1. Início
  2. /
  3. Forbes Agro
  4. /
  5. Rainforest Alliance Projeta 80 Mil Hectares de Café Regenerativo Certificado no Brasil Neste Ano
Forbes Agro

Rainforest Alliance Projeta 80 Mil Hectares de Café Regenerativo Certificado no Brasil Neste Ano

Yuri Feres, diretor da certificadora no Brasil, diz que primeiro ciclo da nova norma pode chegar a 1,6 milhão de sacas, enquanto parceria com IKEA mede custos, manejo e produtividade em lavouras mineiras

8 min

A Rainforest Alliance deve encerrar o primeiro ciclo de sua certificação para agricultura regenerativa no país com até 80 mil hectares e uma produção estimada em 1,6 milhão de sacas, segundo uma prévia apresentada com exclusividade à Forbes Agro por Yuri Feres, diretor da organização no Brasil. Os números finais ainda estão em processamento e deverão ser apresentados na SIC 2026 (Semana Internacional do Café), entre 11 e 13 de novembro, na ExpoMinas, em Belo Horizonte. Até agora, o dado já confirmado pela entidade é de 50 mil hectares e 1 milhão de sacas certificados pela nova norma, dentro de um universo de 500 mil hectares vinculados à Rainforest Alliance no país.

Para quem vai em buscar de produtos sustentáveis, o selo do “sapo verde” é uma referência, cuja história começou no final dos anos 1980, na Costa Rica, onde a organização iniciou seu trabalho de conservação de florestas. A espécie escolhida foi a perereca-de-olhos-vermelhos, comum na região e considerada um bioindicador, porque os anfíbios são sensíveis a mudanças na água, no solo e no ambiente ao redor. O animal acabou virando mascote e símbolo da certificação que hoje aparece em produtos como café, cacau, chá e banana em diferentes países.

RF_DivulgSelo do sapo verde que identifica a Rainforest Alliance

“Possivelmente 80 mil hectares até o final do ano é a nossa expectativa quase confirmada”, diz Feres sobre a norma lançada no final de 2025 e que em 2026 entrou em seu primeiro ciclo de aplicação, aberto aos produtores brasileiros. A previsão inicial da organização era chegar aos 50 mil hectares, dado já confirmado, mas a adesão avançou além desse patamar enquanto a safra ainda era encerrada. “A gente não achou que o produtor brasileiro iria com tanta sede ao pote”, comemora Feres.

O novo padrão parte de um conceito que o executivo procura separar do uso amplo que o termo regenerativo ganhou no mercado de alimentos. “A agricultura regenerativa são práticas voltadas à saúde e à qualidade do solo. É muito clara a definição”, diz ele. No modelo da organização, o solo funciona como ponto de partida para práticas relacionadas à cobertura vegetal, nutrientes, biologia, disponibilidade de água, biodiversidade e capacidade produtiva da lavoura. A norma adiciona requisitos ao padrão de agricultura sustentável que a Rainforest Alliance já utiliza em sua certificação.

No mundo, cerca de 2 milhões de hectares de café estavam certificados em 2025 pelo padrão de agricultura sustentável da Rainforest Alliance, distribuídos por 33 países e envolvendo cerca de 2 milhões de produtores e trabalhadores rurais, segundo a organização. Vale destacar que esses dois universos não devem ser confundidos: o dado internacional se refere ao padrão de agricultura sustentável, enquanto os 50 mil hectares confirmados e os até 80 mil previstos no país pertencem à nova certificação regenerativa.

Um ano de adesão regenerativa

A expansão da oferta encontrou compradores antes mesmo do fechamento do primeiro ciclo. A Rainforest Alliance trabalhou paralelamente com empresas que compram e vendem o grão, principalmente nos mercados europeu e americano, para formar uma cadeia comercial para o produto. “Já nessa primeira safra temos quase que uma falta de café regenerativo por conta da demanda”, diz Feres. Segundo ele, há compradores europeus procurando o produto e marcas preparando lançamentos identificados com o selo regenerativo, embora parte dos nomes esteja protegida por acordos de confidencialidade.

“O produtor só faz certificação se tiver um mercado”, afirma Feres.

