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Mulheres Ampliam Gestão e Tecnologia nas Fazendas Brasileiras

Premiação da Bayer e da Abag registra 394 inscrições em 2026 e reconhece dez produtoras e pesquisadoras por resultados em produtividade, sustentabilidade e ciência

7 min

Na Fazenda Estância, em Pirassununga, no interior de São Paulo, a economista Aline Baldim Vick encontrou na agricultura uma oportunidade de aplicar a experiência adquirida no mercado financeiro. Ao retornar aos negócios da família, introduziu mudanças no planejamento das lavouras, incorporou práticas regenerativas e passou a acompanhar os resultados por talhão. A propriedade alcançou produtividades até 25% superiores à média regional, segundo informações apresentadas ao Prêmio Mulheres do Agro 2026, promovido pela Bayer e pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), apresentado nesta quarta (27) . O desempenho colocou Aline em primeiro lugar na categoria Grande Propriedade de uma seleção que reuniu 394 inscrições de diferentes regiões do país.

“Dar visibilidade a essas trajetórias é uma forma de reconhecer o impacto que as mulheres já geram no agro e, ao mesmo tempo, ampliar referências para quem está chegando ao setor”, afirma Daniela Barros, diretora de Comunicação da divisão agrícola da Bayer. Criado em 2018, o prêmio chegou à nona edição com 85 mulheres reconhecidas desde sua fundação. Neste ano, dez foram escolhidas, sendo nove produtoras distribuídas em três categorias de porte de propriedade e uma pesquisadora, selecionada após avaliação técnica e votação popular.

O resultado da Fazenda Estância está associado a decisões que começaram antes do plantio. Aline adotou a rotação de culturas com plantas de cobertura, organizou o manejo de acordo com as características de cada área e passou a monitorar indicadores ambientais. Segundo os dados apresentados à premiação, a produção de grãos registra pegada de carbono inferior à média nacional. A propriedade também mantém áreas destinadas à conservação de espécies ameaçadas e já recebeu mais de 1,2 mil visitantes interessados em conhecer os sistemas de produção utilizados.

A gestão do solo também está no centro do trabalho de Erika Valente de Medeiros, professora titular da Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape), que conquistou o prêmio na categoria Ciência e Pesquisa. Bióloga e doutora em Agronomia, Erika investiga os processos microbiológicos e bioquímicos envolvidos na fertilidade da terra, com pesquisas direcionadas à recuperação de áreas degradadas e às condições de produção no semiárido brasileiro. Seu currículo reúne mais de 200 artigos científicos e sete patentes, em linhas de pesquisa que incluem bioinsumos, biochar e alternativas de manejo para enfrentar a desertificação.

A ligação entre a pesquisa e a atividade rural aparece também na Estância Futurama, em Holambra, no interior paulista, onde Ana Karina Klinke conduz um trabalho de seleção e melhoramento genético animal. Primeira colocada entre as Pequenas Propriedades, Ana reorganizou o manejo sanitário para substituir o uso de carrapaticidas químicos sintéticos por soluções biológicas, além de incorporar probióticos, inoculantes e compostagem. A conservação de nascentes faz parte da administração da propriedade, que também oferece orientação técnica gratuita a pequenos produtores da região.

A utilização de ferramentas biológicas e de práticas de conservação aparece em fazendas com atividades distintas. No oeste da Bahia, Suzana Muterle Viccini, segunda colocada entre as Médias Propriedades, participa da gestão da Fazenda Querência dos Pampas, em Barreiras, onde introduziu monitoramento por drones, agricultura de precisão e bioinsumos. Há mais de dez anos envolvida no empreendimento familiar, ela também participou da profissionalização dos processos administrativos e é presidente e cofundadora da Associação Núcleo das Mulheres do Agro do Oeste da Bahia.

Em São Joaquim, na Serra catarinense, Kátia Helena Fenner Rodrigues administra a Fazenda Varginha, propriedade com mais de um século de história ligada à produção rural. Vencedora na categoria Média Propriedade, ela trabalha com frutas de Indicação Geográfica, extrativismo sustentável do pinhão e criação de bovinos. Na pecuária, incorporou protocolos de bem-estar animal e melhoramento genético, enquanto a conservação das araucárias nativas permanece integrada às atividades econômicas da fazenda.

