% nas compras de vestuário e de 15% em lanches e bebidas alcoólicas em uma pesquisa realizada em vários países europeus, embora esses números reflitam uma pressão mais ampla do custo de vida, e não apenas a inflação dos alimentos. O sentido do movimento é o que importa: uma quebra da safra de milho na França transforma-se, dois trimestres depois, em um trimestre fraco para o varejo europeu.
E então vem o termômetro
Todos os cenários acima compartilham uma premissa discreta: a de que 2026 é um ano fora do comum. O termômetro diz o contrário. Este verão ocorreu em um mundo aproximadamente 1,4°C mais quente do que no fim do século 19, e a física apresentada pelo IPCC é clara: extremos de calor que ocorriam uma vez por década no clima pré-industrial já acontecem quase três vezes mais; com aquecimento de 2°C, mais de cinco vezes; com 4°C, quase todos os anos. E talvez até os modelos estejam subestimando a situação.
Um estudo publicado na semana passada na Science Advances comparou 214 experimentos de aquecimento em campo com sete dos principais modelos de culturas agrícolas e constatou que eles subestimam fortemente a resposta do arroz ao calor extremo: um grau de aquecimento reduz a produtividade em cerca de 8%, aproximadamente o dobro dos 3,8% previstos pelos modelos, e, para Paquistão, Índia e Bangladesh, a estimativa aproximadamente triplica. O arroz alimenta mais da metade da população mundial.
Essa diferença existe pelo mesmo motivo que comprometeu a propriedade de Merlo: os modelos acompanham médias, enquanto os danos são provocados pelos extremos. Como afirmou Christoph Müller, do PIK, um dos autores, quando consultamos uma previsão do tempo no verão, “procuramos a máxima do dia, não a temperatura média”. Os autores alertam que seus números isolam o efeito da temperatura e não constituem uma projeção completa da produção. Mesmo assim, o BCE estima que o aquecimento pode acrescentar cerca de 1 a 3 pontos percentuais à inflação anual dos alimentos já em 2035. Mantida a trajetória atual, a tempestade perfeita deixa de ser um cenário e passa a ser o ambiente normal de operação.
Estações mais frescas ainda ocorrerão. Mas o clima no qual os agricultores de hoje estão entrando avança continuamente para além daquele para o qual se prepararam. Os cenários de curto prazo tratam dos preços do próximo ano. O cenário indicado pelo termômetro trata da possibilidade de a volatilidade das safras transformar-se silenciosamente em declínio das colheitas.
O problema que os bancos centrais não conseguem resolver
Volte ao cenário de alívio e observe o que ele resolve e o que não resolve. A diplomacia pode reabrir um estreito. Operadores podem redirecionar um navio tanque. Nenhuma decisão sobre juros consegue fazer chover sobre uma lavoura francesa de milho em junho. As taxas de juros podem conter efeitos de segunda ordem, espirais de salários e expectativas desancoradas; não conseguem recuperar uma safra. A inflação dos alimentos provocada pelo clima é um choque de oferta que se repete, se intensifica e se acumula, razão pela qual os economistas lhe deram um nome próprio: inflação climática. Ela funciona como um imposto que aumenta junto com a temperatura e é cobrado no caixa do supermercado.
É por isso que a direção da política adotada em Bruxelas merece um exame mais rigoroso do que vem recebendo. Nas mesmas semanas em que o calor destruía a safra europeia, a Comissão Europeia propôs desacelerar o mercado de carbono da União Europeia. Análises independentes, incluindo a minha e uma da Agora Energiewende, estimam que a proposta poderia abrir espaço para cerca de 2,4 bilhões de toneladas adicionais de CO₂ até 2050.
É uma das 45 reversões de políticas climáticas que se verificou no último ano, na Europa e na América do Norte. Enfraquecer os instrumentos que limitam as emissões fósseis, na mesma estação em que essas emissões estão visivelmente onerando cada cesta de compras, é uma escolha que merece ser debatida exatamente nesses termos: a política de emissões agora é, de forma concreta, política de preços dos alimentos.
E há uma parte esperançosa, porque ela existe. Dos dois choques que pressionam os preços dos alimentos, um deles pode ser interrompido. O prêmio da guerra pode ser eliminado por meio de negociação, e a rápida queda do mercado de fertilizantes mostra a velocidade com que esse alívio pode chegar.
O prêmio climático é mais difícil: adaptação, irrigação, melhoramento genético e armazenamento amenizam as perdas, como mostra a década de experiência de Merlo, até determinado limite; somente a redução das emissões responsáveis pelo calor atua sobre a própria temperatura. A mesma lógica chega ao saco de fertilizante. O gás natural frequentemente representa de 70% a 80% do custo operacional da produção de amônia e ureia, e é assim que uma guerra em Ormuz chega a uma lavoura de trigo no Kansas.
Fertilizantes livres de combustíveis fósseis, produzidos com amônia a partir de hidrogênio renovável, que fabricantes europeus já produzem em escala industrial, poderiam reduzir fortemente a exposição dos agricultores aos preços do gás e aos pontos de estrangulamento geopolíticos. Cada fábrica de amônia verde é, silenciosamente, uma política de preços dos alimentos.
Merlo coloca a questão de maneira mais dura. Em seu relato, o desastre não está mais se aproximando de sua propriedade. Ele já trabalha dentro dela. Os líderes europeus podem continuar tratando cada onda de calor como simples condição meteorológica, cada lavoura perdida como infortúnio e cada disparada nos preços dos alimentos como um problema para o banco central. Ou podem seguir toda a cadeia de causa e efeito até chegar às chaminés. A inflação climática é uma inflação cuja causa conhecemos, cuja conta já conseguimos enxergar e cuja solução adiamos por tempo demais.
Publicado originalmente em Forbes EUA