Para ele, a demanda pela certificação também tem base porque ela passou a ser usada por produtores como instrumento de gestão da propriedade, com rotinas de monitoramento e exigências verificadas em auditoria, mas a existência de compradores continua determinante para ampliar a área. A norma estabelece os critérios que o produtor precisa cumprir para receber a certificação, incluindo parâmetros de manejo e acompanhamento da produção.

Esse movimento comercial é diferente de um segundo trabalho que a Rainforest Alliance mantém no Cerrado Mineiro e que antecedeu a aplicação da norma. Em parceria com a IKEA, a organização acompanha 11 cafeicultores para colocar práticas regenerativas no campo, medir seus efeitos e identificar o custo e o resultado de cada intervenção ao longo de três anos. O projeto reúne 2,5 mil hectares de café e dispõe de 500 mil euros no período (R$ 2,9 milhões na cotação atual). A IKEA é uma empresa sueca de varejo fundada em 1943 e presença em 63 mercados no mundo, e que também é uma compradora importante de café para suas lojas e operações de alimentação.

Ikea_DIvulgCafé da Ikea vendido na Bélgica com selo Rainforest

“Estamos financiando coisas que o produtor também não financiaria. Por exemplo, o monitoramento completo de todas as propriedades”, diz Feres. Uma equipe acompanha água, temperatura e qualidade do solo, além de análises que incluem componentes biológicos e carbono. O projeto também financia sementes, equipamentos e intervenções de manejo, chegando em algumas propriedades às estruturas para produção de biológicos e criação de inimigos naturais dentro da fazenda.

O objetivo é entender o comportamento dessas práticas para além do cumprimento dos requisitos da certificação. Quando o projeto começou, conta Feres, uma das premissas colocadas à mesa era que a agricultura regenerativa poderia aumentar o custo e reduzir a produtividade, compensando essas perdas com maior resiliência da lavoura. Os dados coletados até agora no grupo brasileiro caminham em outra direção, embora a Rainforest Alliance ainda esteja processando os percentuais que serão apresentados ao final da safra.

“Conseguimos ver claramente uma redução de custo de produção”, diz Feres. Segundo ele, a maior parte desse movimento está associada à menor utilização de defensivos e agroquímicos nas propriedades acompanhadas. “A maior parte da redução do custo está aí. E o aumento da produtividade é expressivo.” Os dados estão sendo consolidados.

O acompanhamento separou os produtores conforme o estágio de adoção das práticas e encontrou diferenças de rendimento entre esses grupos. Feres cita propriedades em estágio inicial na faixa de 30 sacas por hectare, um conjunto intermediário em torno de 40 sacas e produtores mais avançados chegando a cerca de 60 sacas por hectare. Parte dos participantes já mantinha registros antes do início do projeto, o que permite comparar séries anteriores com o período monitorado pela Rainforest Alliance.

“Para nós já não é mais dúvida de que a agricultura regenerativa leva a uma maior produtividade natural”, afirma Feres. A declaração vem acompanhada de uma ressalva operacional. “Mas não há almoço grátis.” Segundo ele, avançar no modelo exige investimento em monitoramento, análises de solo e uma gestão com mais variáveis do que a rotina convencional. “Você precisa investir em monitoramento, em medição de solo, o que pode significar um aumento da complexidade da gestão da produção.”

Essa complexidade aparece na escolha das plantas usadas para cobertura do solo, por exemplo. O trabalho avalia quais espécies cumprem melhor funções como fixação, polinização ou atração de inimigos naturais, em vez de tratar a cobertura apenas como proteção física. Em algumas propriedades, a Rainforest Alliance chegou à instalação de estruturas para multiplicação de organismos utilizados no controle biológico. A proposta é montar, ao longo dos três anos, um conjunto de práticas e isolar quanto cada uma custa e qual resultado entrega.

A experiência com os 11 do projeto com a IKEA funciona como um campo de medição mais detalhado, no qual a organização acompanha tecnologias que podem ir além do que é exigido para receber o selo. “Esse projeto é um subgrupo de produtores que está disposto a estudar até onde a gente pode ir”, diz Feres. A Rainforest Alliance já trabalha com a ampliação desse grupo. “Agora estamos brigando pela segunda fase”, diz Feres. A intenção é manter os participantes atuais e adicionar propriedades, enquanto a primeira sequência de dados passa pelo processamento e os novos financiamentos ainda estão nos termos de confidencialidade. “Temos já fechado um novo financiamento e a qualquer momento podemos informar de onde está vindo.”

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.