A organização Alianima apresentou nesta quarta-feira (21), a sétima edição do Observatório Suíno, levantamento anual que acompanha os compromissos de bem-estar animal assumidos pela indústria brasileira de carne suína e pelas empresas que compram seus produtos. O relatório de 2026 reúne informações de 43 companhias, entre frigoríficos, cooperativas, supermercados e redes de alimentação, e mostra que a substituição das celas individuais de gestação por baias coletivas avança em ritmos diferentes. Entre os fornecedores participantes, 74,1% das matrizes já são mantidas em sistemas coletivos, mas parte das empresas que estabeleceram 2026 como prazo para concluir a transição ainda está distante da meta.
“A implementação da gestação coletiva exige investimentos significativos por parte dos produtores rurais, tanto para a construção de novas instalações quanto para a adequação das estruturas existentes”, afirmam Alegra Foods e Aurora Coop, em declaração conjunta reproduzida no relatório. As cooperativas destacam a necessidade de financiamento e de planejamento para a conversão das granjas, considerando os impactos econômicos sobre pequenos e médios produtores. Entre as dez fornecedoras que responderam ao levantamento, 80% apontaram dificuldades de financiamento, 70% mencionaram a precificação do produto final e 60% citaram o planejamento das instalações como obstáculos para concluir a transição.
Criado em 2020, o Observatório acompanha anualmente a evolução das práticas de criação e manejo de suínos, incluindo as condições de alojamento das fêmeas, os procedimentos realizados nos leitões e o uso de antimicrobianos na produção. A iniciativa também monitora a transparência das empresas sobre compromissos públicos, permitindo comparar os resultados declarados ao longo dos anos. Nesta edição, os questionários foram enviados em julho às companhias que haviam assumido, até o fim de 2025, compromissos de eliminar as celas individuais de gestação.
O levantamento é divulgado em um momento de expansão da suinocultura brasileira, que alcançou 5,592 milhões de toneladas de carne produzidas em 2025, crescimento de 5% em relação ao ano anterior, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) apresentados no documento. O país ocupa a quarta posição mundial na produção e a terceira nas exportações, que chegaram ao recorde de 1,510 milhão de toneladas destinadas a 94 países. O mercado interno absorveu 72,99% do volume produzido, com consumo médio de 19,1 quilos por habitante. Em dez anos, a produção nacional cresceu 53,5%, enquanto o plantel reprodutivo chegou a 2.247.863 matrizes ativas.
Das 43 empresas consultadas pela Alianima, 23 responderam, o equivalente a 53,5%, ante 57,1% na edição anterior. A participação foi maior entre os fornecedores de carne suína, com dez respostas de 11 empresas procuradas. Entre os 32 compradores, apenas 13 apresentaram informações, mantendo a taxa de participação abaixo de 50% pelo terceiro ano consecutivo. Segundo o relatório, 53% das empresas compradoras com compromissos públicos nunca informaram seu estágio de transição ou deixaram de apresentar dados há pelo menos três edições.
A amostra dos fornecedores corresponde a 1.368.112 matrizes, equivalentes a 60,9% do plantel brasileiro informado pela ABPA. Desse total, 1.013.772 fêmeas, ou 74,1%, estavam alojadas em baias coletivas. A estimativa nacional calculada pela Alianima, entretanto, aponta que 45,1% das matrizes brasileiras estavam nesse sistema em 2026, ante 44,9% no ano anterior, crescimento de apenas 0,2 ponto percentual. A diferença entre os indicadores mostra que a proporção registrada entre as empresas participantes é superior à estimativa para o conjunto da suinocultura nacional.
Indústria apresenta diferentes estágios de transição
A substituição das celas individuais por baias coletivas é um dos principais indicadores acompanhados pelo Observatório. Nas celas, as fêmeas permanecem alojadas individualmente durante parte da gestação, enquanto o sistema coletivo permite a movimentação e a interação entre animais. A conversão envolve mudanças nas instalações, na formação dos lotes e no manejo reprodutivo, além de investimentos para adequar estruturas construídas originalmente para o confinamento individual.
Entre as empresas monitoradas, JBS Brasil, por meio da Seara, e Ecofrigo informaram ter concluído a transição, com 100% de suas matrizes em baias coletivas. A Pamplona alcançou 97%, enquanto Aurora Coop, Frimesa e MBRF registraram, respectivamente, 87%, 59% e 57%. As três últimas estabeleceram 2026 como prazo para concluir a mudança, mas, segundo avaliação da Alianima, os avanços apresentados ao longo dos últimos anos indicam dificuldades para cumprir os compromissos dentro do período anunciado.

A Alegra Foods e a Alibem registraram os maiores avanços percentuais desta edição, com crescimento de 12 pontos percentuais cada uma no alojamento coletivo. A Pif Paf Alimentos seguiu o caminho contrário, com redução de 11 pontos percentuais, chegando a 48% do plantel. A companhia também retirou de seu site o compromisso original de concluir a transição até 2029 e passou a considerar 2045 como prazo, conforme a adequação prevista pela Instrução Normativa nº 113, de 2020, do Ministério da Agricultura e Pecuária.
