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As Tecnologias contra o Calor Extremo de Que os Líderes Precisam com Urgência

À medida que eventos climáticos mais severos se tornam frequentes, cresce a corrida por soluções para reduzir perdas econômicas, proteger populações e aumentar a resiliência

15 min

Não importa para onde se olhe, há algum veículo de comunicação noticiando um recorde quebrado, um alerta emitido ou uma morte provocada pelo calor. Em Londres, as recentes ondas de calor, ironicamente, ofuscaram boa parte da Semana de Ação Climática de Londres. Mais de 200 milhões de americanos passaram o feriado sob alertas de calor, enquanto os Centros de Controle e Prevenção de Doenças registram um aumento nas visitas a serviços de emergência relacionadas ao calor. No início de julho, os Emirados Árabes Unidos entraram no período mais intenso do calor do verão, com duração prevista de 40 dias. Ainda mais assustador: no começo de junho, Mumbai tinha reservas de água para apenas 45 dias. As chuvas das monções ficaram abaixo do esperado e, em seguida, o calor excessivo evaporou as reservas limitadas.

O calor extremo produz efeitos em cadeia. Tudo começa com uma elevação da temperatura que pode nos levar a aumentar o uso do ar condicionado, mas que também pode danificar infraestruturas naturais e construídas pelo ser humano, provocar perdas econômicas e ameaçar a coesão social. Muitos líderes estão sendo pegos desprevenidos. Segundo a Mercer, uma das maiores consultorias globais nas áreas de recursos humanos, remuneração, benefícios, previdência, investimentos e gestão de riscos relacionados à força de trabalho, apenas 4% das empresas já avaliaram a vulnerabilidade de sua força de trabalho ao calor extremo ou a outros impactos climáticos.

A partir de determinado momento, simplesmente orientar as pessoas a permanecer dentro de casa e tomar cuidado deixa de ser suficiente. É preciso proteger antecipadamente as pessoas, as infraestruturas e o meio ambiente. Tecnologias novas e emergentes terão papel fundamental, mas existe uma lacuna de conhecimento: quais são as tecnologias consideradas boas práticas para enfrentar os riscos do calor extremo? Onde está o mapeamento consolidado, ou o centro de informações, ao qual empregadores, autoridades públicas, famílias e indivíduos possam recorrer?

GettyimagesImagem de 24 de junho de 2026, combinando dados do EDO, da NASA, da JAXA, do GEBCO e do OSM, mostra um mapa da Europa no momento em que uma onda de calor castiga o continente

Ao longo do tempo, a maioria dos setores desenvolveu algum tipo de conjunto tecnológico e de inovação. Médicos trabalham com ferramentas de diagnóstico, tratamentos e protocolos clínicos. Profissionais do setor financeiro utilizam arquiteturas compostas por instrumentos, plataformas e modelos de risco. Em certo estágio do desenvolvimento de um setor, costuma existir pelo menos um conhecimento prático sobre o universo de soluções disponíveis. Essa visibilidade determina para onde o capital é direcionado, quais problemas recebem prioridade e com que rapidez as inovações chegam à aplicação prática.

O campo do calor extremo ainda não chegou a esse estágio, e há pouco tempo para conduzi-lo até lá. Existe um núcleo de profissionais, entre eles médicos, engenheiros, seguradores, urbanistas e fundadores de empresas, que compreendem simultaneamente os riscos e o panorama tecnológico. Esse conhecimento precisa ser disseminado rapidamente.

O que o calor extremo realmente provoca

O calor extremo é mais grave e sistêmico do que a maioria de nós imagina. O relatório anual de 2025 do Lancet Countdown constatou que a mortalidade relacionada ao calor aumentou 23% desde a década de 1990, com 546 mil mortes anuais provocadas pelo calor. Um equívoco comum é tratar uma onda de calor como um episódio isolado e limitado no tempo. A médica Manijeh Berenji, com formação em medicina e saúde pública e atuação em medicina ocupacional e ambiental, afirma:

“Costumamos tratar uma onda de calor como um único acontecimento, mas o corpo acumula seus efeitos. O perigo geralmente não está na tarde mais quente, mas na quarta tarde consecutiva, quando o termômetro não contou com uma noite fresca para se regular novamente.”

