Quem percorre as estradas da Liga de Xing’an encontra um cenário dominado por lavouras de soja, milho, arroz e grandes áreas de pecuária. Poucos imaginam que em uma cidade de cerca de 300 mil habitantes, no extremo nordeste da Mongólia Interior, funciona uma das peças da estratégia chinesa para transformar ciência em produção de alimentos. A quase 1.200 quilômetros de Pequim, Ulanhot abriga um centro criado para fazer o que a China considera tão importante quanto produzir conhecimento: garantir que ele chegue ao produtor rural.
A escolha da localização ajuda a entender como a política agrícola chinesa “pensa”. A Mongólia Interior não é uma região periférica para o agronegócio do país. Com cerca de 1,18 milhão de quilômetros quadrados, um território equivalente a 12% da área da China, onde vivem 24 milhões de habitantes, ela reúne algumas das principais áreas produtoras de grãos e pecuária do norte chinês. Ao lado de Heilongjiang, Jilin e Liaoning, forma um dos grandes cinturões responsáveis pelo abastecimento interno de alimentos.
A região responde por uma produção expressiva de milho, soja, arroz, leite e carne bovina, além de concentrar extensas áreas mecanizadas e programas voltados ao melhoramento genético de plantas e animais. Nos últimos anos, essa região se tornou um dos laboratórios da estratégia chinesa para ampliar a produtividade agrícola sem depender apenas da expansão da área cultivada.

É nesse ambiente que funciona o Centro de Desenvolvimento da Inovação Científica e Tecnológica e de Transformação de Resultados da Liga de Xing’an, criado em 2021 a partir da fusão de três instituições públicas: o Instituto de Pesquisa e Aplicação de Novas Energias de Xing’an, o Instituto de Informação Científica e Tecnológica de Xing’an e o Centro de Promoção da Produtividade. A reorganização reuniu em uma única estrutura equipes, orçamento e competências voltadas à transferência de tecnologia, cooperação científica, capacitação e assistência técnica. São 100 pesquisadores entre agrônomos, matemáticos e engenheiros, dos quais 50 vão para campo, entre eles 15 mestres e um doutor.
À primeira vista, o edifício chama atenção pelo porte grandioso e que chama a atenção pela estrutura. Mas a dimensão do projeto está menos na arquitetura e mais na função que desempenha. O centro integra uma rede criada para aproximar universidades, institutos de pesquisa, empresas e produtores rurais. É uma etapa formal do sistema de inovação chinês: transformar descobertas científicas em soluções capazes de ser aplicadas em larga escala.

“Este não é um centro de pesquisa. Nosso principal objetivo é transferir conhecimento para a prática”, afirma Xu Hong-Ru. À frente da instituição, ela é uma especialista em difusão tecnológica agrícola e uma das responsáveis por transformar resultados científicos em práticas adotadas pelos produtores rurais da Liga de Xing’an. Além de dirigir o centro, Xu Hong-Ru participa de programas oficiais de capacitação, orienta a implantação de tecnologias no campo e integra iniciativas nacionais voltadas à transferência de inovação para a agricultura chinesa.
O que Xu Hong-Ru fala mostra uma característica pouco conhecida do modelo chinês. Em muitos países, a inovação termina quando uma nova tecnologia é desenvolvida. Na China, existe uma estrutura dedicada exclusivamente ao passo seguinte: adaptar, validar, demonstrar e ensinar, tudo isso em uma grande e espetaculosa estrutura que também funciona como propaganda e promoção.
O centro recebe tecnologias desenvolvidas por universidades, institutos públicos e empresas, identifica onde elas podem ser utilizadas, instala áreas demonstrativas, promove treinamento de agricultores, conecta pesquisadores ao setor produtivo e acompanha a adoção das inovações nas propriedades rurais. Também administra plataformas de transferência tecnológica, coordena especialistas enviados às empresas e organiza programas de cooperação científica.

Na soja, por exemplo, uma das prioridades da política de segurança alimentar chinesa, o trabalho está concentrado em aumentar a produtividade das áreas já cultivadas. “Nossa contribuição é desenvolver soluções práticas que possam ser reproduzidas no norte da China”, afirmou Xu.
Segundo ela, os principais avanços esperados estão associados à biotecnologia aplicada ao controle de plantas daninhas e ao aperfeiçoamento do manejo das lavouras. “Sim, há oportunidade”, respondeu ao ser questionada sobre o potencial de expansão da produção chinesa de soja. “Se conseguirmos resolver esses problemas, mais agricultores terão interesse em produzir soja.”
A diretora explicou que a instituição mantém áreas experimentais onde os produtores acompanham, na prática, o desempenho das tecnologias antes de levá-las às suas propriedades.