Quando uma mulher negra ocupa o perfil de um CEO com meio milhão de seguidores

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Ana Bavon: Decidi ocupar o perfil do meu anfitrião por 3 dias, desconhecendo o perfil do público e sua maturidade para o tema que propus – o racismo estrutural

Era quarta-feira, 10 de junho. Acordo com uma mensagem inesperada: “Ana, temos um perfil com mais de 460 mil seguidores para ser ocupado, e tão logo recebemos esse host pensamos em você para ocupá-lo”.

A remetente era uma das articuladoras do movimento Desenquadradas, grupo de mulheres que, inspiradas pela ação do ator Paulo Gustavo, que cedeu sua página no Instagram para a filósofa Djamila Ribeiro compartilhar conteúdo de sua autoria, encontra anfitriões não negros dispostos a “ceder seu lugar de fala” para que vozes negras sejam amplificadas.

Não titubeei e aceitei o convite, com a consciência de quem conhece seu lugar social. Ou seja: estava ciente de que, mesmo ocupando um perfil com centenas de milhares de seguidores falando a partir do lugar de um grande CEO, minha voz não necessariamente seria ouvida.

Minha experiência mostrou que o racismo estrutural resulta em uma falta de engajamento nas pautas trazidas pelas pessoas negras em perfis brancos. O lugar social muito bem definido no imaginário de cada uma das pessoas impede a capilaridade e disseminação de conteúdo das pessoas negras.

Falamos a partir do lugar de uma pessoa branca, mas não compartilhamos seu lugar social e, portanto, não compartilhamos sua relevância e influência. Neste artigo, falo sobre como planejei o conteúdo para a minha ocupação, os resultados e como essa ação foi impactada por valores que vão muito além de uma hashtag.

A estratégia de conteúdo

Na ação batizada de “Vozes Negras Importam”, as vozes negras são responsáveis pelas suas próprias estratégias de conteúdo. Obviamente, os resultados de cada ocupação só podem ser medidos por quem elaborou o plano de ação; portanto, nesse artigo eu compartilho minha experiência pessoal, de acordo com o plano que tracei para mim.

Decidi ocupar o perfil do meu anfitrião por 3 dias, desconhecendo o perfil do público e sua maturidade para o tema que propus – o racismo estrutural. Montei uma estratégia focada na disseminação de conteúdo antirracista com o objetivo de despertar a atenção das pessoas que seguem este CEO para o tema.

No primeiro dia compartilhei minha palestra no TEDx Goiânia e apresentei as credenciais técnicas que me habilitam a tratar dos temas em que trabalho. A ideia era mostrar que a audiência podia confiar na qualidade do conteúdo ali compartilhado.

A capilaridade do conteúdo deste primeiro post foi bastante baixa: não chegou a atingir 10 mil visualizações e teve cerca de 200 curtidas. A maior parte da interação partiu das minhas próprias conexões no LinkedIn, que visitaram o perfil do meu anfitrião.

No segundo dia, publiquei um mini tutorial para quem está iniciando a jornada antirracista, apresentando conceitos bem básicos e convidando o público para a reflexão.

Neste post, a capilaridade foi ainda menor: cerca de 200 likes, alcance abaixo de 8 mil pessoas e alguns compartilhamentos. Ainda recebi um comentário agressivo e racista neste dia, e, muito embora não tenha sido surpresa, nunca estamos completamente preparadas para esse tipo de ataque.

No terceiro e último dia, já com maior conhecimento do perfil do público e seu comportamento, decidi compartilhar uma iniciativa que estava angariando fundos para a instalação de pontos de internet numa comunidade periférica de São Paulo. O matchfunding tinha 12h para ser encerrado e ainda precisava de R$ 30 mil para bater a meta. Conclusão: meta atingida.

O que se espera da pessoa negra é que ela esteja em uma situação vulnerável. Quando ela foge desse estereótipo, fica impossível conviver. A prova disso está na minha passagem pelo perfil do meu anfitrião: nas duas postagens iniciais, onde eu me posicionava como CEO de uma consultoria, o engajamento foi bem baixo.

No entanto, em minha última publicação, quando pedi contribuição em dinheiro para um projeto, consegui o engajamento necessário, pois aqui as pessoas puderam confirmar a vulnerabilidade que permeia a fantasia que o racismo estrutural reservou para pessoas negras.

