A Ilha de Poveglia, localizada ao sul de Veneza, foi arrendada por um grupo de moradores locais que pretende transformar o espaço em um parque urbano exclusivo para residentes. O contrato de arrendamento, com duração de 99 anos, foi firmado com o governo italiano após um leilão promovido pela Agência Estatal de Propriedade Italiana.
O grupo, denominado “Poveglia per Tutti” (Poveglia para Todos), assumiu a posse da ilha em 1º de agosto. A iniciativa surgiu da reação da veneziana Patrizia Veclani, que mobilizou a população ao se deparar com a possibilidade de venda do local a compradores privados. Segundo Veclani, a conquista representa um avanço na tentativa de reduzir os efeitos do turismo em excesso na cidade.
Com 7,5 hectares de extensão, a Ilha de Poveglia abriga atualmente 15 prédios hospitalares em ruínas e uma floresta com colônia de coelhos. O local foi fundado como base militar romana no ano 421 d.C. e serviu como doca de quarentena e cemitério durante a Peste Negra, onde se estima que mais de 160 mil pessoas tenham sido sepultadas em valas comuns. No século 19, a ilha passou a abrigar um asilo psiquiátrico conhecido por realizar tratamentos experimentais, o que a inseriu no imaginário popular como um lugar assombrado.
Veneza enfrenta atualmente desafios relacionados ao overtourism. A cidade, que possui menos de 50 mil habitantes, recebe cerca de 30 milhões de visitantes por ano. Como resposta, as autoridades locais implementaram medidas como a cobrança de uma taxa de 5 euros para turistas em excursões e a proibição de navios de cruzeiro na área central.
O projeto de transformar Poveglia em um espaço restrito aos moradores foi financiado por mais de 4.500 pessoas, que arrecadaram 460 mil euros para garantir o arrendamento. O grupo teve de disputar a posse da ilha com consórcios do setor imobiliário, incluindo um associado ao prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, cuja proposta de 513 mil euros foi rejeitada pelo governo.
O overtourism na Europa
O caso de Poveglia reflete um movimento crescente em destinos turísticos europeus em 2024. Em Barcelona, autoridades removeram uma rota de ônibus do mapa turístico devido à sobrecarga de visitantes no Parque Güell. O Lago de Como, na Itália, considerou a implementação de uma taxa de entrada, enquanto nas Ilhas Canárias, moradores organizaram uma greve de fome. Em Amsterdã, a prefeitura proibiu a construção de novos hotéis, salvo se substituírem empreendimentos antigos com propostas de sustentabilidade.
Durante a alta temporada, em julho, protestos de moradores se intensificaram em diversas localidades. Em Barcelona, turistas foram alvos de pistolas de água, enquanto em Santorini, na Grécia, a produção de vinho sofreu queda de 50% por falta de água, levando à proibição de novas construções e à imposição de restrições a cruzeiros para 2025.
Outras cidades europeias, como Bréhat, na França, e Florença, na Itália, também anunciaram medidas para conter o fluxo de turistas, como a reintrodução de cotas para visitantes e a proposta de punições mais severas a turistas que desrespeitam patrimônios culturais.
A lista “No List” de 2025, elaborada pelo guia de viagens Fodor’s, incluiu destinos como Bali, Koh Samui e Monte Everest, citando problemas relacionados ao descarte de resíduos e à infraestrutura insuficiente. Cidades como Agrigento, Ilhas Virgens Britânicas, Kerala, Kyoto, Tóquio, Oaxaca e North Coast 500 também foram destacadas como locais que enfrentam desafios similares. O crescimento do turismo tem gerado benefícios econômicos, mas a capacidade de infraestrutura e de recursos naturais em muitos destinos não acompanha a demanda, resultando na adoção de políticas restritivas para preservar as localidades afetadas.