Os Estados Unidos não se cansam de Matcha. Mas esse boom está criando um problema inesperado no Japão: o país pode não ter chá, agricultores ou capacidade de processamento suficientes para acompanhar a demanda mundial. Os Matcha lattes se tornaram uma importante porta de entrada para os consumidores americanos. As exportações japonesas de chá atingiram o recorde de 72,1 bilhões de ienes japoneses (R$ 2,38 bilhões na cotação atual) em 2025, alta de 98% em relação ao ano anterior e cerca de três vezes o nível registrado uma década antes. Os Estados Unidos responderam por 35% das exportações totais de chá do Japão, e o Matcha representou aproximadamente 85% dessas exportações.
A disparada é uma grande oportunidade financeira para os produtores de Matcha. Mas, para a indústria japonesa de chá como um todo, está provocando um aperto na cadeia de abastecimento. Compradores estrangeiros estão fazendo ofertas agressivas por Tencha de alta qualidade, as folhas de chá utilizadas para produzir Matcha.
Segundo o Japan Food Journal e a NHK, o preço do Tencha subiu pelo quinto ano consecutivo, passando de 5.678 ienes japoneses por quilo (R$ 180) em 2024 para 14.681 ienes japoneses por quilo (R$ 485) em 2025, um aumento de quase três vezes em apenas um ano.
Ao mesmo tempo, uma parcela cada vez maior do Matcha de alta qualidade está sendo destinada aos lucrativos mercados de exportação, o que contribui para reduzir a oferta no mercado interno. Mais agricultores também estão convertendo áreas antes destinadas ao Sencha, o tradicional chá verde japonês de folhas soltas, para a produção de Tencha por causa dos retornos mais elevados. Essa mudança também poderá exercer pressão de alta sobre os preços de outros tipos de chá japonês.
O problema é que o Japão não pode simplesmente plantar mais chá de um dia para o outro. Durante gerações, o Sencha esteve no centro da indústria de chá do Japão. A produção de Tencha, porém, exige métodos diferentes de cultivo e processamento. Os agricultores precisam de materiais para proteger as plantas de chá da luz solar, além de equipamentos especializados de secagem e outras máquinas que podem exigir investimentos de dezenas de milhões de ienes japoneses, equivalentes a centenas de milhares de reais na cotação atual. Para produtores menores, sem capital para realizar esses investimentos, a mudança da indústria em direção ao Matcha pode representar uma pressão adicional para abandonar a atividade.

Mesmo produzir Tencha não resolve todo o problema. As folhas ainda precisam ser moídas até se transformarem no pó fino conhecido como Matcha, um processo que normalmente exige instalações especializadas de moagem. A moagem em alta velocidade com moinhos metálicos refrigerados é comum, mas essas instalações continuam sendo limitadas em número no Japão e são caras para construir.
Como resultado, a demanda pela capacidade limitada de moagem do país disparou, criando filas de espera por horários disponíveis para processamento. Há ainda outro problema estrutural. A área destinada ao cultivo de chá no Japão não pode ser ampliada rapidamente.
Quando terras agrícolas existentes são convertidas para a produção de Tencha, sobra menos área disponível para Sencha e outras variedades. Se essa mudança continuar, o atual boom do Matcha poderá acabar contribuindo para preços mais altos e oferta mais restrita em todo o mercado japonês de chá verde.
A resposta incomum de uma fazenda
Um produtor de chá da província de Shizuoka está adotando uma abordagem diferente. Em vez de simplesmente ampliar a produção, a Hattori Tea Farm está tentando tornar sua atividade agrícola mais produtiva, mais independente em termos de energia e mais resistente às mudanças climáticas.
A empresa é comandada por Yoshiaki Hattori, integrante da quarta geração de uma família que atua no setor de chá há cerca de 120 anos. Ao trabalhar no negócio da família, Hattori passou a perceber cada vez mais a complexidade do sistema japonês de distribuição de chá e começou a questionar por que os consumidores frequentemente tinham tão pouco contato com as pessoas que efetivamente cultivavam o chá. Ele queria simplificar a cadeia de abastecimento e entregar diretamente aos consumidores um chá melhor e mais seguro.
Atualmente, a Hattori Tea Farm cuida da produção, do processamento e da venda de Matcha orgânico e sem pesticidas, além de outros tipos de chá provenientes de sua própria operação, e exporta produtos de chá para aproximadamente 50 países. “Nos últimos anos, temos aumentado a produção em cerca de 150% a cada ano, mas ainda assim não conseguimos acompanhar a demanda”, afirma Hattori.
