“Bem-vindos a Zedelgem, o lar da colheita da New Holland. Este ano celebramos 120 anos de experiência e inovação.” Com 37 anos de fábrica, Stefaan Van de Walle, diretor da unidade, recebeu os 62 jornalistas convidados pela companhia para conhecer a operação na Bélgica, incluindo neste grupo um convite à Forbes Agro.
A poucos metros estava Guy Callens, de 71 anos, dos quais 41 passados na New Holland, esperando pelo seu momento. Aposentado em 2020, ele voltou dois anos depois para conduzir visitantes pelo complexo. E ele que leva o grupo pelas unidades do complexo de Zedelgem, explicando cada detalhe das operações. “Costumo dizer que tenho 120 anos, mas sei que pareço muito mais novo”, brinca.

Van de Walle administra a fábrica de Zedelgem, um município de 23 mil habitantes, a cerca de 12 quilômetros de Bruges, uma das cidades turísticas mais visitadas da Bélgica. E Callens conta sua história. Entre os dois está uma operação de 36 hectares, com 3 mil funcionários de 30 nacionalidades, máquinas exportadas para cerca de 130 países e 150 milhões de euros (R$ 890 milhões na cotação atual) investidos entre 2022 e 2025. É dessa combinação entre experiência, produção e tecnologia que Zedelgem parte para seu próximo ciclo.
Os 120 anos chegam durante uma retração do mercado mundial para vários segmentos da economia, não somente para as máquinas agrícolas. As vendas líquidas do segmento agrícola da CNH, grupo da qual a New Holland faz parte, totalizaram US$ 12,4 bilhões (R$ 64,8 bilhões) em 2025, queda de 12% sobre 2024. A demanda por colheitadeiras recuou 3% na Europa, Oriente Médio e África e 16% na América do Sul, segundo o relatório anual do grupo. Mas a perspectiva de médio prazo contrasta com o recuo atual.

A Grand View Research estima que o mercado mundial de equipamentos agrícolas passe de US$ 176 bilhões (R$ 920,5 bilhões) em 2025 para US$ 295,3 bilhões (R$ 1,54 trilhão) em 2033, avanço médio anual de 7%. Somente o segmento de colheitadeiras deverá movimentar US$ 58,4 bilhões (R$ 305,4 bilhões) em 2030, ante US$ 42,5 bilhões (R$ 222,3 bilhões) estimados para 2026.
A MarketsandMarkets também projeta expansão: o mercado de tecnologias para colheita de precisão deve crescer 6,7% ao ano, de US$ 21,5 bilhões (R$ 112,5 bilhões) em 2025 para US$ 29,8 bilhões (R$ 155,8 bilhões) em 2030. São esses horizontes que mapeiam a fábrica de Zedelgem, porque essas projeções acompanham o aumento esperado da produção agrícola mundial, que exigirá mais capacidade de colheita, automação e eficiência no uso de insumos.
De uma caixa de madeira à CR11
A operação na Bélgica começou em 1906, quando o mecânico belga Léon Claeys passou a fabricar debulhadoras. Sua primeira máquina era uma caixa de madeira com um cilindro metálico, criada para substituir parte do trabalho realizado com o mangual. Uma fotografia de 1913, na entrada da fábrica, mostra que a empresa já tinha 45 trabalhadores. Em 1952, ela produziu a Claeys MZ, apresentada pela New Holland como a primeira colheitadeira autopropelida da Europa.
Nessa história, há marcos que a companhia não quer deixar para trás. Como, por exemplo, a tecnologia de duplo rotor chegou a Zedelgem em 1975. Desde 1906, a unidade produziu mais de 240 mil colheitadeiras e desenvolveu mais de 1.000 patentes, segundo Van de Walle. Hoje a unidade é o Centro Global de Excelência em Tecnologia de Colheita da New Holland. As linhas fabricam as colheitadeiras CX e CR, as colhedoras de forragem FR e as enfardadeiras BigBaler. “Zedelgem é o coração da colheita da New Holland”, afirmou Laurent Libbrecht, vice-presidente global de plataformas de colheita.

