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Da Tecnologia na África Ao Ouro Verde, a Aposta de um produtor Que Está Transformando o Pistache na Argentina

Depois de liderar negócios de tecnologia no exterior, Juan Ignacio Ponelli fundou a AgroFides para posicionar o país no mercado mercado global

7 min

A trajetória profissional do argentino Juan Ignacio Ponelli parecia firmemente definida no universo da alta tecnologia e da gestão corporativa internacional. Em 2013, sua carreira ganhou dimensão global quando ele se estabeleceu em Ruanda, na África, para liderar a implantação de uma planta industrial, desafio a partir do qual comandou a expansão para mercados como Quênia e Gana. Depois de cinco anos no continente africano e de volta à Argentina, assumiu a gerência-geral global da Positivo BGH, empresa de tecnologia que surgiu da associação entre a brasileira Positivo Tecnologia e a argentina Boris Garfunkel e Hijos, a BGH. No entanto, permanecia o interesse em aplicar essa experiência acumulada à economia real e gerar um impacto de longo prazo.

A ligação de Ponelli com a terra não era algo novo. Sua história familiar guarda uma profunda tradição agropecuária, iniciada com a chegada de seus bisavós ao país e que abrangeu desde plantações de erva-mate e pinheirais em Misiones até a pecuária e a silvicultura. No entanto, no momento de estruturar um projeto próprio, a decisão não nasceu de uma imposição familiar nem de uma visão romântica sobre a terra, mas de uma rigorosa análise financeira e estratégica.

“Minha história com o pistache vem de 2018. Na realidade, entrei no cultivo pelo caminho inverso ao que geralmente acontece com os produtores, em termos gerais: comecei pelo negócio. A partir de uma hipótese de negócio com determinados parâmetros, o pistache foi o que melhor se adaptou a eles. Não comecei por um cultivo que me atraía, mas ocorreu o contrário: procurei inserir um projeto na economia real e o pistache foi o vencedor”, afirma Ponelli, fundador da AgroFides.

Uma equação estratégica: proteção patrimonial e demanda global

Durante sua permanência na África, o executivo planejou como transferir a eficiência da gestão corporativa para o campo. Nesse contexto, identificou a produção de alimentos como uma área crítica para a economia global até 2050, quando, segundo previsão da FAO, a produção mundial precisará crescer 60%. Além disso, Ponelli procurava uma alternativa voltada à formação de patrimônio duradouro e legado, distante das especulações conjunturais associadas às safras anuais.

Fields_DivulgDetalhe do cultivo de pistache

As frutas de casca rija, e o pistache em particular, se encaixavam com precisão nesse modelo. Trata-se de uma cultura perene, cujos pomares podem manter sua produtividade por mais de um século. Soma-se a isso um fator agronômico decisivo: a previsibilidade. Diferentemente de outros empreendimentos expostos a intempéries repentinas, o sistema tecnológico empregado no pistache, que utiliza porta-enxertos desenvolvidos pela Universidade da Califórnia (UCB1), sistemas automatizados de irrigação por gotejamento que aproveitam água proveniente do degelo ou de aquíferos e um monitoramento rigoroso do solo, reduz substancialmente o risco produtivo.

Do ponto de vista do mercado, os números sustentam o entusiasmo dos investidores. A demanda global pela fruta vem crescendo a um ritmo de 6,5% ao ano, de maneira contínua, nas últimas duas décadas. Três países, Estados Unidos, Irã e Turquia, concentram 90% da oferta mundial, impondo elevadas barreiras de entrada relacionadas ao capital inicial e às exigências agroclimáticas. Embora a Argentina ainda tenha uma participação incipiente, com pouco mais de 9.000 hectares plantados e três milhões de árvores, reúne condições excepcionais em províncias como San Juan, Mendoza, La Rioja, San Luis e La Pampa: elevada radiação solar, grande amplitude térmica, baixa umidade relativa, que previne doenças criptogâmicas, e uma posição privilegiada de produção em período de entressafra em relação ao Hemisfério Norte.