Hattori começou a olhar para o exterior muito antes de o Matcha se tornar uma tendência mundial. Quando era estudante, viajou para outros países como mochileiro e, mais tarde, começou a visitar mercados europeus para vender chá japonês. Logo encontrou um problema. O Sencha exigia que os consumidores soubessem utilizar um bule e preparar corretamente o chá. O Matcha era diferente: vinha em pó, era fácil de transportar e podia ser incorporado a bebidas com as quais as pessoas já estavam familiarizadas.
Mas o próprio Hattori sabia pouco sobre como produzir Matcha. Durante seis anos, viajou para Nishio, na província de Aichi, e Uji, em Kyoto, duas das regiões produtoras de chá mais conhecidas do Japão, aprendendo a atividade desde o início. Cerca de 15 anos atrás, começou a direcionar seriamente o Matcha para os mercados internacionais.
Transformando energia solar em infraestrutura agrícola
No centro do modelo de Hattori está uma ideia incomum: utilizar a energia solar não apenas para gerar eletricidade, mas também como parte da infraestrutura de produção da fazenda.
Desde 2014, a empresa instala painéis solares acima de seus campos de chá por meio do sistema agrivoltaico, também conhecido no Japão como compartilhamento solar. A eletricidade produzida é utilizada para abastecer a fábrica de processamento de chá, os escritórios e outras operações, como os veículos elétricos da empresa. Segundo a companhia, a fábrica atualmente funciona 100% fora da rede elétrica.
Hattori também obtém receita com a venda de eletricidade por meio do programa japonês de tarifas incentivadas para energia e para clientes corporativos contratados. A redução da dependência da eletricidade comprada das concessionárias diminuiu os custos de energia da empresa para aproximadamente um terço do nível anterior, segundo Hattori.

Mas os painéis solares desempenham outra função importante. O Tencha normalmente permanece sombreado durante cerca de um mês antes da colheita. A redução da luz solar aumenta a concentração de aminoácidos nas folhas e pode melhorar o sabor e a cor. Tradicionalmente, os agricultores instalam estruturas feitas de tubos de aço ou bambu para sustentar o material de sombreamento. Essas estruturas exigem tanto mão de obra quanto materiais.
Hattori utiliza para a mesma finalidade as estruturas que sustentam os painéis solares. “As estruturas dos painéis solares também podem servir de suporte para as telas de sombreamento, tornando o processo muito mais eficiente”, afirma Hattori. “Também desenvolvemos um sistema automatizado para movimentar as telas de sombreamento e obtivemos uma patente para ele.”
Os painéis podem proporcionar benefícios adicionais durante os meses mais frios. Segundo Hattori, eles reduzem o resfriamento radiativo proveniente do solo e diminuem a probabilidade de formação de geada ao redor das plantas de chá.
Os danos provocados pela geada representam uma grande ameaça à produção de Tencha. Muitas propriedades de chá utilizam grandes ventiladores para prevenção contra geadas a fim de proteger as lavouras, consumindo eletricidade adicional. Hattori afirma que os campos equipados com painéis solares reduziram a necessidade desses ventiladores, diminuindo ainda mais os custos de energia.
A empresa também está testando se os painéis podem tornar os campos mais resistentes ao calor e às secas cada vez mais intensos. “Os painéis solares podem proporcionar certo nível de sombra e reduzir a evaporação da água do solo”, afirma Hattori. “No ano passado, 60% das mudas de Tencha recém-plantadas morreram por causa do calor extremo e da seca. As mudas dos campos com painéis solares, no entanto, cresceram com sucesso.”
O modelo pode ganhar escala?
O sucesso da operação de Hattori levanta uma questão maior: esse modelo pode funcionar além de uma única fazenda?
A resposta não é simples. O investimento inicial em instalações solares, o clima e as condições locais de cultivo, as regulamentações de uso da terra e o mercado japonês de eletricidade podem afetar a viabilidade econômica dos sistemas agrivoltaicos. Além disso, nem todo campo de chá é necessariamente adequado ao mesmo sistema. Ainda assim, Hattori está tentando levar a iniciativa para além de sua própria propriedade.
Em 2025, ele criou a Solar Matcha Cooperative para compartilhar com outros produtores de chá sua experiência com a produção de Matcha e os sistemas agrivoltaicos. O objetivo é disseminar pela região aquilo que Hattori descreve como uma abordagem mais sustentável para a produção de Matcha.
