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Lúcio Lopez Mira R$ 250 Milhões com Ferramenta Inédita de Créditos de Carbono

Após investir mais de R$ 35 milhões em tecnologia, Greenline monitora 1,5 milhão de hectares e quer expandir a operação no Brasil

11 min

O paranaense e administrador de empresas Lúcio Lopez, fundador e CEO da Greenline, empresa brasileira de tecnologia para o mercado de carbono, projeta faturamento de R$ 250 milhões e quer ampliar a escala de sua operação, que monitora 1,5 milhão de hectares de florestas em propriedades privadas no Brasil. Segundo estimativas divulgadas por ele, os projetos acompanhados registram sequestro médio anual de cerca de 25 milhões de toneladas de CO₂.

Depois de investir mais de R$ 35 milhões de recursos próprios no desenvolvimento de sua tecnologia, a empresa prepara uma nova frente de negócios: créditos de carbono protegidos por seguro contra riscos fundiários, cibernéticos e políticos. Em setembro, anunciou uma parceria com a RCGI-USP Carbon Registry para fornecer evidências digitais que poderão ser consideradas no registro de projetos. A aposta combina escala, monitoramento por satélite e mecanismos de rastreabilidade para tornar o mercado mais confiável e, na visão de Lopez, mais acessível.

“Até hoje, em oito anos, todo o investimento foi feito por mim e pela minha própria família. Se somar tudo, já são mais de 35 milhões de reais”, afirma o empresário. A trajetória que levou à criação da Greenline começou em 2018, quando Lopez acompanhava dos Estados Unidos notícias sobre desmatamento e incêndios florestais no Brasil. Com passagens pela indústria moveleira, pelo comércio exterior e pelo mercado financeiro, passou a estudar como incentivos econômicos poderiam tornar a preservação florestal uma alternativa mais rentável para os proprietários de terras.

“Uma forma de desincentivar o uso do solo é exatamente você poder gerar aquele recurso a mais ou alternativo para o proprietário para desestimular o corte e manter a floresta em pé e viva”, diz.

De acordo com dados da Embrapa Territorial, 66,3% do território brasileiro (cerca de 564 milhões de hectares) é coberto por vegetação nativa, sendo que 25,6% (218,2 milhões de hectares) estão preservados dentro de propriedades rurais privadas pelos próprios produtores. Esta é uma grande oportunidade para a Greenline poder conectar, o produtor que preserva e sequestra carbono com empresas que querem mitigar sua pegada de carbono, como as aéreas Gol, Latam, e Azul; bancos, como Banco do Brasil e Bradesco; indústrias como CSN, Gerdau e Vale; e a até petroquímicas como Petrobras e Braskem. Lopez se reuniu com todas. “Em cada setor, fomos buscar opiniões sobre se seria interessante ter um novo standard de crédito de carbono utilizando dados espaciais”, diz Lopez.

Em termos de potencial, o agronegócio brasileiro poderá gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035, com potencial de movimentar até R$ 3,5 bilhões no mercado internacional. A estimativa faz parte do estudo O Agronegócio Brasileiro no Mercado Internacional de Carbono – Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC, divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

Uma nova camada de evidências para os créditos

Divulgação/GreenlineTelas do monitoramento feito pela Greenline

A Greenline desenvolveu uma plataforma de monitoramento, relato e verificação digital, conhecida como dMRV, que combina dados de satélites, sensoriamento remoto, inteligência artificial e informações geoespaciais. A tecnologia utiliza dados de agências como a Agência Espacial Americana (NASA) e a Agência Espacial Europeia (ESA), além de um índice próprio, o GLVCI (Greenline Vegetation Carbon Index), que, segundo Lopez, analisa 16 domínios e aplica mais de 100 índices de vegetação.

A proposta é acompanhar as mudanças nas áreas monitoradas com atualizações frequentes e recuperar informações históricas para estimar alterações na vegetação e no estoque de carbono. Na prática, a tecnologia pode reduzir a dependência de levantamentos exclusivamente presenciais e gerar registros digitais que ajudam a documentar a situação de cada área ao longo do tempo.

