Leonardo Montesanto Tavares, Luiza Borges Oliveira e as irmãs Tatiana, Juliana e Poliana Favoreto não se conhecem e nunca estiveram na mesma mesa. Mas fazem parte do mesmo movimento: uma geração de cafeicultores brasileiros que herdou terra, aprendeu a produzir e se recusa a entregar o grão e encerrar aí a conversa. Por isso construíram marcas, disputaram prêmios internacionais e abriram rotas de exportação. O fenômeno não é só brasileiro. É global. Mas o Brasil, com sua força de maior produtor mundial, está no centro dele.
A brasileira Vanúsia Nogueira acompanha esse reordenamento de Londres, onde fica a sede da Organização Internacional do Café (OIC), entidade que responde por mais de 90% do comércio mundial da bebida. Antes de assumir a presidência da OIC, em 2022, ela passou 13 anos à frente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), ajudando a construir no Brasil o movimento que hoje se replica em outros países.
Os cafés especiais são aqueles com nota acima de 80, numa escala de 0 a 100 criada pela SCA, a associação mundial de cafés especiais. “Para todo lado você está tendo isso. É o universo acontecendo”, diz ela. Filhos de produtores no Vietnã, nas Filipinas, na Índia e no Brasil criam marcas próprias, conectam-se a baristas e torradores via redes digitais, vendem microlotes para o exterior e disputam feiras internacionais.
O surgimento das marcas responde a uma lógica geracional. Os filhos de produtores que ficam ou voltam às propriedades não querem operar dentro da cadeia da commodity. Buscam orgulho, conexão e retorno financeiro visível. O café especial oferece os três. Nos últimos tempos, a tecnologia removeu a última barreira: com aplicativos de tradução simultânea, o idioma deixou de ser obstáculo. Um produtor jovem no interior de Minas Gerais pode negociar diretamente com um torrador em Tóquio.
“No café especial, você fala de experiências diferentes no campo, no próprio manejo, de uma comunidade que conversa muito entre si. Eles se conectam enquanto produtores de nova geração, assim como com baristas, torradores e até mesmo com consumidores da nova geração”, explica Vanúsia. À medida que os volumes crescem, o próprio conceito se transforma. “No momento em que for algo de grande volume, provavelmente não vai se chamar mais café especial porque vai deixar de ser mercado de nicho pelas mãos dessa geração.”
DO LAVA-JATO AO MELHOR CAFÉ DO MUNDO
Leonardo, ou Leo Montesanto, como é chamado, é neto de Aprígio Tavares, que começou em 1953 vendendo café de pequenos produtores. Nos anos 1980, o avô reconstruiu do zero a massa falida da Três Corações. E Leo é filho de Ricardo Tavares, que levou a empresa a outro patamar antes de vendê-la. Herdeiro natural de um império do café, ele não gostava de lavoura e jurou aos 15 anos que nunca trabalharia com o grão.
O pai, então, o ajudou a montar um lava-jato… que faliu. A próxima iniciativa foi uma transportadora, e seu principal cliente acabou sendo o pai. Ao perceber que os grãos chegavam ao porto de Santos a granel, teve a ideia de transportá-los em contêineres. E acabou se tornando um dos maiores transportadores de café do país.
Três anos depois, convenceu-se de que seu destino era mesmo o café. Voltou de Santos para Belo Horizonte e assumiu a gestão das fazendas da família, incluindo a Fazenda Primavera, na Chapada de Minas. Entre 2016 e 2018, viajou 10 vezes à América Central para “perguntar aos melhores produtores de cada país o que faziam com o café depois de colhido”. Voltou com respostas, aplicou na fazenda e, em 2018, entrou no Cup of Excellence com um geisha produzido na Primavera. Ganhou o título de Melhor Café do Brasil e, pela primeira vez na história do país, o de Melhor Café do Mundo.
O lote vencedor foi dividido em dois sublotes, um arrematado pela Ally Coffee, dos Estados Unidos e da Europa, por US$ 19 mil, cerca de R$ 73 mil, e outro pela Maruyama Coffee, rede japonesa, por US$ 16 mil, R$ 61 mil, em uma época em que a saca comum custava cerca de 400 dólares, R$ 2.400.
O passo seguinte aconteceu em novembro de 2019, na Semana Internacional do Café em Belo Horizonte. Leo abriu o WhatsApp e leu a mensagem de um casal que havia encontrado meses antes, em uma feira em Berlim. Eram donos de uma cafeteria em Sofia, na Bulgária, que enfrentava dificuldades até colocar o café da Fazenda Primavera no cardápio e ver a fila se formar na porta.
Assim que viu a mensagem, telefonou para o pai: “Estou ligando para pedir demissão”. Disse que a missão nas fazendas estava cumprida e que iria atrás de um propósito que era do avô, três décadas antes: “Meu filho, o sonho da minha vida é ver o brasileiro tomar o café que sempre foi exportado”.
A Coffee++ nasceu com a premissa de democratizar o café especial no Brasil. A empresa trabalha com 11 cafés de sete regiões diferentes, todos com pontuação mínima de 84 pontos. “A palavra mágica do café especial é consistência”, diz Leo. “Se você comprar o Chapada de Minas da Coffee++ hoje e daqui a um ano, preciso te entregar o mesmo café.” A marca está em 17 estados, com mais de 2 mil pontos de venda. No Festival, rede com quase 40 lojas no Paraná, opera quatro torrefações e abastece 30 cafeterias.
Está também nas redes Angeloni e no Bistek, em Santa Catarina, e em breve inaugura uma torrefação dentro do Zaffari, no Rio Grande do Sul. Quando alguém pergunta qual é a sua profissão, ele tem uma palavra: “cafequizador”. A palavra não existe no dicionário, mas a trajetória que a sustenta, sim.