Em abril de 2025, o Norinchukin Bank e a JA Mitsui Energy Solutions criaram uma empresa de propósito específico, a Tea Field Solar LLC, tendo Hattori como parceiro, como parte de um esforço para preservar e ampliar a indústria de chá de Shizuoka. Segundo Hattori, 17 empresas agrícolas aderiram à iniciativa, e estão em andamento planos para instalar painéis solares em mais de 40 campos de chá.
Se esses projetos avançarem, a experiência de Hattori se transformará em algo maior do que a estratégia de sustentabilidade de uma única empresa. Poderá se tornar um teste para determinar se a energia renovável pode ajudar a solucionar algumas das pressões econômicas e ambientais enfrentadas pela agricultura tradicional.
A propriedade de Hattori também adota outras medidas relacionadas à sustentabilidade. Seus campos se beneficiam da abundante água de nascente proveniente dos Alpes do Sul, e a empresa realiza análises anuais do solo e ajusta o uso de fertilizantes orgânicos conforme as condições encontradas, com o objetivo de manter um ecossistema diversificado e saudável.
A abordagem parece trazer também outro benefício comercial. Compradores estrangeiros estão cada vez mais interessados em rastreabilidade e fornecimento sustentável.
“Muitos compradores que entram em contato conosco dizem que encontraram nossa fazenda ao pesquisar termos como ‘Matcha sustentável'”, afirma Hattori. “A possibilidade de rastrear o chá até uma única fazenda e o uso do cultivo orgânico podem facilitar o cumprimento dos limites de resíduos de pesticidas nos mercados externos. O uso da eletricidade que nós mesmos geramos e nossos esforços para reduzir as emissões de CO2 também parecem ser avaliados positivamente.”
Essa demanda é importante porque Hattori não compete apenas com base no preço. A proposta da empresa está cada vez mais fundamentada na procedência, na rastreabilidade e na sustentabilidade. Esses atributos podem permitir preços mais elevados em alguns mercados internacionais.
Dos Matcha lattes ao próprio Matcha
A indústria japonesa de chá possui uma história de mais de 1.200 anos. A produção de chá não é simplesmente uma atividade agrícola; representa a transmissão de conhecimentos culturais e habilidades especializadas de uma geração para outra. Ainda assim, a demanda mundial está obrigando uma indústria construída ao longo de séculos a repensar a maneira como cultiva, processa e vende o chá.
Grande parte do Matcha que Hattori atualmente exporta é utilizada em Matcha lattes e outras bebidas. Mas Hattori acredita que os consumidores internacionais estão começando a enxergar o Matcha como algo além de um ingrediente e a desenvolver apreço pelo próprio chá.
“O mercado internacional mudou drasticamente nos últimos 15 anos”, afirma. “Quando realizamos seminários na Europa, onde historicamente as pessoas gostam de se sentar para tomar chá ou café, estamos observando um número maior de pessoas com interesse genuíno e compreensão do sabor do próprio Matcha.”
Por exemplo, recentemente ele encontrou na Alemanha e na Eslováquia pessoas que descreve como grandes conhecedoras de chá japonês, consumidores que já estavam familiarizados com a cultura japonesa do chá apesar de não terem nenhuma ligação com o Japão.
Para Hattori, essa mudança pode marcar a próxima etapa do mercado mundial de Matcha. Mas, para a indústria japonesa de chá, a questão mais ampla não é simplesmente quanto Matcha o mundo quer beber. A questão é se o Japão conseguirá atender a essa demanda sem comprometer o sistema agrícola responsável por sua produção.
O desafio enfrentado pela indústria japonesa de chá é, em última análise, maior do que o Matcha. À medida que a demanda mundial transforma as cadeias tradicionais de abastecimento agrícola, os produtores precisarão encontrar maneiras de aumentar a produção sem simplesmente consumir mais terra, energia e recursos.
O modelo de Hattori oferece uma possível resposta: tornar a própria operação agrícola mais produtiva, mais independente em termos energéticos e mais resistente às mudanças climáticas. Ainda não se sabe se esse modelo poderá ser ampliado para os campos de chá de todo o Japão. Mas, à medida que o apetite dos Estados Unidos pelo Matcha continua crescendo, a secular indústria japonesa de chá talvez tenha poucas alternativas além de reinventar a forma como cultiva, processa e vende o chá.
Publicado originalmente em Forbes EUA