A atuação de Kátia fora da propriedade resultou na criação do projeto Mulheres Araucarianas, que deu origem à proposta do Selo Rosa, destinada à capacitação e à valorização das trabalhadoras rurais de Santa Catarina. Suzana, na Bahia, desenvolve atividades semelhantes por meio da associação de produtoras do oeste do estado. As duas iniciativas tratam de formação profissional e participação feminina na administração de propriedades, incluindo a preparação de sucessoras nos negócios familiares.

A sucessão também faz parte da história de Elisabete Kim Shih, terceira colocada entre as Grandes Propriedades. Depois de duas décadas trabalhando no setor privado em São Paulo, a arquiteta assumiu a administração da Fazenda São Sebastião, em São Thomé das Letras, Minas Gerais. Na reorganização do negócio, introduziu controles financeiros, rastreamento de máquinas, mudanças no sistema de irrigação e diversificação produtiva. A gestão de pessoal passou a incluir planos de carreira, atividades educacionais e normas de conduta para os trabalhadores.

Em Três Pontas, no sul de Minas Gerais, Rosiana de Oliveira Pederiva Reis Almeida encontrou na administração financeira um caminho para desenvolver a cafeicultura da família. Formada em Direito, atua na Fazenda Triunfo e na SimCafé desde 2003, com investimentos em processos de rastreabilidade, controle de custos e qualidade do produto. Terceira colocada entre as Pequenas Propriedades, integra a Associação das Mulheres do Agronegócio Minasul, ligada à participação feminina na cadeia produtiva do café.

Também em Minas Gerais, mas no município de Presidente Olegário, Karina Santos Gontijo Seibt conduz a área de cafés especiais da Agropecuária Seibt, Sementes Gaúcha. A segunda colocada entre as Grandes Propriedades implantou sistemas de rastreabilidade, compostagem e reaproveitamento de resíduos. O programa ambiental da fazenda inclui o plantio de 24 mil mudas de espécies nativas. O negócio conquistou certificações internacionais e ampliou a comercialização de cafés nos mercados brasileiro e externo.

A agregação de valor à produção rural é outro ponto presente entre as premiadas. Na Fazenda Timbaúba, no Sertão de Crateús, no Ceará, Sheilane Maria Rodrigues Magalhães transformou parte da atividade leiteira em uma agroindústria de queijos artesanais. Terceira colocada entre as Médias Propriedades, conduziu a formalização do empreendimento, obteve selos de inspeção sanitária e investiu em melhoramento genético, energia solar e compostagem. A produtora também ministra cursos destinados a agricultores da região interessados no processamento de leite.

Na periferia da cidade de São Paulo, a atividade de Roseilda Lima Duarte segue outro modelo de comercialização. Responsável pelo Sítio Bebedouro Agricultura Orgânica, a segunda colocada entre as Pequenas Propriedades concluiu, em 2014, a conversão da produção para o sistema orgânico e agroecológico. A propriedade cultiva hortaliças, frutas e plantas alimentícias não convencionais, conhecidas como PANCs, com uso de compostagem e energia solar. Além da venda de alimentos, recebe estudantes para atividades de educação ambiental e turismo pedagógico.

As experiências reconhecidas pela premiação abrangem negócios com diferentes estruturas produtivas, mas a avaliação das candidatas considera um conjunto de indicadores que ultrapassa o volume colhido ou a dimensão das propriedades. Entre os critérios estão eficiência na utilização dos recursos naturais, conservação do solo, resultados da atividade, governança e relacionamento com as comunidades. Em cada uma das três categorias rurais, são selecionadas as primeiras, segundas e terceiras colocadas.

Na categoria Ciência e Pesquisa, a escolha segue outro procedimento. As candidatas passam por uma seleção técnica antes da votação popular, que em 2026 mobilizou mais de 40 mil votos. Erika Valente de Medeiros foi a vencedora dessa etapa, com uma trajetória acadêmica voltada à microbiologia do solo e ao desenvolvimento de tecnologias aplicáveis à agricultura, especialmente em ambientes sujeitos à escassez de água e à degradação ambiental.

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