É essa capacidade de produzir evidências sistemáticas que levou à aproximação com a RCGI-USP Carbon Registry, registradora vinculada ao Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo. A colaboração, firmada em setembro deste ano, prevê que informações produzidas pela plataforma da Greenline possam ser consideradas na avaliação de projetos, desde que atendam às metodologias e aos critérios estabelecidos pela registradora.

“O mercado de carbono depende da confiança nas informações apresentadas pelos projetos. Essa parceria fortalece justamente esse aspecto. A tecnologia da Greenline acrescenta uma camada adicional de evidências, oferecendo mais segurança de que os dados apresentados refletem efetivamente a realidade observada em campo”, afirma Ruy Rêde, gerente de Transferência de Tecnologia e Inovação do RCGI-USP.

Divulgação/RCGI-USPRuy Rêde: “O mercado de carbono depende da confiança nas informações apresentadas pelos projetos”

O executivo ressalta, porém, que a tecnologia não substitui o papel institucional da registradora. “Nosso papel continua sendo avaliar as evidências produzidas ao longo do processo, mas contar com uma tecnologia reconhecida de verificação digital aumenta a robustez e a credibilidade das informações que chegam à registradora.”

A separação de responsabilidades é central para a credibilidade do sistema: a Greenline fornece dados técnicos, enquanto a registradora avalia as evidências segundo suas próprias regras. A parceria não representa aprovação automática dos projetos nem elimina a necessidade de auditorias e verificações independentes.

Metodologias adaptadas aos biomas brasileiros

Divulgação/RCGI-USPOdair Carrel: “O que estamos fazendo é uma inovação no mercado de carbono mundial”

Para Odair Carrel, diretor executivo da RCGI-USP Carbon Registry, a inovação não está apenas no uso de satélites, mas na combinação entre tecnologia e metodologias capazes de refletir melhor as características dos ecossistemas brasileiros e de outros países do Hemisfério Sul.

“O que estamos fazendo é uma inovação no mercado de carbono mundial. Nós estamos trazendo as metodologias embasadas no IPCC e na UNFCCC, que são as bases metodológicas de captura e mensuração de carbono, para a realidade do mercado brasileiro e do Hemisfério Sul”, afirma Carrel.

O executivo argumenta que muitas metodologias tradicionais foram concebidas considerando as condições do Hemisfério Norte. A proposta da registradora é trabalhar com referências científicas adaptadas à realidade de biomas como Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa, considerando o carbono presente no solo e na biomassa.

“Nós não reinventamos a roda, mas trouxemos uma mensuração fidedigna para a realidade do Brasil e dos seus biomas”, diz Carrel. Para ele, a adequação das metodologias às condições locais é importante para melhorar a qualidade da mensuração e permitir que projetos de conservação e redução de emissões sejam avaliados com maior precisão.

Rêde compara a transformação em curso à digitalização do sistema financeiro. “Assim como o setor bancário evoluiu do cheque para o Pix eliminando falhas operacionais, o mercado de crédito de carbono passará por um processo evolutivo de digitalização e transparência”, afirma.

Segundo Rêde, a tecnologia da Greenline permite monitorar alterações por satélite e recuperar dados históricos de uma coordenada geográfica quando há dúvidas sobre a integridade de uma área. “A Greenline trouxe um avanço tecnológico difícil de contestar, porque tudo é devidamente documentado e rastreável”, diz.

A rastreabilidade, nesse caso, pode ajudar a identificar problemas como sobreposição territorial, mudanças na cobertura vegetal e inconsistências nas informações apresentadas pelos desenvolvedores de projetos. Isso não significa que a tecnologia torne os créditos automaticamente livres de risco, mas que pode ampliar a quantidade e a frequência das evidências disponíveis para análise.

A escala do negócio e a meta de faturamento

Alf Ribeiro/Getty imagesVista de fazenda de café com áreas de mata nativa

A Greenline afirma monitorar atualmente 1,5 milhão de hectares no Brasil e estima que os projetos acompanhados registrem cerca de 25 milhões de toneladas de CO₂ sequestradas por ano. Lopez também informou que outros 500 mil hectares estavam em fase final de documentação, o que poderia levar a operação brasileira a 2 milhões de hectares.