No topo do portfólio está a CR11, com cerca de 11 mil componentes, 75 tecnologias recém-patenteadas e a necessidade de cerca de 500 horas de produção para tirar uma única unidade da fábrica. “A CR11 reúne 120 anos de conhecimento, pesquisa e colaboração entre diferentes áreas”, diz Libbrecht. A máquina possui até 775 cavalos de potência e tanque graneleiro de 20 mil litros. Ela foi apresentada na Alemanha, na Agritechnica, feira alemã de máquinas agrícolas, e chegou para ser vendida no Brasil no ano passado. Segundo o executivo, o equipamento foi um desafio projetado do zero para elevar a capacidade sem ampliar a largura, a altura, o comprimento e, principalmente, o peso da máquina.
Callens, que vai apontando os equipamentos, diz que o recorde de colheita da New Holland também saiu de Zedelgem. Em agosto de 2014, uma CR10.90 colheu 797,656 toneladas de trigo em oito horas, média próxima de 100 toneladas por hora. “Já tentaram superar esse número, mas não conseguiram”, afirmou ele diante de certificado exposto no showroom, entre outros prêmios já recebidos, onde está até primeira colheitadeira debulhadora autopropelida da Europa.
Investimento e controle diário
Além dos 150 milhões de euros investidos na engenharia entre 2022 e 2025, que foram destinados ao desenvolvimento de produtos e na produção em Zedelgem, outros 9 milhões de euros (R$ 53 milhões) estão sendo aplicados em duas dobradeiras automáticas e na reorganização da área de componentes, trabalho previsto para terminar em março de 2027. “É um investimento grande que demonstra que a administração continua confiando nesta fábrica”, diz Callens.
A unidade adota o WCM, sigla em inglês para World Class Manufacturing. O sistema está organizado em 12 pilares, entre eles qualidade, segurança e manutenção preventiva. “Significa que jogamos na Liga dos Campeões dos fabricantes de máquinas agrícolas”, afirma Walle.
Parte dos investimentos foi destinada aos veículos guiados automaticamente, os AGVs, que transportam as máquinas entre as etapas de montagem. A fábrica também testa robôs móveis autônomos para levar peças ao armazém e substitui equipamentos de corte a laser de CO₂ por lasers de fibra com feixe de 0,1 milímetro.

“Os AGVs, os lasers de fibra e o fornecimento automatizado aumentam a flexibilidade, a rastreabilidade dos materiais e reduzem o manuseio manual”, diz Van de Walle. São essas mudanças que permitem produzir modelos diferentes na mesma linha e configurar cada máquina de acordo com o pedido do cliente. “Os nossos primeiros robôs de soldagem vieram em 1997, o que nos gerou economia de mão de obra. Agora, estamos indo aos cobots, o que nos abre muitas possibilidades.” Os cobots são robôs colaborativos projetados para trabalhar de forma segura e direta ao lado de operadores humanos no mesmo espaço de trabalho.
Para chegar às máquinas, lá no início do processo, antes de construir um protótipo, a New Holland testa a máquina em realidade virtual. Marijn Van Slambrouck, engenheiro de desenvolvimento de cabines para máquinas de colheita, verifica a visibilidade, o alcance dos comandos, a posição dos monitores e os movimentos exigidos pelos trabalhadores durante a montagem.
“Podemos mostrar novos projetos virtualmente sem construir quatro ou cinco protótipos físicos e tomar decisões logo no início”, afirmou Van Slambrouck. Clientes usam os óculos de realidade virtual para avaliar os projetos desde o primeiro desenho e continuam participando até o lançamento da máquina.
A inteligência artificial reduziu o tempo necessário para criar os modelos virtuais. “No passado, a construção desse ambiente exigia muito trabalho manual. As novas tecnologias tornam o processo muito mais rápido”, disse Van Slambrouck.
Nas colheitadeiras, a IA é usada para ajustar automaticamente a máquina e elevar a produtividade e a qualidade da colheita, segundo um engenheiro ouvido durante a demonstração. Perguntado sobre os próximos dez ou 20 anos, ele apontou uma direção: “A precisão é e continuará sendo muito importante no futuro próximo e no longo prazo.”
Os projetos aprovados no ambiente virtual seguem para uma oficina que Callens chama de “fábrica dentro da fábrica”. Ali são montadas as golden machines, protótipos que podem levar alguns anos entre os primeiros testes e a liberação comercial. Vale registrar que há no complexo de Zedelgem pelo menos cinco galpões que não foram acessados e que guardam os segredos industriais da companhia.
As equipes iniciam os testes em maio, no sul da Espanha, e acompanham a colheita até o norte da Escócia ou a Dinamarca, em setembro. Algumas máquinas são entregues a agricultores para trabalhar no limite. “Pedimos que façam as máquinas sofrer, para descobrirmos quais peças não resistem”, contou Callens. A engenharia libera o produto somente depois dos testes funcionais e de durabilidade.