O papel da tecnologia na reinvenção do agronegócio pós-coronavírus

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Em 2019, o agronegócio representou 21,4% do PIB nacional: cerca de R$ 1,5 trilhão

Não há dúvidas de que o futuro do agronegócio será digital. A opinião é de Cleber Oliveira Soares, que há 15 dias assumiu a diretoria de inovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Mais do que isso. Segundo o especialista, que passou uma década na Embrapa e permanece no quadro de colaboradores da empresa de pesquisa, o cenário atual é muito desafiador, mas representa uma oportunidade sem precedentes, principalmente para o Brasil, onde o setor é um dos protagonistas da economia. Em 2019, o agronegócio representou 21,4% do PIB nacional, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP. Isso dá cerca de R$ 1,5 trilhão.

Segundo Soares, a tendência é que, pós-pandemia, o agronegócio sofra transformações profundas, que devem acelerar a digitalização da cadeia e a construção de marketplaces do setor. “O Brasil já vem fazendo muito nessa área – não em todas as culturas, nem em todas as regiões, afinal o país tem dimensões continentais e uma variedade produtiva como poucos”, aponta.

Essa transformação digital envolve a aceleração da adoção de uma série de tecnologias de ponta. A gestão eficiente de dados, por meio de Big Data, por exemplo, é capaz de melhorar a informação sobre insumos, condições climáticas e maquinário a ponto de baixar custos e aumentar a produtividade. O blockchain permite o rastreamento do ciclo de vida do produto, desde o plantio até a prateleira, garantindo certificações de qualidade. E rótulos com QR Code vão levar essas informações aos consumidores.

Os marketplaces assumem um papel importante nesta evolução do setor, agregando e conectando os players do setor entre eles e com os consumidores. Soares tem duas visões sobre o recurso. Uma delas é interna, um olhar para dentro do setor capaz de criar um canal intermediário para todos os elos da cadeia, gerando e compartilhando dados e, claro, fazendo negócios. A segunda é a que liga o setor ao consumidor final.

“Esse nível de digitalização vai agregar valor à toda a cadeia, não apenas financeiro, mas de percepção. Imagina as pessoas podendo dar notas aos produtos comprados?”, pergunta. “Esse tipo de informação e compreensão vai ao encontro do novo consumidor pós-pandemia.”

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Rafael Sant’Anna comanda a Agrofy no Brasil, um dos principais expoentes do agronegócio digital no país

A DIGITALIZAÇÃO DO PRODUTOR

A Agrofy é um dos principais expoentes do agronegócio digital no país e trabalha para endereçar a promessa da digitalização para o setor A agtech argentina tem o Brasil como seu principal mercado, que receberá a maioria dos US$ 23 milhões captados em seu último aporte em dezembro de 2019. Comandada no Brasil por Rafael Sant’Anna, a startup lançou a operação local no final de 2018 e, desde então, reuniu 17 categorias em seu marketplace, que incluem desde insumos como sementes e defensivos agrícolas até veículos e serviços financeiros para o agricultor.

Depois de ter abastecido suas prateleiras virtuais com ofertas de mais de 1.400 pequenas e médias empresas, o foco atual da Agrofy é gerar liquidez para a plataforma: “Um dos fatores-chave de sucesso de um marketplace é equilibrar a oferta e a demanda, para que ele traga resultado para toda a cadeia e gere valor”, diz Sant’Anna.

A maturidade digital no agro tem aumentado rapidamente, diz o country manager da startup, que também presta serviços de tecnologia e consultoria para acelerar a digitalização no setor: “O produtor rural ainda é um conservador, mas notamos cada vez mais a sua aderência ao digital”, ressalta.

Segundo Sant’Anna, o agronegócio brasileiro está no que seria considerada a terceira fase de sua reinvenção digital: a primeira é o monitoramento do campo, com o objetivo de melhora da produtividade, e a segunda é a automação de processos como plantio e colheita.

A Agrofy agora busca sofisticar seu marketplace, onde já é possível fazer compras de até R$ 20 mil online com cartão ou boleto. A empresa vai possibilitar compras de valores mais altos, conectando sua plataforma com a esteira de financiamento dos principais bancos e do BNDES. O recurso de barter, que possibilita a aquisição de insumos com produção futura, também está nos planos.

Serviços financeiros representam uma grande oportunidade para a agtech. Bancos têm buscado suprir a demanda por financiamento de pequenos e médios agricultores, segundo Sant’Anna, que estima representarem cerca de 60% dos 3,8 milhões de produtores rurais brasileiros.

“Estamos dando a chance para [os bancos] acessarem produtores locais em regiões e níveis antes inexplorados, conectando suas ofertas a um grande catálogo de produtos”, ressalta o country manager. A Agrofy também tem uma plataforma de conteúdo, que ajuda a trabalhar o funil de conversão e melhorar a performance do marketplace.

