Estou aguardando a versão em português do último livro de Margaret Atwood, “Book of Lives: A Memoir of Sorts”, uma compilação de memórias da grande pensadora e escritora que completou 86 anos, lançado lá fora em novembro. Parece que a Rocco irá publicá-lo aqui. A editora carioca já lançou vários títulos da autora, incluindo O Conto da Aia, transformado na série com a talentosa Elizabeth Moss.
Final de ano chegando, refletimos sobre o que vimos e sentimos, e o que impactou a vida de nossas famílias e do mundo. Um dos termos que começou a circular é “Policeno”, a teoria que se aplica ao mundo atual, complexo, multipolar, em que tudo é muito rápido e a ciência, tecnologia e política estão mais interconectadas que nunca. Como a Arte contemporânea reflete a porosidade entre as inúmeras questões que nos afetam, pensei muito sobre isso, e as pílulas de sabedoria de Margaret Atwood vem a calhar.
Encerrando novembro, o jornal inglês The Guardian publicou uma entrevista com ela com perguntas de famosos, incluindo o Ai Wei Wei. Mas não foi a do artista e ativista chinês a minha preferida. Foi a da feminista americana Rebecca Solnit, autora de vários livros sobre o tema, que perguntou sobre as mudanças mais significativas que ela presenciou em suas quase nove décadas. Atwood fez uma lista a começar pela revolução ocasionada pelos plásticos, mencionou o advento da televisão, a descoberta dos antibióticos, a luta pelos direitos civis nos anos 60, a invenção da pílula anticoncepcional, a subida da direita religiosa nos anos Reagan, o colapso da Rússia e suas consequências (“Quando se move uma peça no tabuleiro de xadrez, tudo é afetado”, ela observa). Cita a internet, o smartphone, a mídia social.

Encerra com uma advertência: “E agora a escalada de autoritários e totalitaristas (…). Observe a maneira como se apoderam de tudo, suas divergências internas, a desintegração da lei, o excesso de poder e dinheiro nas mãos de poucos. Pense na Revolução Francesa. Ah, e releia 1984 de George Orwell”.

Numa noite dessas, terminado um longo dia, passei na Galeria dos Pães para comprar o pãozinho do meu café da manhã, quem encontro? O músico Seu Jorge que leva adiante a ginga carioca no swing que foi de outro Jorge, que foi Ben, e viu-se obrigado a trocar o nome para Benjor. Fechando essa coluna uns versos de Alma de Guerreiro de Seu Jorge cantarolaram na minha cabeça:
“(…) nosso povo brasileiro
Tem alma de guerreiro
Não cansa de lutar (…)”
Saravá 2026!

Com colaboração de Cynthia Garcia, historiadora de arte, premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) [email protected]
Nara Roesler fundou a Galeria Nara Roesler em 1989. Com a sociedade de seus filhos Alexandre e Daniel, a galeria em São Paulo, uma das mais expressivas do mercado, ampliou a atuação inaugurando filial no Rio de Janeiro, em 2014, e no ano seguinte em Nova York.
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