“Hoje, o algodão perde espaço todos os dias para as fibras de origem fóssil, e essa perda não é sobre estética ou sobre moda: é sobre o que vestimos, o que respiramos e sobre aquilo que a gente devolve para o planeta.” Foi assim que a presidente da Associação Baiana de Produtores de Algodão (Abapa), Alessandra Zanotto Costa, abriu um dos debates mais concorrido no 15º Congresso Brasileiro do Algodão. No palco, o movimento “Microplástico é o Fim da Linha” colocou uma questão que ultrapassa o dilema da escolha entre uma camiseta de algodão ou uma peça de poliéster. O que está nessa provocação é o tipo de matéria-prima que o Brasil pretende consumir, produzir e estimular nos próximos anos.
A mesa reuniu representantes da produção agrícola, medicina, meio ambiente, indústria e varejo para tratar de saúde pública, poluição, competitividade e política econômica. A proposta que saiu do encontro é transformar informação, pesquisa e inovação em instrumentos capazes de ampliar o espaço das fibras naturais, com o algodão como um meio para essa estratégia.
A Forbes Agro desde o início da semana vem acompanhando os debates do evento. O debate ocorre tendo como fio dessa meada, digamos assim, uma contradição brasileira. O país produz cerca de 4 milhões de toneladas de algodão, tornou-se o maior exportador mundial da fibra e possui a quinta maior indústria têxtil do planeta. Mas apenas 20% da produção de algodão permanece no mercado doméstico. Os outros 80% seguem principalmente para a Ásia.
Somos um dos principais produtores e o maior exportador de algodão do mundo, mas isso não se reflete no que o Brasil veste”, disse Alessandra.
Fernando Rati, head de Negócios e Relações Internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), mostrou essa contradição pelos dados do mercado. O consumo doméstico de algodão está próximo de 700 mil toneladas, enquanto a importação brasileira de fibras sintéticas chega a cerca de 2 milhões de toneladas. No vestuário, a participação é ainda menor: 25% de algodão, 71% de fibras sintéticas e cerca de 4% de fibras artificiais, como viscose. “Hoje, de tudo o que nós vestimos, 25% é algodão e mais de 70% são fibras sintéticas, 71%, para ser mais exato”, afirmou.
Essa é uma mudança importante na estrutura de um mercado que já foi mais dependente das fibras naturais. Há dez anos, segundo Rati, o algodão representava cerca de 40% do que os brasileiros vestiam. A queda ocorreu enquanto o consumo de fibras sintéticas avançou, em grande parte sustentado por matérias-primas de origem fóssil e mais baratas.
No mundo, o movimento é semelhante. O levantamento mais recente da Textile Exchange aponta uma produção global de 139 milhões de toneladas de fibras em 2025. As sintéticas responderam por cerca de 96 milhões de toneladas, perto de 70% do total. O algodão alcançou 25,7 milhões de toneladas, cerca de 18% do mercado. O poliéster sozinho chegou a 82,5 milhões de toneladas, sendo 72,8 milhões de toneladas produzidas a partir de matéria-prima fóssil.
Em termos de valor, para fibras naturais, a Fortune Business Insights estima o mercado global em US$ 62,9 bilhões em 2025 (R$ 326,6 bilhões na cotação atual), com projeção para US$ 99,3 bilhões em 20234 (R$ 515,6 bilhões), um crescimento médio de 5,1% ao ano entre 2026 e 2034. Já para as fibras sintéticas, o mercado chegou a US$ 98,9 bilhões (R$ 513,5 bilhões) em 2025 e projeta US$ 176,9 bilhões (R$ 918,5 bilhões) em 2034, com crescimento médio de 6,7% por ano.
O plástico que chega ao corpo

A campanha “Microplástico é o Fim da Linha” nasceu justamente dessa mudança na composição das roupas. Para Paulo Saldiva, professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, o problema precisa ser observado também pelo lado da saúde.
Médico e patologista, Saldiva trabalha com a leitura de doenças e alterações encontradas no corpo humano. Ele relatou ao congresso a identificação de micropartículas em tecidos e chamou atenção para a necessidade de transformar os dados médicos em informação para a sociedade. “Vim aqui para falar em nome das pessoas, dar voz às pessoas adoecidas e àquelas em que se pode detectar os efeitos do ambiente no corpo”, afirmou. “A saúde não regula o mercado, mas pode mostrar o custo real das escolhas precificando o valor de anos de vida perdidos.”