Essa carga acumulada ajuda a explicar por que o domo de calor que atingiu o Noroeste do Pacífico em 2021 matou 619 pessoas na Colúmbia Britânica em uma única semana e por que mais de 1.300 peregrinos morreram durante a peregrinação do Hajj em 2024, quando as temperaturas chegaram a 51,8 °C.

“Doenças crônicas e calor crônico não se somam, eles se multiplicam”, acrescenta Berenji. “A pergunta relevante não é qual é a temperatura hoje. É quanta reserva as últimas duas semanas deixaram para aquela pessoa específica.”

As perdas econômicas, inclusive as relacionadas à produtividade, são enormes. Nas palavras de Nick Halla, fundador e CEO da GigaClimate: “Quando as temperaturas sobem, o trabalho para. O calor extremo está se tornando um dos grandes desafios de infraestrutura deste século, mas a maioria das pessoas ainda o considera um problema meteorológico. Até 2030, estima-se que o estresse térmico reduza em 2,2% o total de horas trabalhadas no mundo, o equivalente a aproximadamente 80 milhões de empregos em período integral e a US$ 2,4 trilhões em perdas econômicas anuais, R$ 12,31 trilhões na cotação atual.”

O impacto do calor extremo vai muito além da saúde humana. A infraestrutura está em risco: o asfalto amolece, as linhas de transmissão superaquecem, os encanamentos subterrâneos se expandem e, quando a demanda por refrigeração chega ao ponto máximo, as redes elétricas ficam sobrecarregadas. Quando essas redes falham, populações inteiras perdem ao mesmo tempo o acesso ao ar condicionado, a equipamentos médicos e a medicamentos refrigerados.

O calor também pode causar danos permanentes ao meio ambiente. Com um aquecimento de 1,5 °C, estima-se que entre 70% e 90% dos corais formadores de recifes morrerão. Com 2 °C, 99% desaparecerão. Também não podemos esquecer os incêndios florestais. Embora não sejam necessariamente provocados apenas pelo calor extremo, a elevação das temperaturas cria condições favoráveis, e os danos se tornarão ainda mais profundos.

Um estudo de 2025 publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America constatou que os distúrbios florestais causados pelo fogo no período de 2023 a 2024 atingiram o nível mais elevado desde o início do monitoramento, em 2001. Em escala mundial, o número foi 2,2 vezes superior à média registrada entre 2002 e 2022.

O calor extremo desencadeia uma série de consequências. Em pouco tempo, pode passar do desconforto e do cancelamento de eventos para problemas graves de saúde, incluindo a morte, falhas nas redes elétricas, danos às infraestruturas naturais e construídas e o agravamento das desigualdades sociais. Raramente chama a atenção das manchetes como um incêndio florestal. Os danos se acumulam de maneira lenta e invisível e, repentinamente, tornam-se irreversíveis. Isso alimenta um ciclo nocivo: conforme os sistemas naturais e construídos dos quais dependemos enfraquecem e deixam de funcionar, nossas redes de proteção desaparecem.

A lacuna de conhecimento e como preenchê-la

O que explica, então, a permanência dessa lacuna de conhecimento e de soluções? Hannah Safford, diretora associada de Clima e Meio Ambiente da Federação de Cientistas Americanos, aponta uma razão estrutural para a continuidade dessa lacuna. “O calor é mais difícil de reconhecer como uma ameaça imediata. Furacões deslocam comunidades, e incêndios deixam para trás restos carbonizados. Esses impactos são muito mais fáceis de comunicar do que os efeitos do calor extremo.”

A segunda parte de sua explicação é mais desconfortável: “O sofrimento provocado pelo calor extremo é profundamente desigual. Pessoas ricas podem pagar para escapar, vivendo em espaços climatizados ou deixando a cidade. Essas mesmas pessoas também exercem controle considerável sobre o destino do capital e sobre a formulação das políticas.”

A lacuna de conhecimento persiste, pelo menos em parte, porque aqueles que estão em melhor posição para eliminá-la também são os que têm menor probabilidade de sentir seus efeitos. Paralelamente, falhas de projeto agravam o problema. Emily Dinino, cofundadora da ThermoShade, afirma que “ficamos tão dependentes da refrigeração mecânica que esquecemos como projetar lugares que protejam as pessoas tanto em ambientes internos quanto externos. Isso deixou especialmente vulneráveis aqueles que estão mais expostos e menos protegidos, inclusive durante seus deslocamentos, em espaços públicos e em locais de trabalho ao ar livre.”

