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“O Setor de Agritech no Brasil Tem Sido um Para-Raio de Investimentos”, Diz Cofundador da SP Ventures

Francisco Jardim conta no Global Agri Forum de Portugal as potencialidades do agro e como o dinheiro tem chegado na ponta da inovação

6 min

Francisco Jardim, managing partner e cofundador da SPventures, investidor no agronegócio, apresentou no Global Agri Forum 2026, realizado entre os dias 1 e 3 de outubro, no auditório do escritório de advocacia Vieira de Almeida, em Lisboa, sua visão como investidor no segmento de agritech. Segundo o especialista, a SPventures é hoje um dos maiores investidores em agritech na América Latina, com cerca de US$ 150 milhões sob gestão (cerca de R$ 750 milhões na cotação atual). Entre seus investidores estão algumas das maiores empresas mundiais do agronegócio, além de grandes bancos e produtores brasileiros, além de fundações como a Open Society, de George Soros.

Jardim conta que começou como gestor de um fundo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em 2007, administrando o primeiro grande fundo de deep tech e hard science do banco. Naquela época, chegou à conclusão de que o agronegócio era um importante motor de crescimento no Brasil.

“Entendemos que investir em venture capital e obter esse tipo de retorno exige algumas coisas. Você precisa estar investindo numa grande transformação tecnológica”, diz. E acrescenta: “Assim fomos olhar no Brasil o que era uma grande transformação tecnológica e aí descobrimos o grande desafio do agro”. Ou seja, com a possibilidade do mundo chegar até 10 bilhões de pessoas em 2050, haverá muita pressão sobre o setor agroalimentar. A isso ainda se somam as mudanças climáticas, que também acrescentam pressão ambiental.

“E assim teríamos de dar um salto de 60% a 80% na produção de alimentos em 40 anos, com menos terra, menos água, menos insumos químicos, menos capital humano. Essa era a grande transformação”, diz Jardim.

O especialista afirma que o Brasil não tem grandes casos de sucesso na indústria, mas tem no agronegócio. “O sucesso do agro brasileiro não é um sucesso de expansão territorial. Dobramos a área plantada e aumentamos em seis vezes o volume total produzido. Esse foi um salto de produtividade. Tanto por avanços tecnológicos, sucessos empreendedores, quanto inovações em modelos operacionais que viabilizaram a segunda e a terceira safra”, diz.

Assim, como investidor, compreendeu a oportunidade gerada por esse setor. Em anos em que o PIB brasileiro caiu, o setor cresceu a taxas de dois dígitos. “O que vimos em 2020, com a pandemia de Covid, foi PIB brasileiro encolher 4%. O agro brasileiro cresceu dois dígitos. Ora, isto mostra que é um setor que não só apresenta desempenho consistentemente melhor que a economia brasileira, mas é um setor que cresce sem correlação com a economia brasileira”, diz.

Além disso, o Brasil, com uma população de cerca de 220 milhões de pessoas, produz calorias para mais de 1 bilhão de pessoas, acrescenta. “Exportamos mais de 80% do nosso total produzido. O agronegócio brasileiro entrega ao Brasil um superávit de US$ 145 bilhões (R$ 723 bilhões). Se tirar o agro da balança comercial brasileira, o país teria um déficit, uma pressão cambial de US$ 70 bilhões negativos (R$ 349 bilhões)”, afirma.

O agronegócio brasileiro exporta hoje para mais de 180 países e apostou na diversificação, reduzindo assim o risco. Essa é outra vantagem de investir em agritech. “O agro brasileiro, historicamente, foi muito concentrado em poucas commodities, como o açúcar e o café. Nos últimos 40, 50 anos, nos tornamos uma potência diversificada em muitas categorias, seja em proteína animal e proteína vegetal. Hoje, somos o maior exportador de soja, carne bovina, frango, citricultura, açúcar, café, entre outros”, explica. E destaca outro produto, o milho. O Brasil era o maior exportador de milho até dois anos atrás e agora esse produto transformou o país em uma grande potência na produção de etanol de milho. “Esse é um fenômeno super recente e que, consequentemente, tem desviado o nosso milho de exportação para a produção.”.

Jardim falou ainda sobre a agricultura tropical, dizendo que o Brasil criou o maior e mais bem-sucedido ecossistema agrícola tropical de alta produtividade do mundo. “No Brasil a gente consegue plantar o ano inteiro. Duas, três, às vezes até quatro safras por ano. Só que a erva daninha cresce o ano inteiro, a praga cresce o ano inteiro, a doença cresce o ano inteiro, tal como a erosão do solo. Então tem de se criar um modelo proprietário. E esse modelo proprietário se assemelha muito com a agricultura regenerativa, porque a gente precisa criar um equilíbrio que estabiliza esse modelo em alto volume e alta produtividade.” Também citou as verticais que mais têm recebido investimentos no Brasil: os biológicos.

“O Brasil hoje é o maior mercado de insumos biológicos, com mais de US$ 1 bilhão de mercado (R$ 4,98 bilhões), e que cresce a uma taxa de dois dígitos”, afirma.

E acrescenta que a SPventures foi um dos primeiros investidores em insumos biológicos na América Latina, tendo investido na primeira empresa em 2009. Em sua apresentação, o especialista também alerta que “o Brasil, com a introdução de inteligência artificial, principalmente com agentes ajudando a transformar e a executar as transações, está começando a ver marketplaces de venda de insumos, venda de grãos, venda de gado. Acredito que vamos conseguir ter os primeiros players resolvendo e criando grandes companhias. O setor da agritech no Brasil tem sido um para-raio de investimentos”.

Os números dos investimentos da SPVentures mostram que, “entre 2020 e 2024, eles foram de US$ 45 milhões (R$ 224 milhões) em 17 companhias e essas empresas levantaram mais US$ 300 milhões (R$ 1,49 bilhão). No total, foram US$ 345 milhões (R$ 1,72 bilhão), todos investidos em 17 startups”. É claro que o ecossistema da América Latina é muito maior do que apenas o portfólio dessa gestora de venture capital. E Jardim afirma: “Investimos em uma para cada 90 que recebemos. Então, a gente pode ver que o setor realmente tem crescido, tem atraído capital”.

São as grandes corporações que mais investem em agritech, posicionando o Brasil e a América Latina como um grande centro para a disrupção tecnológica no agro. Além disso, o Brasil é hoje um dos principais epicentros de inovação em serviços financeiros do mundo, o que leva à proliferação de agrifintechs. “Investimos 30% do nosso fundo II em agrifintechs. Apostamos bastante que essa cadeia é a mais dinâmica da última safra de fundos. No nosso entendimento, o AgroLand é hoje o banco tecnológico do agro mais bem-sucedido do mundo. O AgroLand foi de 0 a US$ 140 milhões de avaliação (R$ 698 milhões), em três anos e meio. A velocidade de crescimento dessa cadeia tem sido muito acelerada”, diz ele.

Publicado originalmente na Forbes Portugal

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