A empresa diz ter 111 projetos em seu pipeline, dos quais 56 já estariam publicados e em operação em propriedades privadas. A projeção de faturamento de R$ 250 milhões é outro indicador da ambição comercial. O prazo para atingir essa receita e a composição detalhada da estimativa, no entanto, não foram especificados no material fornecido pela empresa.

A estratégia de Lopez é acumular créditos para realizar operações de maior volume, em vez de colocar cada lote à venda assim que fica disponível. O empresário acredita que essa abordagem poderá ajudar a atender empresas que precisam compensar emissões em escala e que, na avaliação dele, ainda enfrentam dificuldades para encontrar oferta suficiente de créditos considerados confiáveis.

Um mercado que não pode ficar caro demais

LeoFFreitas/Getty ImagesÁrea da Floresta Amazônica desmatada

A discussão sobre escala está diretamente ligada à visão de Lopez sobre os preços. O empresário defende que o Brasil não deve reproduzir um modelo que torne a descarbonização excessivamente cara para as empresas. Ao comentar o sistema europeu de comércio de emissões, ele afirma: “O modelo europeu inflacionou o valor do carbono no sistema cap-and-trade, e o Brasil não pode repetir essa linha, pois geraria um custo muito alto para as empresas.”

O argumento é que um mercado com custos elevados pode dificultar a participação de empresas e reduzir o alcance das iniciativas de compensação. Para Lopez, ampliar a oferta de créditos e permitir que projetos elegíveis do mercado voluntário participem do sistema regulado pode ajudar a equilibrar a relação entre oferta e demanda.

“Terá que haver uma participação substancial de créditos voluntários conversíveis para segurar o efeito oferta e demanda e manter os preços estabilizados”, afirma.

A tecnologia digital entra nessa equação como uma possível ferramenta para reduzir etapas operacionais, ampliar o monitoramento e disponibilizar evidências com maior frequência. Se isso resultar em processos mais eficientes e em custos menores, poderá facilitar o acesso de mais empresas ao mercado. O efeito, contudo, depende dos custos reais de cada projeto, das regras de elegibilidade, da demanda por créditos e da qualidade comprovada dos ativos.

A Lei nº 15.042, de 2024, instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), cuja implementação deverá definir regras para o funcionamento do mercado regulado. A eventual conversão de créditos voluntários em ativos aceitos pelo sistema dependerá dos critérios e das metodologias previstos na regulamentação. A expectativa de Lopez é que a combinação entre oferta, integridade e regras adequadas ajude a evitar uma escalada de preços que ele considera prejudicial à competitividade.

Seguro para reduzir a exposição do comprador

Outra frente da Greenline é a estruturação de uma apólice de seguro para créditos de carbono. Segundo Lopez, a companhia negociou a operação com uma corretora internacional e pretende oferecer uma proteção que abranja riscos fundiários, cibernéticos e políticos.

A cobertura descrita pelo empresário poderia incluir situações em que problemas documentais ou conflitos territoriais comprometam a validade de um crédito, falhas cibernéticas afetem registros digitais ou mudanças regulatórias prejudiquem o ativo. Lopez afirma que a proposta prevê o reembolso do capital investido pelo comprador nos casos cobertos pela apólice.

A iniciativa busca responder a uma fragilidade do mercado: a possibilidade de um crédito ser contestado ou perder valor depois da compra. O seguro pode acrescentar uma camada de proteção financeira, mas não substitui a análise da origem do crédito, da documentação fundiária, da metodologia de mensuração e das condições contratuais da apólice. A seguradora, os limites de cobertura e as exclusões precisam ser conhecidos para avaliar a extensão efetiva dessa proteção.

Para a empresa, a combinação de monitoramento por satélite, evidências rastreáveis e seguro pode tornar a compra mais atraente para companhias que buscam reduzir a exposição a riscos. A proposta também reforça a tese de que o desenvolvimento do mercado depende não apenas da geração de créditos, mas da confiança de quem os compra.

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