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Os Três Motores do Agro na Argentina Que Impulsionam um Negócio de US$ 7 Bilhões com a Índia

Saiba por que o país amplia as exportações de óleo e farelo de soja, enquanto Brasil e Estados Unidos destinam volumes crescentes de óleo à produção de biocombustíveis

7 min

Se existe um mercado em que a Argentina realmente compete entre os maiores do mundo, com participação crescente nos últimos anos, sem dúvida é o da produção e industrialização de oleaginosas como a soja e, em menor escala, o girassol. Aquela “ervinha” que, há vinte anos, crescia até mesmo às margens das rodovias da principal região produtora e era exportada basicamente em grãos para a China continua crescendo e gerando dólares em abundância. Agora, porém, a maior parte é industrializada no próprio país, em numerosas unidades de esmagamento, para a obtenção de subprodutos como farelo, pellets e, principalmente, óleo de soja.

O farelo tem diversos destinos, mas é enviado especialmente à União Europeia, enquanto o óleo, que anteriormente também era exportado quase exclusivamente para a China, hoje tem 80% de seu volume destinado à Índia, maior importadora mundial.

Um relatório da Bolsa de Comércio de Rosário, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), destaca que, entre janeiro e agosto, foram registradas exportações de 5,5 milhões de toneladas de óleos vegetais, sendo 4,1 milhões de toneladas de derivados de soja e 1,4 milhão de toneladas de girassol.

Entretanto, 62% desse total tiveram como destino o mercado indiano, “com embarques de 2,46 milhões de toneladas de óleo de soja e 750 mil toneladas de óleo de girassol”, o maior volume exportado para aquele país em toda a série histórica, considerando os primeiros oito meses do ano. E o potencial de crescimento é enorme, já que a Índia se tornou um país que reúne todas as condições para continuar ampliando sua demanda por óleos vegetais.

Oportunidades

Para o setor de oleaginosas argentino, o cenário é inteiramente favorável. As exportações de óleos vegetais, somando soja e girassol, representam quase 90% de todas as exportações argentinas para a Índia, seguidas pelo ouro.

Fontes da indústria de óleos vegetais estimam, para este ano, exportações anuais de cerca de US$ 6,9 bilhões (R$ 34,7 bilhões na cotação atual), o equivalente a quase 7% de todas as exportações argentinas, com a geração de um superávit comercial de aproximadamente US$ 4 bilhões (R$ 20,1 bilhões), o maior saldo positivo da balança comercial bilateral entre todos os países com os quais a Argentina mantém relações comerciais.

Dentro desse segmento, o óleo de soja vem substituindo o grão nas exportações, e a razão é fácil de compreender. Enquanto uma tonelada de soja em grão é comercializada por aproximadamente US$ 400 (R$ 2.011), o óleo de soja é vendido no exterior por US$ 1.200 a US$ 1.300 (R$ 6 mil a R$ 6.500) por tonelada. Nesse processo, naturalmente, foram realizados investimentos milionários nos últimos anos para a construção de unidades de esmagamento destinadas à industrialização no próprio país.

“Hoje, a Índia é o parceiro estratégico mais importante da indústria de oleaginosas argentina”, afirma Gustavo Idígoras, presidente da CIARA-CEC, a Câmara da Indústria de Óleos Vegetais da República Argentina e o Centro de Exportadores de Cereais. Ele esclarece que, nos últimos dois anos, “o comércio cresceu mais de 110% e hoje somos o principal fornecedor de óleos vegetais para aquele mercado, considerando soja e girassol”. Em volume de exportações, a Argentina é claramente líder nesse mercado, a ponto de uma em cada três garrafas de óleo que chegam à mesa dos indianos ser de origem argentina.

Os três motores

Idígoras menciona três razões que impulsionam a forte demanda indiana por óleos vegetais. Em primeiro lugar, o fato de a Índia ter se consolidado como a quarta maior potência econômica mundial, já tendo ultrapassado o Japão. A expectativa é que, em pouco tempo, ultrapasse também a Alemanha e assuma a terceira posição, com uma classe média em expansão, que demanda mais alimentos ricos em proteínas. “A demanda da Índia é crescente”, afirma o especialista.

Em segundo lugar, com o aumento da renda per capita, a demanda indiana deixou de se concentrar em oleaginosas de baixa qualidade, como o óleo de palma, e passou a incluir outros óleos de qualidade intermediária, como os de soja e girassol, que a Argentina produz em quantidades suficientes para exportação, observa Idígoras.

A esse respeito, um relatório da consultoria Biglobal, especializada em comércio exterior, destaca que “em termos populacionais, a Índia apresentou crescimento anual sustentado durante os últimos 25 anos”, embora esclareça que esse crescimento “está em processo de desaceleração”. Entretanto, observa-se uma expansão da classe média, “que atualmente representa 31% da população, embora persistam níveis elevados de desigualdade e pressões sobre o emprego”.

Essa expansão da classe média se traduz em mudanças na alimentação, observa a Biglobal. “A Índia apresenta uma demanda crescente por proteínas e alimentos de maior valor nutricional, tanto nas áreas urbanas quanto nas rurais, impulsionada pelo aumento contínuo do consumo de proteínas (vegetais e animais) e pela maior participação de carnes, ovos, laticínios e, especialmente, produtos da pesca na alimentação”.

“Isso faz da Índia um mercado potencial para as exportações agroalimentares argentinas, com exceção do setor bovino, por razões culturais e religiosas”, afirma a consultoria.

O terceiro motor do crescimento da demanda indiana está relacionado à menor oferta dos concorrentes da Argentina. No caso do óleo de girassol, destaca-se a redução da oferta da Rússia e da Ucrânia, fornecedores tradicionais da Índia que atualmente enfrentam sérios problemas logísticos para o abastecimento, em meio à guerra e à queda da produção.

Quanto ao óleo de soja, dois grandes participantes do mercado, Estados Unidos e Brasil, embora produzam grandes volumes de soja, também destinam quantidades crescentes de óleo de soja à fabricação de biocombustíveis, reduzindo, assim, o volume disponível para exportação.

Tarifas no centro das atenções

Daqui para a frente, o ponto fundamental é conseguir concluir um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a Índia, ou entre a Argentina e aquele país. “A Índia tem tarifas variáveis, de modo que hoje pagamos uma tarifa de 5% sobre as exportações de óleos vegetais, mas ela pode chegar a 30%”, explica Gustavo Idígoras.

Nesse contexto, ganha importância a assinatura de um acordo de livre-comércio, que, em princípio, recebeu a concordância da Índia. O Mercosul e a Índia possuem um Acordo de Comércio Preferencial (ACP), mas de alcance limitado. Em 14 de setembro, ambas as partes anunciaram o início de negociações para ampliar o acordo, com o objetivo de aprofundar as relações comerciais e o acesso aos mercados.

“A Índia pretende uma negociação curta, de no máximo 12 meses, concentrada na redução de tarifas para uma lista de 200 ou 300 produtos de cada parte”, afirmou Idígoras. Ele não descarta que, caso o acordo seja concretizado, também possa facilitar o acesso a mercados da região, como Bangladesh, um mercado grande e interessante, ou o Paquistão, que, apesar da rivalidade com a Índia, também está na pauta.

Publicado originalmente em Forbes Argentina

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