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Algodão Brasileiro Entra em Nova Revolução Tecnológica

No Dia Mundial do Algodão, cotonicultura brasileira mira produtividade, qualidade da fibra, genética, eficiência no uso de insumos e resiliência climática

8 min

Depois de ampliar a área, produtividade e participação no comércio internacional, o algodão brasileiro começa a enfrentar uma pergunta diferente: onde estará o próximo ganho de competitividade? A Forbes Agro ouviu as respostas de especialistas da Embrapa, BASF e Bayer na área e eles afirmam que o futuro da fibra passa a ser menos guiado pela simples expansão da produção e mais por genética, irrigação, controle de doenças, inteligência artificial, qualidade da fibra e uso mais eficiente de insumos.

Neste Dia Mundial do Algodão, oficializado pela ONU desde 2021, o trabalho que o Brasil vem desempenhando com a cultura serve de exemplo para o mundo. “O Brasil tem quase 80% do algodão certificado com o selo Better Cotton Initiative (BCI), o principal programa de sustentabilidade para algodão do mundo. É um algodão de alta tecnologia, de altos insumos, mas que caminha dentro de critérios de sustentabilidade,” diz o agrônomo e doutor em patologia Alderi Emídio de Araújo, pesquisador da Embrapa Algodão, sediada em Campina Grande (PB).

“Não existe possibilidade mais da gente imaginar produzir qualquer coisa que não tenha base sustentável, que não pense na resiliência climática e não pense na redução de aplicação de produtos químicos,” diz o pesquisador que, dos seus 39 anos de carreira na Embrapa, 29 anos foram dedicados ao estudo da planta.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) estima a safra global 2025/26 de algodão em 26,6 milhões de toneladas de pluma. O Brasil responde por 15,4% da produção mundial, com 4,08 milhões de toneladas. O país aparece atrás de China e Índia, mas à frente dos Estados Unidos, consolidando-se entre os três maiores produtores globais. A concorrência, portanto, ocorre em duas frentes. China e Índia lideram em volume de produção, enquanto os Estados Unidos continuam entre os principais fornecedores internacionais.

O Brasil, por sua vez, construiu uma posição particular: embora não seja o maior produtor, tornou-se o maior exportador mundial de algodão, sustentado por escala, produtividade, qualidade e capacidade de ampliar a oferta. No ano passado, as exportações brasileiras de algodão em pluma foram de 3,1 milhões de toneladas, o que correspondeu a 74,8% da safra 2025/26, com receita de US$ 5,2 bilhões (R$ 26,6 bilhões, na cotação atual). O movimento exportador colocou o país como fornecedor estratégico para grandes mercados consumidores de algodão, com China, Bangladesh, Turquia, Paquistão, Vietnã e Índia entre os principais destinos.

O próximo limite está dentro da lavoura

Divulgação/BASFAlexandre Santaella, gerente de Marketing do Cultivo de Algodão da BASF

Para o agrônomo Alexandre Santaella, gerente de Marketing do Cultivo de Algodão da BASF, a produtividade brasileira já mostra a dimensão da transformação ocorrida no campo. Segundo ele, enquanto a produtividade média dos Estados Unidos gira em torno de 900 quilos de pluma por hectare, o Brasil supera 1.800 a 1.900 quilos em grande parte das áreas.

“A nossa produtividade média é o dobro da americana,” diz Alexandre.

O desafio, portanto, é identificar o que ainda impede a lavoura brasileira de entregar mais. Santaella aponta dois fatores principais. O primeiro é água. Em áreas irrigadas de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, há lavouras que ultrapassam 7,5 toneladas por hectare, desempenho que, segundo ele, dificilmente é alcançado em condições de sequeiro. O segundo é o controle de doenças, especialmente as fúngicas.

A questão sanitária ganhou importância com a sucessão de soja e algodão. Doenças como mancha-alvo encontram condições para permanecer no sistema, enquanto a ramulária continua entre os principais problemas da cultura. Para Alexandre, parte da produtividade potencial do algodão brasileiro ainda fica retida pela dificuldade de acompanhar a evolução dos fungos com novas ferramentas de controle.

A companhia trabalha neste momento com o desenvolvimento de um novo ingrediente ativo para o primeiro trimestre de 2027, direcionado a mancha-alvo e ramulária. Santaella afirma que, em testes de consultoria técnica, a substituição do padrão utilizado pelo produtor pelo novo produto chegou a proporcionar ganho de até 1,05 tonelada de algodão por hectare. O número, porém, deve ser tratado como resultado de testes e não como expectativa média para a produção brasileira.