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O lugar de fala é intransferível

Quando disse que aceitei o convite consciente do meu lugar social, sabia que ocupava um espaço – e não um lugar. O lugar de mulher negra de pele clara é intransferível, e este lugar me habilita a fazer a leitura dessa ação.

O lugar social é o conjunto de símbolos que carregamos em nós a partir da nossa percepção do mundo e da percepção do outro sobre nós. Já o lugar de fala – o lugar de onde se fala – é a expressão desse lugar social. Por ser parte da composição de nossa existência como sujeitos, o lugar de fala não pode ser cedido; ele nos acompanha onde quer que estejamos.

Segundo essa teoria, uma mulher é mais habilitada a falar sobre os problemas causados pelo sexismo, uma pessoa negra é mais habilitada para falar sobre racismo e por aí vai. O lugar de fala tem a finalidade de conferir legitimidade ao discurso a partir do contexto, quando distribuído por aquelas que o conhecem a partir da vivência.

Todas as pessoas tem seu lugar de fala a partir de seu lugar social; a todos e todas é permitido tratar todo e qualquer assunto desde que o faça a partir de seu lugar social e não pretendendo esgotar o tema – já que essa fala é limitada à realidade que se vive.

O lugar social é intransferível como o CPF. Ele te lembra o tempo todo quem você é e o que você “deve”. Você existe com ele. Por isso, por mais que ocupemos o espaço de fala de alguém, a voz será sempre de uma pessoa negra que fala a partir do seu lugar social negro. Isso explica o resultado do baixo engajamento.

Negros estão, tanto cultural quanto historicamente, em uma posição de inferioridade e sujeição ao colonizador branco, segundo o psiquiatra e filósofo Franz Fanon. O racismo estabelece lugares sociais para negros e também para brancos. Nesse caso, o lugar reservado ao branco é sempre mais alto na hierarquia social. Ambos são uma ilusão, pois atribuem valores baseados em premissas inválidas.

Uma ação como a Vozes Negras Importam não rompe com a estrutura social estabelecida que hierarquiza vidas, mas joga luz sobre a realidade. Existem lugares especificamente reservados a um e outro na sociedade brasileira e o resultado das ocupações nos traz evidências de que isso é verdade. O baixo engajamento, as agressões racistas, a total falta de interesse sobre narrativas negras.

O alto custo das ocupações

Ocupações de perfis de influenciadores brancos foram bastante desafiadoras em muitos momentos para as vozes negras. Ao ocuparem esses espaços, negras e negros foram recebidos com a violência do racismo em comentários, em mensagens e na ausência de engajamento.

O custo da ocupação foi alto em saúde mental para muitas e muitos de nós. É por isso que chamo a cessão de onerosa. No entanto, ainda assim é uma ação positiva, como podemos ler no depoimento de Viviane Elias em sua ocupação do perfil de Suzie Clavery no LinkedIn. Ela fala sobre os diversos desafios que enfrentou durante a ação, e ressalta a necessidade de continuar lutando contra o racismo que, como ela bem coloca, “é sutil, cruel, mata e precisa mudar”.

O racismo é problema da sociedade brasileira, que é heterogênea e composta de pessoas que precisam estar cientes dessa realidade e compreender como o conceito faz parte de sua conduta individual e como isso impacta o todo.

Para muitos, a confusão causada ao se deparar com vozes negras disseminando conteúdo em perfis de pessoas brancas foi suficiente para iniciar o debate sobre a falsa democracia racial brasileira. O resultado das ações, mesmo que dúbio, tem sido fundamental para percebermos o quanto o racismo está inserido no inconsciente coletivo conduzindo o dia a dia de todos nós.

Estamos em um momento especialmente importante para avançarmos individual e coletivamente no debate racial. A estrutura racista só será fissurada na medida em que o debate ocorrer em todas as entranhas da sociedade: nas organizações, na sociedade civil, na academia. Em todos os lugares, precisamos debater a história da abolição, do sequestro de pessoas negras em África, do apagamento e silenciamento históricos.

Ana Bavon é advogada especialista em Direitos Civis e membra da Comissão de Ética, Diversidade e Igualdade do IBDEE. Especialista em estratégias de Inclusão e Gestão das Diversidades nas Organizações na B4People Cultura Inclusiva, onde é CEO.

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