O fenômeno não está relacionado apenas aos usos gastronômicos tradicionais. A versatilidade do pistache consolidou sua presença em snacks, confeitaria, sorvetes premium, panificação, bebidas vegetais e cosméticos, além do aproveitamento integral de suas cascas em modelos de economia circular. “O ano de 2025 foi um boom inesperado que explodiu em escala global, impulsionado por tendências nas redes sociais, como o famoso Chocolate Dubai. Isso provocou um salto adicional em uma curva de demanda que já apresentava forte crescimento e acelerou a visibilidade da cultura na agenda pública e comercial”, afirma o fundador.

AgroFides e o modelo de democratização do capital agrícola

Em 2022, a AgroFides deu seus primeiros passos concretos com o desenvolvimento de um empreendimento familiar de 110 hectares plantados com capital próprio em território da província de San Juan. O rigor metodológico foi a premissa central desde o primeiro dia. “Oitenta por cento do sucesso de um projeto com essas características é definido até o momento do plantio. Toda a estratégia, a logística, os acessos, a rastreabilidade das plantas, as obras de infraestrutura de irrigação e o preparo profundo do solo com máquinas pesadas precisam estar impecavelmente resolvidos com antecedência. Os 20% restantes correspondem à execução e à gestão empresarial eficiente da propriedade”, detalha Ponelli.

AgroFides_DivulgLavoura de pistache em fase inicial

Com a estrutura em funcionamento e depois de validar o modelo técnico, a empresa avançou em direção à expansão em escala ao lançar seu veículo de investimento coletivo por meio da propriedade “La Memita”. A proposta permite que profissionais, empresários, family offices e pequenos investidores tenham acesso a um ativo produtivo de grande escala, administrado profissionalmente, sem a necessidade de operar diretamente a terra nem possuir experiência prévia no setor agropecuário.

O veículo é estruturado por meio de um fideicomisso transparente, no qual a unidade mínima de participação corresponde ao valor de um hectare, com investimento inicial de US$ 30.000 (R$ 159.600 na cotação atual) e aportes operacionais anuais durante a etapa de desenvolvimento até o início da produção comercial. Esse modelo evita a venda de parcelas individuais e garante que todo o patrimônio, incluindo terras, direitos sobre a água, árvores e infraestrutura, pertença de forma indivisa ao fideicomisso.

“Não estamos no negócio de vender hectares como um produto imobiliário tradicional. Oferecemos a participação em uma unidade produtiva integral. Dessa forma, o investidor obtém economia de escala, diversifica os riscos agronômicos e protege seu capital em um ativo tangível que não perde valor. É uma alternativa de renda passiva que compete favoravelmente com os imóveis urbanos e gera dividendos periódicos depois que a fase de produção comercial é alcançada, por volta do oitavo ano, com retornos projetados de até 20% ao ano em dólares”, argumenta o executivo.

AgroFides_DivulgSistema de irrigação implantado

Além do atrativo econômico, o projeto contempla uma visão abrangente de triplo impacto. O uso eficiente da energia por meio de painéis fotovoltaicos e a aplicação de irrigação por gotejamento pressurizado são complementados pela captura de carbono proporcionada por mais de 42.000 árvores plantadas em áreas hiperáridas. No âmbito social, promove a permanência da população no meio rural por meio da criação de postos de trabalho qualificados e formais em comunidades do oeste argentino.

A perspectiva da AgroFides é consolidar um ecossistema dinâmico de fornecedores e agregação de valor que acompanhe a expansão da fronteira produtiva. Para o futuro, a empresa pretende atrair volumes maiores de capital institucional para transformar a matriz agroexportadora regional. Nas palavras de Ponelli, a meta final vai além da rentabilidade conjuntural: trata-se de estabelecer as bases para que a Argentina se consolide como um ator de referência global na indústria do pistache, unindo a precisão da gestão corporativa à solidez da economia real.

Publicado originalmente em Forbes Argentina

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