“O mais importante não é olhar para trás. É olhar para o próximo salto do algodão brasileiro”, diz André de Paulo, ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, durante a abertura do 15º Congresso Brasileiro do Algodão (15º CBA), iniciado na terça-feira (22), em Belo Horizonte (MG). Até o dia 24 de setembro, o Expominas BH recebe produtores, pesquisadores, lideranças, empresas e representantes da indústria para discutir os próximos passos de uma cadeia que consolidou o Brasil como maior exportador mundial da fibra. A Forbes Agro acompanha os três dias de programação diretamente do Congresso.
Durante a abertura, o ministro da Agricultura deixou evidente que o momento atual do setor passa por uma agenda ampla, que envolve competitividade, logística, crédito, abertura de mercados, industrialização, rastreabilidade e adaptação às mudanças do comércio internacional.
“O mercado internacional mudou: já não basta responder o quanto produzimos, precisamos demonstrar como produzimos,” diz André. “O algodão brasileiro já mostrou ao mundo do que é capaz: transformou o Cerrado, ganhou produtividade, conquistou mercados e chegou à liderança mundial. E quem já conquistou algo tão grande não pode pensar pequeno.”
Para o presidente da Abrapa, Gustavo Viganó Piccoli, o desempenho da última safra confirma a capacidade da cadeia de manter elevados níveis de produtividade, mesmo diante de um cenário internacional marcado por conflitos geopolíticos e oscilações nos custos dos principais insumos.
Segundo ele, embora a área cultivada tenha sido menor na temporada recém-encerrada, a produtividade compensou essa redução, mantendo a produção em patamar semelhante ao ciclo anterior. Para a próxima safra, a expectativa da entidade é de expansão entre 8% e 10% da área destinada ao algodão, ainda condicionada ao comportamento climático. Isso significa que a área poderá chegar a 2,2 milhões de hectares na safra 2026/27.
A safra 2025/26, a área plantada foi de 2 milhões de hectares, com uma produção recorde histórica de 4,1 milhões de toneladas de algodão em pluma, 1,5% a mais que na safra 2025/26, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). As exportações em 2025 foram de 3,1 milhões de toneladas, o que correspondeu a 74,8% da safra 2025/26, com receita de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,6 bilhões, na cotação atual).
Desafios do setor algodoeiro do Brasil

Ao analisar os desafios do setor, Piccoli destacou que as maiores preocupações continuam concentradas fora da porteira, principalmente nos preços dos fertilizantes, do petróleo e dos combustíveis, fatores diretamente influenciados pelo cenário geopolítico internacional. Ainda assim, afirmou que o setor mantém uma perspectiva positiva para a próxima temporada.
Outro tema recorrente durante sua coletiva foi a estratégia de valorização da fibra natural diante do avanço das fibras sintéticas. Segundo o presidente da Abrapa, a cadeia brasileira vem ampliando investimentos em certificação, rastreabilidade e campanhas de conscientização para reforçar os diferenciais ambientais do algodão brasileiro junto aos consumidores e compradores internacionais.
“A nossa preocupação é com o movimento contra a industrialização do país. Nós teríamos muito a ganhar se realmente se investisse mais na indústria têxtil nacional. o Brasil tem vocação para a indústria têxtil,” diz Piccoli.
Essa estratégia ganha importância em um mercado cujo consumo mundial permanece praticamente estável há vários anos. Para Piccoli, ampliar a participação da fibra natural passa pela construção de valor, apoiada em atributos como sustentabilidade, qualidade e transparência, características que, segundo ele, já diferenciam o algodão produzido no Brasil.
O dirigente também chamou atenção para outro desafio considerado estratégico pela Abrapa: fortalecer a indústria têxtil brasileira. Atualmente, cerca de 700 mil toneladas da produção nacional são processadas internamente. A meta, construída em parceria com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), é elevar esse volume para pelo menos 1 milhão de toneladas, ampliando a agregação de valor dentro do país e estimulando a geração de emprego e renda. Para isso, defendeu políticas que ampliem a competitividade da indústria nacional diante dos produtos importados.
Na avaliação de Piccoli, a consolidação do Brasil entre os principais produtores mundiais também está relacionada à capacidade de fornecer algodão certificado durante todo o ano. Segundo ele, além da qualidade da fibra, compradores internacionais buscam previsibilidade, rastreabilidade e segurança no abastecimento, fatores que têm ampliado a presença brasileira em mercados estratégicos.
Competitividade passa por crédito, mercados e segurança de insumos

Ao abrir oficialmente o Congresso, o ministro André de Paula afirmou que manter a competitividade do agronegócio brasileiro depende tanto da eficiência dentro das propriedades quanto da atuação do Estado em temas como infraestrutura, crédito, abertura de mercados e segurança no fornecimento de insumos.
Segundo o ministro, o governo trabalha para reduzir a dependência externa de fertilizantes por meio do Programa Nacional de Fertilizantes (Profert), que prevê a retomada das fábricas nacionais de nitrogenados. Paralelamente, destacou acordos internacionais para garantir o abastecimento, entre eles um compromisso firmado com o Marrocos para fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados, além da priorização da descarga de navios carregados com fertilizantes nos portos brasileiros.
Outro ponto enfatizado foi a ampliação do acesso do agro brasileiro aos mercados internacionais. André de Paula afirmou que o governo está próximo de superar a marca de 700 novos mercados abertos desde o início da atual gestão, resultado que atribuiu ao trabalho diplomático e ao reconhecimento internacional da qualidade sanitária dos produtos brasileiros. O algodão, segundo ele, simboliza esse avanço ao consolidar o Brasil como maior exportador mundial da fibra e ampliar sua presença em países considerados estratégicos, como o Egito.
O ministro também destacou investimentos em inteligência climática, modernização do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), fortalecimento do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), expansão da rede de estações meteorológicas e medidas voltadas à gestão dos impactos do El Niño. Segundo ele, o governo estruturou uma força-tarefa envolvendo diferentes ministérios para reduzir riscos à produção agrícola diante de eventos climáticos extremos.
Ainda durante a coletiva, André de Paula afirmou que o governo acompanha diariamente a execução do Plano Safra, trabalha em medidas relacionadas ao endividamento rural e espera a sanção do Projeto de Lei do Seguro Rural, considerado pelo setor um instrumento importante para ampliar a previsibilidade ao produtor. Ao longo dos próximos dias, a Forbes Agro acompanhará os principais debates, anúncios e tendências que devem influenciar os rumos de uma das cadeias mais estratégicas do agronegócio nacional.