A agtech não tem receio de chegar com toda a sua digitalização cedo demais no setor. Fazendo uma analogia com o modelo da Amazon, que começou oferecendo livros e hoje vende um amplo leque de produtos, Sant’Anna diz que se trata de um processo que envolve testes, cautela e, ao invés de disrupção, sustentabilidade: “Estamos dando passos sólidos e curtos, mas entendemos que há um anseio do mercado pela digitalização”, aponta, notando a rápida evolução do processo desde que a pandemia ganhou força. Segundo o executivo, a crise tem impactado tanto as empresas tradicionais do setor, que ainda não estavam preparadas para adotar processos digitais, mas foram obrigadas a fazê-lo, quanto produtores onde estas iniciativas já estavam em curso.

“A digitalização do agro vinha acontecendo de forma natural e orgânica, por conta de diversos fatores, como a sucessão familiar, por exemplo, e até uma demanda do próprio agricultor, que já pesquisa preços pela internet antes de comprar”, explica. “Com o isolamento e os demais problemas causados pela doença, houve uma aceleração [nesses processos].”

Para Sant’Anna, o maior desafio do momento é acompanhar o novo comportamento de consumo do produtor agrícola e responder de acordo: “Hoje, praticamente todo mundo pesquisa na internet antes de comprar algo. Com o produtor rural, ainda mais neste momento, isso também é verdade”.

“Precisamos estar atentos a isso e com capacidade de responder aos anseios de informação de produtos e serviços, [para garantir] que toda a cadeia produtiva consiga continuar tocando seus negócios.”

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Gerhard Bohne, presidente da divisão agrícola da Bayer no Brasil

AMPLIAÇÃO DE NEGÓCIOS

Uma das gigantes do agro, a Bayer, também tem investido pesado na expansão de seus negócios com a digitalização do produtor rural nos últimos anos, através de iniciativas como um programa de fidelidade online, que contabiliza mais de 90.000 resgates por ano.

“Muitos agricultores fizeram sua primeira compra online acessando serviços que estão disponíveis [no programa], e isso tem apoiado o agricultor a se sentir mais seguro e aberto a avançar comprando seus insumos agrícolas e comercializar sua produção online”, diz Gerhard Bohne, presidente da divisão agrícola da Bayer no Brasil.

A empresa evoluiu sua abordagem em 2019, com um programa de relacionamento com o produtor, o Impulso Bayer, e a Orbia, plataforma que combina marketplace de fidelidade, commodities e insumos. Ambas as frentes têm o objetivo de transformação da experiência de consumo do agricultor.

Segundo Bohne, iniciativas como o marketplace farão a diferença em tempos de crise: “Sabemos que esse ambiente de compras online traz ganhos em diversos âmbitos para nossos clientes e distribuidores, em questões de operação, economia e até sustentabilidade”, aponta.

“Em um cenário desafiador que vivemos hoje, por exemplo, o modelo de marketplace pode ampliar os negócios dos nossos atuais canais de distribuição – suportando a entrada destes parceiros nos meios digitais e possibilitando o acesso a novos clientes”, acrescenta.

A transformação digital que a Bayer já previa para os próximos anos acontecerá mais rapidamente por conta da crise do coronavírus, segundo Bohne, e o agronegócio não será exceção.

“É perceptível que, em meio às dificuldades, a tecnologia tomará um lugar de destaque e passará a ser uma ferramenta cada vez mais importante, ainda mais num contexto de restrição para o contato social”, ressalta.

Outras iniciativas que a Bayer lançou com o objetivo de apoiar o enfrentamento da crise no agronegócio incluem um desafio promovido em parceria com a empresa de serviços financeiros Sicredi e o hub de inovação AgTech Garage. A iniciativa teve o objetivo de promover a difusão e a adoção de ferramentas digitais desenvolvidas por startups para produtores rurais.

Soluções das 20 empresas selecionadas foram disponibilizadas sem custo para o produtor no marketplace da Bayer por dois meses e incluem ferramentas focadas em áreas como monitoramento de máquinas e avicultura, além de um aplicativo para apoiar a comercialização de café, e uma plataforma de compra e venda de orgânicos.

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Frost & Sullivan aponta “rejuvenescimento” do setor de saúde pós-coronavírus

A crise do coronavírus vai redefinir o setor de saúde com tecnologias como a Internet of Medical Things (Internet das Coisas para a Medicina, ou IoMT) e telerradiologia, além de monitoramento remoto de pacientes e telemedicina, segundo um novo relatório da Frost & Sullivan sobre o setor. Nos últimos oito meses que restam neste ano, a consultoria prevê um crescimento para o mercado global de saúde virtual de 64% em comparação à previsão de 32% que o segmento tinha antes da pandemia.

A consultoria identificou uma série de oportunidades para o setor. Uma das principais áreas de crescimento está em análises avançadas de dados, que serão necessárias para apoiar a necessidade de obtenção imediata de dados de pacientes. Antes da pandemia, a Frost havia previsto que o ambiente de investimento em startups de saúde digital se tornaria cada vez mais conservador e com mais escrutínio de possíveis apoiadores, além de um foco limitado a soluções escaláveis, com facilidade de implementação e foco na interoperabilidade de dados do paciente entre sistemas.