A água também entra na equação de longo prazo. O investimento em irrigação pode ampliar o potencial de regiões produtoras, enquanto a genética precisa ajudar a planta a atravessar períodos de estresse hídrico e térmico. Para Alderi Emídio de Araújo, pesquisador da Embrapa Algodão, essa é uma das frentes que devem orientar o melhoramento das próximas cultivares.

Da biotecnologia à edição gênica

Divulgação/BayerFernando Prudente, líder de Produto de Soja e Algodão da divisão agrícola da Bayer no Brasil

A primeira grande transformação tecnológica do algodão brasileiro já está consolidada. Segundo Santaella, 96% da área cultivada utiliza biotecnologia para proteção contra lagartas, em um modelo que também incorpora tolerância a herbicidas.

Agora, a próxima geração tecnológica começa a aparecer em outras etapas da produção. A inteligência artificial já é utilizada, segundo a BASF, para selecionar cruzamentos entre milhares de linhagens genéticas. A ferramenta identifica combinações com maior probabilidade de gerar características desejadas, como ciclo mais curto ou resistência a determinados problemas. O ciclo completo do melhoramento ainda leva cerca de sete anos, mas a estimativa é que variedades desenvolvidas com apoio da IA possam chegar ao mercado em aproximadamente cinco anos.

A Bayer também está nesta cruzada biotecnológica para o melhoramento genético do algodão. Neste futuro está uma planta que recebeu dez genes adicionais, segundo Fernando Prudente, líder de Produto de Soja e Algodão da divisão agrícola da Bayer no Brasil. Com projeção de lançamento para 2028, a nova variedade transgênica da companhia terá cinco genes de tolerância a herbicidas, quatro genes de proteção contra as principais lagartas (inseticida) e um gene voltado à proteção contra tripes, um pequeno inseto que causa prejuízos nos estágios iniciais da cultura do algodão.

“Esta é a quarta geração da biotecnologia e representa um avanço da nossa pesquisa para reforçar o compromisso da Bayer em seguir investindo em inovação para entregar produtividade, sustentabilidade e competitividade à cadeia do algodão no país”, diz Fernando.

Ser por um lado, a transgenia mostra o poder de estruturar múltiplas funções dentro da planta, por outra, a edição gênica através de uma tesoura genética (CRISPR) permite editar diretamente um gene que já existe no organismo, alterando, desligando ou ajustando uma característica. Segundo Alderi, a Embrapa Algodão trabalha com edição gênica via CRISPR e estima que, em aproximadamente dois anos, possam começar a surgir cultivares com características introduzidas por essa tecnologia. Ele ressalta que ainda não existem lançamentos comerciais da Embrapa com edição gênica, mas que os trabalhos estão em andamento.

“A edição gênica vai permitir incorporar a característica desejável sem que seja transgênica.”

A diferença é relevante para o setor. Em vez de apenas inserir tecnologias de proteção contra pragas ou herbicidas, o melhoramento passa a buscar características específicas de produtividade, sanidade, adaptação climática e qualidade de fibra. O objetivo é ganhar tempo na construção de materiais que respondam a problemas concretos do campo e às exigências da indústria.

Melhoramento da qualidade da fibra

Divulgação/Embrapa AlgodãoDetalhe do algodão prestes a ser colhido no campo

Mas a próxima fase não será medida somente em toneladas por hectare. Alderi chama atenção para um ponto que pode ganhar peso justamente porque o Brasil se tornou um dos principais fornecedores mundiais: a qualidade da fibra.

O pesquisador afirma que o algodão brasileiro evoluiu, mas ainda há espaço para reduzir a participação de fibras curtas e melhorar características como resistência. Isso importa porque a matéria-prima brasileira disputa espaço em uma indústria têxtil global cada vez mais exigente.

“Nós já melhoramos muito. A fibra brasileira já melhorou bastante, tanto que somos hoje o maior exportador mundial de algodão. E temos o dever de exportar um produto de qualidade.”

A discussão tecnológica também começa a mudar a relação entre produtividade e uso de insumos. Para Alderi, o próximo passo é aumentar a eficiência daquilo que já é aplicado no campo. Fertilizantes, defensivos e produtos biológicos precisam chegar ao ponto onde efetivamente são necessários.

É nesse ponto que a inteligência artificial pode deixar de ser apenas uma ferramenta de pesquisa e passar a atuar diretamente na operação agrícola. Alderi projeta equipamentos capazes de identificar a localização de uma praga ou de uma doença e aplicar o produto somente naquele ponto, em vez de tratar toda a área. A consequência esperada é reduzir o volume de insumos, o custo e o impacto ambiental.

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