A Pif Paf informou ainda que 34% de suas matrizes permanecem em celas individuais por períodos superiores a 35 dias, podendo alcançar 70 dias. A Alianima não considera essa parcela como alojamento coletivo, uma vez que as fêmeas podem permanecer confinadas individualmente por mais da metade do período gestacional.
Outra modalidade acompanhada é o sistema conhecido como “cobre e solta”, no qual as matrizes permanecem em celas individuais por no máximo sete dias após a inseminação e depois são transferidas para alojamentos coletivos. Alegra, Aurora e Frimesa assumiram novos compromissos públicos para adotar o modelo em todas as novas instalações. Entre as participantes, a Pif Paf ampliou sua utilização de 46,9% para 63,6% do plantel considerado nesse indicador, enquanto a Aurora passou de zero para 10,1%.
As dificuldades financeiras permanecem entre os principais obstáculos apontados pelas empresas. A MBRF citou as taxas de juros elevadas, a disponibilidade limitada de linhas de crédito e a baixa rentabilidade relacionada à precificação dos produtos. A Frimesa mencionou a necessidade de investimentos em infraestrutura e equipamentos, além das diferenças estruturais entre as granjas. O relatório não apresenta um valor consolidado dos recursos necessários para converter todo o plantel brasileiro ao alojamento coletivo.
Compradores registram menor transparência
O acompanhamento dos compromissos assumidos por supermercados, restaurantes e outras empresas compradoras de carne suína apresenta resultados diferentes dos observados entre os fornecedores. Apenas 41% dos compradores responderam ao questionário, enquanto parte das companhias não disponibiliza informações suficientes para avaliar a origem dos produtos adquiridos e o cumprimento das metas anunciadas.
Entre as empresas que apresentaram dados, a rede Bob’s informou ter concluído seu compromisso, com 100% de carne suína adquirida de fornecedores que utilizam gestação coletiva. O Grupo Madero respondeu pela primeira vez desde que passou a ser consultado, em 2022, e declarou 72% de transição. Em contrapartida, a Forno de Minas reduziu o percentual informado de 80% para 30%, enquanto o Hippo Supermercados passou de 91% para 70%.

O Grupo Pão de Açúcar informou avanço de 61% para 80%, enquanto a Arcos Dorados, operadora do McDonald’s, passou de 90% para 92%. O Grupo Carrefour Brasil declarou 100%, mas o indicador contempla apenas carne suína in natura de marcas próprias, condição classificada como compromisso irregular pela Alianima por não abranger a totalidade dos produtos comercializados.
Entre os 13 compradores que responderam, 61,5% apontaram o custo elevado e a falta de disponibilidade de fornecedores como dificuldades para ampliar a aquisição de carne proveniente de sistemas sem celas individuais de gestação. O levantamento também identificou problemas na obtenção de informações sobre a origem dos produtos, embora esse indicador tenha apresentado redução em relação às edições anteriores.
Manejo dos leitões e uso de medicamentos entram no levantamento
Além das condições de gestação, o Observatório acompanha práticas adotadas na maternidade e nos primeiros dias de vida dos leitões. Todas as dez fornecedoras participantes informaram idade média de desmame igual ou superior a 24 dias e declararam ter eliminado a castração cirúrgica sem anestesia, resultado mantido pelo terceiro ano consecutivo. Oito empresas também informaram não realizar o desbaste rotineiro dos dentes, enquanto quatro declararam ter eliminado a mossa, procedimento de identificação por cortes nas orelhas.
O corte de cauda permanece sem compromisso de eliminação em oito das dez fornecedoras. JBS e MBRF manifestaram intenção de interromper a prática, mas não estabeleceram prazos. Na maternidade, 70% das empresas informaram não fornecer materiais de enriquecimento ambiental para que as matrizes expressem o comportamento de construção de ninhos, enquanto 40% não possuem planos para ampliar o espaço destinado às fêmeas nessa etapa da produção.
O uso de antimicrobianos também integra o monitoramento. Seis fornecedoras declararam ter eliminado antibióticos utilizados como promotores de crescimento, enquanto Frimesa e Pif Paf informaram intenção de interromper essa utilização. Alegra e Aurora continuam utilizando essas substâncias e não apresentaram compromissos para eliminá-las. Em relação ao uso profilático, administração preventiva de antibióticos, apenas três empresas declararam ter banido a prática.
Na metafilaxia, utilização de antimicrobianos em um grupo de animais quando parte do lote apresenta doença, a MBRF é a única empresa com compromisso público de banimento, previsto para 2027. O levantamento também acompanha o uso de ractopamina, aditivo utilizado para favorecer a deposição de massa magra. Sete das dez fornecedoras declararam não ter intenção de eliminar o produto, enquanto Alibem e Pamplona informaram não utilizá-lo. A Master Agroindustrial foi a única companhia que manifestou intenção de banimento.
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