“Embora reconheçamos a tragédia que a Covid-19 causou ao mundo, também percebemos que ela abriu muitas oportunidades para que empresas se rejuvenesçam nesse novo normal”, diz Reenita Das, vice-presidente sênior e parceira de transformação no setor de saúde na Frost & Sullivan. Tecnologia médica avançada é uma das áreas de crescimento no pós-pandemia, segundo a Frost, que prevê um cenário onde hospitais e empresas de dispositivos médicos avançarão suas estratégias de engajamento remoto de paciente. Isso inclui reabilitação virtual, chatbots e telemedicina para o gerenciamento de cuidados de pacientes isolados.

A demanda por exames de imagem será esmagadora na maioria dos hospitais, segundo a consultoria, que identificou oportunidades relacionadas a soluções de telerradiologia, que permitem a distribuição de solicitações de exames para uma base de profissionais, que precisarão lançar mão de tecnologias como inteligência artificial para automatizar partes do processo e diminuir o atraso no processamento dos exames.

Outra área de crescimento será a de serviços de testes de diagnóstico in vitro em clínicas de varejo, shoppings e aeroportos. Segundo a consultoria, este modelo fará parte do novo normal pós-pandemia, já que a demanda por testes excedeu as avenidas tradicionais de disponibilidade e pacientes que evitam usar centros de diagnósticos, a menos que estejam enfrentando uma emergência médica.

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Popularidade de bares e games online aumenta

Ambientes online que simulam a experiência de bares e jogos online têm tido um aumento em procura, segundo um levantamento da SEMrush, que estuda tendências através de dados de mecanismos de busca. O levantamento, que considera dados de busca globais, sugere que bares online têm tido um aumento em popularidade nas últimas semanas, em que pessoas têm buscado formas de permanecerem conectadas no contexto de isolamento social.

Os dados mostram que, entre fevereiro e março, houve um aumento de 1.587,5% nas buscas por bares virtuais e 641,7% para ambientes de jogos de tabuleiro online. O Stay the Fuck Home Bar, criado em março pela agência russa Shishki Collective, teve um crescimento de 900%. O bar pode ser acessado por pessoas de qualquer lugar do mundo e tem três salas virtuais que comportam até 12 pessoas. Nas primeiras 24 horas de funcionamento, o bar teve mais de 30.000 visitas. A Tabletopia, arena digital que propõe uma experiência parecida com a de games de tabuleiro reais, teve um crescimento de visitas de 2.384,85%.

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Na próxima sexta-feira (24), às 14h, o fundo de venture capital 500 Startups vai comandar um webinar para discutir o impacto do coronavírus na inovação, usando como exemplo cases do portfólio de investimento aqui no Brasil, sugestões de como direcionar o ecossistema para superar a crise e como aliar o setor público às startups para a recuperação econômica. A iniciativa contará com a participação de Bedy Yang, sócia da 500 Startups, e de Flávio Dias, novo sócio do fundo no Brasil, além dos empreendedores Adriano Fontana (Boa Consulta), Lasse Koivisto (Prontmed), Melissa Gava (Mediação Online), Gabriel Senra (Linte), Luciano Tavares (Magnetis), Jacob Rosembloom (Levee), Tiago Dalvi (Olist) e Gabriel Benarros (Ingresse).

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Consumidores que estão enfrentando problemas com alterações ou cancelamentos de viagens por conta da Covid-19 podem contar com a MOL – Mediação Online, uma plataforma que permite que pessoas, empresas e instituições resolvam conflitos sem precisa entrar com um processo judicial e de maneira gratuita. Para receber a ajuda, é só entrar no site da empresa e preencher um formulário detalhando o problema.

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MAIS

– O PayPal lançou três ações para apoiar os negócios que usam a plataforma de pagamentos durante a crise do coronavírus. A empresa está oferecendo isenção das tarifas de cancelamento de compras, o chargeback, para certas transações, se o cliente abrir uma disputa com o emissor do cartão de crédito até 30 de abril. Até o final do mês, o PayPal dobrou o prazo para que lojistas respondam às contestações de clientes para 20 dias e estendeu a proteção ao vendedor para a cobertura de intangíveis, que incluem produtos digitais como serviços, desde 13 de abril, por tempo indeterminado;

– A startup mineira Bagy, plataforma de e-commerce criada em 2017 para pequenos e médios lojistas do Instagram, registrou, em março, a abertura de 1.299 negócios, número que superou, de longe, o boom registrado pela ferramenta em 2019, quando a empresa registrou picos de 150 novos clientes por mês. Com lojistas de vários segmentos, especialmente de moda e artesanato, a plataforma conta com mais de 4.000 e-commerces no portfólio e a expectativa é chegar a 10.000 até o final do ano, faturando cerca de R$ 3,5 milhões, uma alta de 300% em relação a 2019.

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