A Cúpula de Líderes do Brics, marcada para este sábado e domingo (12 e 13) em Nova Delhi, chega ao agronegócio brasileiro por meio de negociações que envolvem comércio, insumos e geopolítica, e que vai além da pauta diplomática do encontro. A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã reduziu o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz e atingiu uma região responsável por parte do fornecimento mundial de fertilizantes, enquanto Índia e China movimentam compras de alimentos e commodities agrícolas. Ao mesmo tempo, Nova Delhi pretende avançar nas discussões sobre pagamentos internacionais entre os integrantes do bloco, mecanismo com efeito potencial sobre as transações de soja, carnes, açúcar e insumos. A sigla reúne Brasil, Rússia, Índia e China, sob o nome BRIC desde 2011, ano em que África do Sul entrou, acrescentando o “S”.
“Em 2024, o Brasil exportou US$ 165 bilhões em produtos agropecuários, sendo 41% para os países membros do Brics”, informou o Ministério da Agricultura e Pecuária durante as reuniões do Grupo de Trabalho de Agricultura realizadas na presidência brasileira do bloco. Naquele ciclo, o GT colocou entre seus temas segurança alimentar, produção agrícola sustentável, comércio e infraestrutura e certificação eletrônica, além de preparar o Plano de Ação 2025-2028. A declaração ministerial aprovada em Brasília estabeleceu ainda o compromisso de facilitar o comércio de produtos agrícolas entre os integrantes.
A dimensão agrícola do Brics acompanha o tamanho do grupo no sistema de alimentos. Na declaração dos ministros da Agricultura de 2025 está registado que seus integrantes reúnem 33% das terras agrícolas e 42% da produção agropecuária mundial. O documento estabelece entre as prioridades do bloco o comércio de produtos agrícolas, a segurança alimentar, o financiamento rural, a inovação e a integração de sistemas de certificação. A Declaração do Rio, aprovada pelos líderes em julho de 2025, acrescentou o compromisso de reduzir interrupções no comércio de alimentos e fertilizantes e manter o fluxo de insumos necessários à produção. Confira a seguir, quatro pontos de atenção para os próximos dois dias de evento:
1 – Fertilizantes entram na conta da guerra
Para o produtor brasileiro, a consequência mais nefasta do conflito no Oriente Médio passa pelos fertilizantes. Em 2025, o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de adubos e fertilizantes químicos, por US$ 15,46 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/MDIC). O país compra no exterior cerca de 80% dos fertilizantes utilizados nas lavouras, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, dependência que conecta os custos de soja, milho, algodão, café e cana às condições de oferta, energia e transporte marítimo fora do Brasil.
Em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% das importações brasileiras de fertilizantes, a China por 18,8% e o Oriente Médio por 14,5%, segundo a Secex/MDIC. Nos fertilizantes nitrogenados, que corresponderam a cerca de um terço das compras externas do país, 22% tiveram origem no Oriente Médio. A região concentra ainda cerca de 34% do comércio mundial de ureia, segundo a International Fertilizer Association (IFA). A fabricação do produto utiliza gás natural como um de seus principais insumos.
A guerra atingiu justamente essa estrutura de fornecimento em um ano de retração das compras externas brasileiras. Entre janeiro e julho, o país importou 22,4 milhões de toneladas de fertilizantes, volume 7,48% inferior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo o Boletim Logístico de agosto da Conab. A redução ocorre enquanto o conflito no Oriente Médio mantém sob atenção as rotas marítimas e a oferta de nitrogenados, especialmente os produtos ligados ao gás natural e ao comércio pelo Golfo. A Conab apontou risco para o abastecimento brasileiro, para um consumo estimado em 51,7 milhões de toneladas.
O tema ganhou uma resposta doméstica no início de setembro. No dia 3, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.496, que instituiu o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). A norma estabelece entre seus objetivos reduzir a dependência externa, diminuir os custos da cadeia agropecuária e garantir suprimento estável de fertilizantes e matérias-primas.
2 – Índia amplia espaço para alimentos brasileiros
A Índia recebe os líderes do Brics em um momento de aumento das importações de alimentos. As exportações do agronegócio brasileiro para o mercado indiano foi de US$ 2,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 78,3% sobre igual período de 2025, segundo o Mapa.