Ao mesmo tempo, existe um conjunto crescente de inovações que estão sendo desenvolvidas e levadas ao mercado e que podem ser aplicadas nesse contexto. Esse “conjunto de tecnologias contra o calor extremo” abrange os ambientes construído e natural, além da saúde e da segurança humanas e dos sistemas em geral.

Confira como funciona cada camada.

Camada 1: detecção e inteligência

As soluções necessárias identificam, quantificam e comunicam o risco térmico antes que ele provoque danos. Entre elas estão monitores fisiológicos, plataformas de previsão com inteligência artificial e ferramentas analíticas que convertem a exposição física em valores financeiros.

Empresas como SlateSafety e VigiLife sinalizam temperaturas internas perigosas antes do surgimento dos sintomas. Um projeto piloto da VigiLife com a Rogers O’Brien Construction registrou zero ocorrência de doenças relacionadas ao calor e uma economia superior a US$ 200 mil, R$ 1,03 milhão, em uma única temporada.

Camada 2: ambiente construído

São necessários sistemas de refrigeração com consumo baixo ou nulo de energia, alternativas de baixo carbono aos aparelhos convencionais de ar condicionado e intervenções em escala urbana que reduzam a temperatura ambiente.

Safford é direta: “A dependência excessiva do ar condicionado sobrecarrega as redes elétricas, deixa as pessoas mais expostas aos aumentos no preço da energia e contribui para um ciclo nocivo ao produzir mais emissões que aquecem o planeta.”

A SkyCool Systems demonstrou uma redução de 15% a 40% no consumo de energia por meio de painéis de resfriamento radiativo apoiados pela ARPA E. A ThermoShade está instalando estruturas modulares de sombreamento em sistemas de transporte, espaços públicos, campi, locais de trabalho e eventos. As estruturas combinam resfriamento radiativo passivo e materiais de mudança de fase para criar espaços externos mais frescos.

Os resultados econômicos também são convincentes. Segundo uma pesquisa da Federação de Cientistas Americanos, cada dólar investido em refrigeração passiva proporciona um retorno entre US$ 1,50 (R$ 7,70), e US$ 15, (R$ 77).

Camada 3: resposta humana

Mesmo o ambiente mais bem projetado deixará algumas pessoas expostas. Dinino resume a questão:

“A resposta não pode se limitar a entrar em um edifício ou procurar um local com ar condicionado. As pessoas ainda precisam esperar o ônibus, cuidar das lavouras, frequentar a escola e praticar esportes.”

A Mexar fabrica roupas com resfriamento evaporativo, desenvolvidas em conjunto com trabalhadores que atuam na linha de frente. O WorkerSafety Pro, da Becklar, usa alertas baseados na temperatura de globo e bulbo úmido para atender às normas sobre calor da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos, a OSHA. Já o ColdVest, da ColdVentures, reduz a temperatura interna do corpo em até cinco graus em menos de três minutos, sem eletricidade.

Camada 4: sistemas e capital

A resiliência ao calor depende de uma infraestrutura econômica capaz de determinar se os alimentos chegarão às pessoas, se as lavouras sobreviverão até a colheita e se os trabalhadores terão proteção financeira suficiente para fazer escolhas seguras.

A ColdHubs, na Nigéria, e a SokoFresh, no Quênia, estão ampliando suas operações de armazenamento refrigerado movido a energia solar. Já os bioestimulantes da Elicit Plant ajudam a proteger as culturas agrícolas contra o estresse térmico, após a empresa captar US$ 48 milhões (R$ 246,24 milhões) em uma rodada Série B.

Camada 5: resiliência da infraestrutura

Precisamos proteger rodovias, ferrovias, pontes e redes elétricas que mantêm a sociedade funcionando. Monitoramento de redes elétricas com inteligência artificial, gerenciamento da demanda durante períodos de estresse térmico, asfaltos resistentes ao calor e sistemas de sensores para ferrovias são alguns exemplos.

A plataforma de resposta à demanda baseada em inteligência artificial da GridBeyond foi lançada no mercado PJM em parceria com a Constellation Energy em julho de 2025. O uso de betume modificado por polímeros está sendo ampliado na rede de transportes dos Estados Unidos com apoio de US$ 2 bilhões (R$ 10,26 bilhões) em recursos federais da Lei de Redução da Inflação (IRA). Ao mesmo tempo, as baterias de longa duração da Form Energy estão fornecendo capacidade de reserva para redes elétricas em larga escala.