A discussão não ficou restrita ao organismo humano. Michel dos Santos, especialista em políticas públicas da organização não-governamental WWF-Brasil, levou o debate para o ciclo completo da roupa, desde a matéria-prima até o descarte. Segundo os dados apresentados, as microfibras provenientes de tecidos sintéticos podem representar entre 16% e 35% dos microplásticos lançados nos oceanos. “Se o problema dos microplásticos têm uma dimensão sistêmica, a solução também precisa ser sistêmica”, disse.
É aí que a escolha da fibra deixa de ser apenas uma decisão de indústria ou de consumidor, passando a envolver desenho de produto, rastreabilidade, descarte, reciclagem e política pública. “A escolha da matéria-prima tem consequências que não terminam na produção da roupa em si: precisamos olhar o ciclo de vida completo do produto”, afirmou Michel.
Do campo para a etiqueta
Se o problema é sistêmico, a resposta também terá de atravessar a cadeia produtiva. Por isso, o varejo é importante como uma das pontes entre o produtor de algodão e quem compra uma roupa. Na Veste, que reúne marcas como Dudalina, Le Lis, John John e Bo.Bô, e que faturou R$ 1,24 bilhão em 2025, a estratégia também passa pela rastreabilidade. Renata Viacava, diretora de Marcas da Veste lembrou que a Dudalina possui cerca de 71% de algodão em seu portfólio.
“Somos o elo entre o campo e o consumidor; para nós é muito importante trazer transparência e divulgar essa fibra tão relevante”, afirmou. Para a executiva, a informação deve ser parte do produto. Rastrear a origem do algodão, comprovar práticas agrícolas, informar o consumidor e criar mecanismos que reconheçam esse esforço são movimentos que aproximam a fazenda da etiqueta.
Eduardo Ferlauto, diretor de Sustentabilidade da Lojas Renner, com receita líquida de R$ 13,8 bilhões, vai pelo mesmo caminho. Segundo o executivo, a empresa trabalha com metas de descarbonização para 2030 e a escolha da matéria-prima é estratégica para a companhia.
Hoje na Renner, todo o algodão utilizado em suas peças possui certificação de sustentabilidade, por meio da parceria com a Abapa e a Better Cotton Initiative desde 2016. “A estratégia de sustentabilidade veio como um viabilizador para a mudança de ‘mindset’, permitindo nos aproximar cada vez mais da indústria”, diz Ferlauto.
O próximo mercado pode estar no crédito

A parte mais embrionária e talvez uma das mais econômicas do debate veio de Miguel Novato, um dos articuladores do RenovaBio e que atualmente está à frente da unidade Embrapa Arroz e Feijão, em Santo Antônio de Goiás (GO). A proposta apresentada por ele ainda está em fase inicial, mas parte do que já é feito no mercado de biocombustíveis: medir a diferença de impacto entre alternativas e transformar essa diferença em valor econômico.
A ideia recebeu o nome de RenovaTêxtil. O desenho apresentado por Novato considera um mecanismo de certificação e compensação capaz de calcular externalidades associadas às fibras fósseis, como emissões de CO2, geração de resíduos e impactos relacionados aos microplásticos. O modelo usaria meta-análises de estudos internacionais para comparar a pegada socioambiental das fibras sintéticas com a produção sustentável de algodão. “A externalidade ocorre quando se paga pela destruição da natureza sem perceber; precisamos de políticas públicas que tragam o custo real dessas escolhas”, afirmou Novato.
A estratégia apresentada se espelha no RenovaBio, desenvolvido para a compensação de gases no setor de produção de etanol. A diferença de impacto entre uma matéria-prima fóssil e uma alternativa renovável seria transformada em uma valoração e, posteriormente, em créditos destinados à cadeia que comprovassem menor impacto. No caso do algodão, a proposta poderia favorecer produtores certificados, desde que a metodologia consiga medir e comprovar os ganhos ambientais e sociais.
A vantagem inicial do algodão brasileiro, segundo o especialista, está na estrutura da própria cadeia. A produção possui sistemas de certificação, rastreabilidade e integração entre produtores, algodoeiras e indústria. Isso permitiria construir uma base de dados para medir práticas agrícolas e ambientais e, a partir daí, atribuir valor econômico à descarbonização. O futuro, portanto, não depende apenas de produzir mais algodão, mas de provar como ele foi produzido e quanto valor ambiental aquela produção entrega.