O mercado é relevante principalmente para óleos vegetais e começa a abrir espaço em outras cadeias. O Ministério da Agricultura informa que a Índia está entre os principais compradores brasileiros de óleo de soja, feijão caupi e rajado, gergelim e outros produtos, além de apontar possibilidade de expansão em proteínas animais, farelo de soja, frutas, algodão, madeira e couro.
Em 2026, o movimento ganhou outro componente. Chuvas abaixo da média durante a temporada de monções colocaram sob pressão lavouras indianas de soja, milho, arroz, algodão, cana e leguminosas, segundo a Reuters. Um prolongamento da deficiência hídrica pode aumentar ainda mais a necessidade de importações de açúcar, óleos vegetais e pulses.
O açúcar já entrou nessa conta. O governo indiano autorizou a importação sem tarifa de 1 milhão de toneladas. A medida foi adotada depois que os preços internos subiram e antes do período de maior consumo associado aos festivais locais.
3 – Pagamentos do Brics podem chegar às commodities
A terceira frente passa pelo dinheiro usado para liquidar o comércio. A Índia pretende defender a conexão entre moedas digitais emitidas pelos bancos centrais dos países do Brics para facilitar pagamentos internacionais. A proposta procura dar continuidade às discussões iniciadas pelo grupo sobre interoperabilidade entre sistemas financeiros e uso de moedas nacionais.
Um documento dos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do Brics criou a iniciativa de pagamentos transfronteiriços (BCBPI, sigla para BRICS Cross-Border Payments Initiative), com a proposta de tornar transferências mais rápidas e baratas e permitir liquidações em moedas locais. O mecanismo é voluntário e ainda depende de soluções técnicas e de consenso político.
Para o agro brasileiro, a relevância está no volume comercializado com os integrantes do bloco, especialmente China, Índia e Rússia, mercados ligados às principais cadeias de exportação e de importação de insumos. Em operações de grande escala, mudanças no custo, no prazo ou na moeda de liquidação podem alterar a estrutura financeira de vendas de soja, carnes e açúcar e das compras de fertilizantes.
Mas a implementação encontra obstáculos dentro do próprio Brics. A ruptura das relações financeiras entre Irã e Emirados e as reservas indianas quanto a uma integração financeira mais ampla com a China dificultam a proposta. Nova Delhi afirma que o projeto pretende agilizar transações internacionais, sem criar uma moeda comum destinada a substituir o dólar.
4 – Soja brasileira entra na disputa entre China e Estados Unidos
A soja é a cadeia agrícola brasileira mais diretamente exposta às decisões de compra da China e às mudanças na relação comercial entre Pequim e Washington. Em 2025, a China importou US$ 50,33 bilhões em soja, equivalentes a 111,83 milhões de toneladas, volume recorde e 6,5% superior ao de 2024, segundo dados da alfândega chinesa. Desse total, US$ 34,5 bilhões saíram do Brasil, o equivalente a 68,5% do valor desembolsado pelo país com a commodity.
Nesta semana, empresas estatais chinesas compraram cerca de 1 milhão de toneladas de soja dos Estados Unidos. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou vendas de 340 mil toneladas para a China. O movimento ocorreu antes da prevista visita do presidente Xi Jinping ao país, e em um período de menor disponibilidade brasileira entre uma safra e outra.
As compras americanas ganham peso porque a China vinha concentrando grande parte de suas aquisições na América do Sul. Mas os compradores privados chineses ainda enfrentam tarifa de 10% sobre a soja dos Estados Unidos, fator que mantém o produto brasileiro competitivo em boa parte do ano. Uma eventual mudança nessa tarifa ou em outras condições comerciais pode alterar a divisão das compras chinesas entre Brasil e Estados Unidos.
A sazonalidade também entra nessa disputa, porque o Brasil concentra os maiores embarques depois da colheita, enquanto os Estados Unidos ganham espaço no segundo semestre, quando sua safra chega ao mercado e os estoques brasileiros ficam menores. Qualquer mudança nas condições comerciais entre Pequim e Washington nesse período pode aparecer nos prêmios pagos nos portos brasileiros e nas decisões de comercialização dos produtores.