Camada 6: resposta dos ecossistemas

Ao contrário das demais camadas, os danos causados aos ecossistemas naturais não podem ser revertidos. A Coral Vita cultiva corais tolerantes ao calor por meio de evolução assistida e já documentou a duplicação das populações de peixes em áreas restauradas. A IntelliReefs desenvolveu um substrato de engenharia que favorece a fixação de corais. Já o NOAA Coral Reef Watch, o Global Forest Watch, do World Resources Institute (WRI), e o Allen Coral Atlas fornecem os dados de monitoramento que tornam possível detectar e responder aos impactos em escala mundial.

E esse conjunto de tecnologias para enfrentar o calor extremo continua em desenvolvimento, com inúmeras oportunidades surgindo. Nas palavras de Halla: “Na GigaClimate, enxergamos esse desafio não apenas como um dos mais urgentes do mundo, mas também como uma oportunidade para melhorar a vida de bilhões de pessoas e fortalecer a economia global por meio de uma nova geração de tecnologias capazes de manter as pessoas produtivas, saudáveis e seguras em um planeta cada vez mais quente.”

O que os líderes podem fazer agora

A primeira geração da cleantech, em meados dos anos 2000, ofereceu ao mundo uma visão inicial do que era possível. Desde então, com mais recursos financeiros, capital humano, políticas públicas e colaboração, a interseção entre soluções tecnológicas, riscos climáticos e oportunidades tornou-se mais sólida.

A tecnologia climática passou a constituir uma categoria relevante de investimentos. Cada segmento percorreu uma trajetória semelhante: inicialmente havia incerteza sobre quais eram as soluções disponíveis; depois veio a adoção gradual de uma linguagem comum, a compreensão de toda a cadeia de valor e o amadurecimento da tese de investimento.

Agora, a tecnologia voltada à adaptação climática começa a seguir esse mesmo caminho, e o calor extremo talvez represente a oportunidade mais imediata para agir. Será necessário ampliar significativamente a pesquisa, os testes e os mecanismos de acesso ao mercado para desenvolver e colocar em operação todo o espectro de soluções.

Dinino destaca a necessidade de criar mais infraestrutura para adoção dessas tecnologias: “Precisamos de mais projetos-piloto, mais dados obtidos em campo e processos de contratação mais simples para cidades e órgãos públicos. Programas de financiamento podem contribuir tratando a mitigação do calor como infraestrutura essencial e criando caminhos mais rápidos para testar e adotar novas tecnologias.”

A forma como se comunica o risco do calor também precisa fazer parte dessa agenda. Informar a população sobre o que está por vir, como adaptar comportamentos e quais medidas de proteção estão disponíveis é, por si só, uma forma de aumentar a resiliência ao calor.

Felizmente, não estamos começando do zero. Iniciativas como o programa Extreme Weather + Work, da Health Action Alliance, procuram levar as organizações da conscientização para a ação. A plataforma HeatAgenda.US, da Federação de Cientistas Americanos, reúne mais de 400 soluções de políticas públicas baseadas em evidências que líderes estaduais e municipais podem implementar imediatamente, com exemplos dos 50 estados americanos. A Climate Mayors lançou um Kit de Comunicação sobre Calor Extremo voltado especificamente ao desenvolvimento de estratégias compartilhadas de comunicação e de soluções de resiliência entre as cidades participantes. Uma comunicação pública clara, acessível e prática sobre os riscos do calor faz parte desse conjunto de soluções tanto quanto qualquer tecnologia.

Nem toda solução para enfrentar o calor apresentará um retorno financeiro claramente mensurável ou contará com uma startup financiada por capital de risco. Países e cidades continuarão precisando de sistemas públicos de saúde eficientes, normas trabalhistas que possam ser efetivamente aplicadas e uma cultura que trate essa ameaça com a seriedade necessária. Sem esses elementos básicos, o conjunto de tecnologias terá alcance limitado.

Toda decisão tomada hoje sobre onde construir, de onde adquirir insumos, onde contratar pessoas e como estruturar seguros já é, na prática, uma decisão relacionada ao calor, ainda que muitos líderes ainda não reconheçam isso. Como diria Berenji: é preciso agir antes que as reservas se esgotem.

Publicada originalmente em Forbes EUA

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