A FILHA QUE VOLTOU COM UMA CONDIÇÃO
A história de Luísa Vilela Oliveira também é de retorno. Após nove anos fora de casa, com uma carreira em ascensão, a condição que impôs ao voltar para a fazenda da família em Três Pontas, no sul de Minas Gerais, era simples de enunciar e trabalhosa de cumprir. Ela não ficaria apenas na operação. Queria uma marca. Era 2017, o pai, João Luiz Vilela Oliveira, acabara de receber a partilha das terras herdadas do avô e a decisão de criar a Guanabara Café chegou junto com a divisão, como se os dois movimentos, o da terra e o do mercado, precisassem andar juntos.
O marido, Daniel de Paula, formado em publicidade e vindo de Belo Horizonte, trouxe o olhar de fora. Os irmãos Fernando, técnico em cafeicultura, e Gabriel, engenheiro civil, ficaram na produção com o pai. Luísa foi para o pós-colheita e a qualidade, e Daniel para o marketing e e-commerce. O avô chegou à região há 57 anos; durante todo esse tempo, plantou café e manteve a família, e a terra, unida.
Quando a partilha aconteceu, João Luiz recebeu a fatia que hoje é de 400 hectares, dos quais 320 estão em produção. “Na época, a fazenda produzia entre 4 mil e 5 mil sacas por safra. Para 2026, nossa previsão é de 8 mil a 10 mil”, diz Luísa. No primeiro ano da marca, foram separadas seis sacas dos melhores lotes para torrar e embalar com o rótulo Guanabara Café. Hoje esse volume chega a 100 sacas por safra.
A fazenda dos Oliveira fica em altitude bem menor que a cafeicultura mais famosa do sul de Minas, às margens da represa de Furnas. Por anos, prevaleceu o preconceito: café de beira de represa é problemático, difícil na xícara. A família enfrentou essa percepção com um manejo mais cuidadoso: colheita no ponto exato de maturação, controle rigoroso da umidade e renovação sistemática das variedades.
“Ao longo dos anos, a gente vem só escolhendo variedades que se mostram produtivas e com potencial de qualidade maior”, diz Daniel. A família montou um campo experimental com 10 a 12 variedades em pequenas quantidades, entre elas gueixa e castillo, ambas valorizadas por perfis sensoriais que fogem do padrão brasileiro.
Em novembro de 2025, a Guanabara Café ficou em segundo lugar no concurso da Emater na categoria Sul de Minas, entre 1.890 amostras, e seus grãos já foram pontuados com nota 91. Embora seja cooperada da Cocatrel, cooperativa que exporta para cerca de 40 países, Luísa conta que a exportação ainda não saiu do papel. Mas está no mapa: “Já perdi algumas oportunidades de exportação, mas ela está a caminho”.
DO SÍTIO DE 70 ANOS À PRATELEIRA
O Brasil é o maior exportador de café do mundo e tem 23 Indicações Geográficas registradas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), número sem paralelo em qualquer outra commodity brasileira. Este é um nicho de mercado em que reinam as pequenas propriedades, caso do Café Três Anas, das irmãs Favoreto.
O sítio da família tem quase 70 anos. Foi o avô, Sebastião de Oliveira, quem comprou 38 hectares em uma encosta do Caparaó capixaba, em Muniz Freire, cidade que hoje integra a rota do turismo rural e dos cafés especiais do Espírito Santo. A parte que coube aos pais das três irmãs tem hoje sete hectares e 13 mil pés de café, em uma propriedade que pontua acima de 90 em sustentabilidade pelo critério da Secretaria Estadual de Agricultura do Estado.
Tatiana, a mais velha, nunca saiu da propriedade. Mas Juliana e Poliana, sim. Quando a pandemia de covid-19 chegou, as três se reencontraram na mesma trajetória, não por nostalgia, mas por necessidade e, logo em seguida, por convicção. Juliana e o marido enxergaram um negócio: a região do Caparaó produzia cafés excepcionais, mas ninguém ainda os oferecia com a valorização que mereciam.
A lanchonete que tocavam virou cafeteria. Tatiana partiu para os cursos de produção de cafés especiais no Senar, no Sebrae, no Incaper, e Poliana foi para a cozinha resgatar as receitas do tempo da avó. “A gente viu que tinha uma pedra bruta na mão que precisava lapidar”, conta Tatiana.
Nas feiras que passaram a frequentar, os clientes confundiam os nomes das três. “As três Anas”, diziam, sem perceber que estavam batizando o negócio. Foi um consultor do Sebrae que insistiu para que o apelido virasse marca. O registro no INPI saiu em agosto de 2025, embora o nome já circule há quase três anos.
A produção do sítio chegou a 150 sacas na última colheita. Desse total, 35 foram classificadas como café especial, com pontuação acima de 80 pontos. Os microlotes têm no máximo oito sacas cada e as amostras enviadas a concursos pontuaram entre 84 e 87. No Coffee of the Year, realizado anualmente em Belo Horizonte, o Café Três Anas figurou entre os 50 melhores do país em duas edições.
“Todo mundo fala que o café é todo especial. Mas não existe isso. É preciso escolher e separar”, diz Tatiana, sem rodeios. Há quatro anos, as irmãs compraram um segundo sítio, o São José, de quatro hectares a mil metros de altitude. A meta é dobrar a quantidade de café especial já nesta safra.
O Café Três Anas abastece clientes em São Paulo, como a cafeteria Café da Madre, que trabalha exclusivamente com marcas lideradas por mulheres. “Quando a gente leva a marca Três Anas, não está vendendo só café”, diz Juliana. “A gente está vendendo a história do avô, da nossa mãe, do sítio que tem quase 70 anos. O pacote é um pretexto.”