Quase 15 mil indivíduos da fauna e da flora já foram registrados em uma área de 500 mil hectares da Terra Indígena Panará, localizada na divisa entre Pará e Mato Grosso, na Amazônia. O levantamento reúne o conhecimento dos indígenas sobre o território e métodos científicos de catalogação para formar um inventário da biodiversidade local, onde foram identificadas 602 espécies. Entre elas, 27 estão criticamente ameaçadas de extinção, segundo informações divulgadas nesta terça-feira, 18 de agosto, pela Agência Brasil.
“Foi muito bom trabalhar junto com pesquisadores não indígenas. Um ensinou ao outro”, afirma o pesquisador Kiarysy Kaiabi Panará, conhecido como Cutia, um dos integrantes do trabalho de campo.
O projeto é promovido pela Conservação Internacional no Brasil, a CI-Brasil, em parceria com a Rede Xingu+, a Associação Indígena Iakiô, universidades públicas e outras organizações sociais. A iniciativa ocorre em uma região pressionada pelo garimpo ilegal e por outras atividades irregulares e pretende produzir informações que possam ser utilizadas na conservação da biodiversidade da Terra Indígena Panará.
As equipes percorrem trilhas pelo território para registrar animais, plantas e insetos, coletar amostras e obter informações sobre as espécies encontradas. Também são retiradas amostras de água do Rio Rriri, afluente do Rio Xingu que atravessa a terra indígena. Os pesquisadores Panará participam da coleta e da interpretação dos dados ao lado de pesquisadores vinculados às universidades.
“Os Panará sabem ler a floresta de um jeito que nenhum instrumento científico consegue substituir. Eles conhecem a alimentação de cada animal, como se movimenta, e esse conhecimento alimenta diretamente a ciência que construímos juntos”, afirma Renata Pinheiro, diretora do programa Povos Indígenas e Comunidades Locais da CI-Brasil.
Parte do trabalho depende do uso de equipamentos e ferramentas digitais. Os pesquisadores indígenas receberam treinamento para operar GPS, aplicativos destinados à catalogação das espécies e câmeras trap, equipamentos instalados na mata que são acionados pelo movimento ou pelo calor corporal dos animais.
A tecnologia permitiu registrar espécies que dificilmente seriam observadas durante as caminhadas realizadas pelas equipes. As imagens captadas pelas câmeras passaram a integrar o material utilizado para identificação e catalogação da fauna.
“Quando as câmeras capturaram os bichos de pelo, a gente conseguiu identificar mais bichos do que a gente conhece. Depois disso, eu também fiquei muito feliz em conhecer essa parte da pesquisa com a tecnologia”, afirma a pesquisadora Pentê Panará.
Pentê foi escolhida pelos moradores da aldeia Panará Sõnkârãsãn para integrar o grupo de pesquisadores. A participação das mulheres no levantamento também passou a despertar interesse dentro da comunidade, segundo ela.
“Toda vez que eu voltava do trabalho de pesquisa, as outras mulheres me perguntavam sobre o que estávamos fazendo e como era trabalhar com essa parte de tecnologia. Acho que outras mulheres Panará também gostariam de participar”, diz.
Entre os quase 15 mil indivíduos registrados estão plantas, animais e insetos pertencentes a 602 espécies. O levantamento classificou 27 delas como criticamente ameaçadas de extinção. Uma das árvores coletadas durante as expedições também está sendo analisada como uma possível espécie ainda não descrita pela ciência.
Para o povo Panará, no entanto, a árvore é conhecida há gerações. Chamada de Já, ela foi marcada, fotografada e teve amostras recolhidas durante uma das incursões pela floresta. A possível identificação de uma nova espécie ainda depende de material adicional e da análise de botânicos.
“A gente ainda precisa conseguir coletar esse indivíduo novamente durante a estação da floração para conseguir fazer essa análise”, afirma Renata Pinheiro. A coleta das amostras ainda não foi concluída. Segundo a diretora da CI-Brasil, o trabalho foi interrompido por falta de recursos para financiar uma nova rodada de expedições, e a expectativa da organização é retomar as atividades para completar o inventário.
Para Pentê, os rastros encontrados durante as caminhadas indicam que parte da fauna do território ainda não entrou na catalogação. “Durante essa pesquisa, toda vez que a gente andava na mata, a gente encontrava rastro de outros bichos. Dá até pra saber o caminho onde eles andam. Para mim, ainda tem muitos mais”, afirma.
Quando o inventário estiver concluído, os pesquisadores indígenas participarão da análise dos resultados antes de os dados serem disponibilizados no Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, o SIBBr. A plataforma reúne registros de ocorrência de espécies, coleções biológicas e bases de informações científicas.
O modelo definido pelo projeto prevê que os pesquisadores Panará apareçam como autores e detentores do conhecimento associado às informações coletadas dentro do território. Dessa forma, instituições interessadas em utilizar o conteúdo deverão identificar a origem dos dados e seus responsáveis.
“Tem todo um procedimento que precisa ser feito para os pesquisadores indígenas estarem nessa plataforma como detentores e autores desse conhecimento, e isso ficar registrado na plataforma. Assim, cada vez que uma outra instituição de pesquisa, por exemplo, precisar acessar essas informações, eles são procurados”, diz Renata.
O mesmo princípio passou a ser aplicado aos trabalhos acadêmicos produzidos a partir do projeto. A CI-Brasil estabeleceu um protocolo para que publicações elaboradas por pesquisadores não indígenas sejam apresentadas previamente aos Panará. Vídeos e áudios são utilizados para explicar quais informações serão publicadas, com que finalidade e em qual contexto.
“Tudo que está sendo negociado para ser publicado, os pesquisadores não indígenas gravaram vídeos ou áudios explicando aos Panará a publicação, quais seriam os dados utilizados, qual o objetivo e o que vai ser tratado”, afirma Renata. A partir dessa apresentação, os pesquisadores Panará e a comunidade podem acrescentar informações antes da liberação do material para publicação acadêmica.
“A gente estabeleceu esse protocolo, e tudo que foi feito até agora vem ao encontro da tradição oral dos povos indígenas, para que todos tivessem esse cuidado de colocar essas informações na oralidade, num vídeo, para que os Panará conseguissem entender e reagir ao que estava sendo colocado ali”, afirma Renata.