A primeira vez que Coco Gauff encontrou Serena Williams, ela teve de calçar os sapatos da lenda do tênis — literalmente. Cerca de uma década atrás, a Delta Air Lines precisava de uma dublê para interpretar uma versão mais jovem da campeã de 23 títulos de Grand Slam em simples em um comercial e de última hora encontrou Gauff, então pré-adolescente, colocando-a cara a cara com sua ídola. “Eu só me lembro dela passando, e parecia algo irreal”, recorda Gauff, hoje com 21 anos. “Você poderia ter me dito que era Jesus.”
A reação era compreensível. Afinal, o domínio de Williams no Australian Open no fim dos anos 2000 inspirou Corey Gauff a comprar a primeira raquete da filha — que era rosa — e a jovem Coco tinha uma foto de Williams pendurada na parede do seu quarto. De lá para cá, Coco Gauff percorreu um longo caminho. Hoje, é ela quem deixa os outros boquiabertos.
Conquistas dentro e fora das quadras
Recentemente homenageada na lista Forbes Under 30, Gauff encerra 2025 como a terceira colocada no ranking da WTA (Associação de Tênis Feminino), apenas uma posição atrás do melhor ranking da carreira, o segundo lugar alcançado no ano passado, e já soma 11 títulos de simples.
Esse total inclui dois Grand Slams: o French Open deste ano e o US Open de 2023, conquistado, assim como Williams 24 anos antes, ainda na adolescência. Desde que se tornou profissional em 2018, Gauff — que também teve sucesso em duplas, com o título de Roland Garros em 2024 e outros nove torneios — acumulou quase US$ 30 milhões (R$ 163,52 milhões) em prêmios, a 11ª maior marca da história da WTA.
Fora das quadras, ela também é uma potência. Tem um portfólio robusto de patrocinadores, incluindo Rolex, New Balance, Baker Tilly e a recente adição da Mercedes-Benz, com faturamento anual de cerca de US$ 25 milhões (R$ 136,26 milhões). Esse valor, somado aos aproximadamente US$ 8 milhões (R$ 43,60 milhões) em premiações em 2025, a posiciona no topo da lista da Forbes das atletas mais bem pagas do mundo pelo segundo ano consecutivo, com um ganho total de US$ 33 milhões (R$ 179,87 milhões) antes de impostos e taxas — uma das maiores marcas nos 18 anos em que a Forbes publica o ranking de ganhos femininos. Apenas Williams e outra estrela do tênis, Naomi Osaka, já superaram esse número, alcançando US$ 45,9 milhões (R$ 250,18 milhões) e US$ 57,3 milhões (R$ 312,31 milhões), respectivamente, em 2021.
Potência no mundo dos negócios
Ainda assim, Gauff tem ambições maiores. Dentro de quadra, diz sentir-se “muito distante do seu potencial”; nos negócios, guarda mais algumas cartas na manga.
Neste ano, Gauff rompeu com seus agentes da Team8, a boutique cofundada pelo ícone do tênis Roger Federer, para lançar sua própria empresa de gestão, a Coco Gauff Enterprises, em parceria com a agência WME, o que lhe deu “mais controle sobre o que quer fazer”. Em setembro, anunciou um acordo com a Religion of Sports, estúdio sediado em Los Angeles fundado por Tom Brady, Michael Strahan e Gotham Chopra, para desenvolver programas de TV, filmes e conteúdo digital.
“À medida que fui ficando mais velha, não queria apenas ser o rosto das marcas, mas também ser a marca”, diz Gauff. “Meu pai sempre disse que esse era o plano dele para mim quando eu era mais nova, e cabia a mim decidir se queria embarcar ou não. Quando completei 18 anos, soube que isso era algo pelo qual eu queria trabalhar.”
O início de Coco Gauff no tênis
Executar essa visão, no entanto, exigiu sacrifícios. Os pais de Gauff, Candi e Corey, queriam criar atletas — ambos competiram em esportes universitários — e, quando a filha começou a mostrar potencial nas quadras, largaram seus empregos e mudaram a família da Geórgia para o sul da Flórida, um polo do tênis, onde passaram a morar com os avós de Gauff. Candi começou a educá-la em casa, e Corey se tornou seu treinador.
Gauff rapidamente provou que o esforço valeu a pena. Aos 8 anos, em 2012, venceu um torneio juvenil em Nova York no prestigiado circuito Little Mo e decidiu que queria dedicar sua vida ao tênis profissional. Dois anos depois, a estrela em ascensão foi convidada a treinar na renomada Mouratoglou Tennis Academy, na Riviera Francesa, onde Williams também havia aprimorado suas habilidades. Três meses após completar 10 anos, Gauff tornou-se a jogadora mais jovem da história a vencer o título nacional sub-12 da USTA no saibro.
Nesse ponto, patrocinadores já começavam a disputar a criança prodígio. Os pais de Gauff relutavam em assinar contratos muito cedo, mas mudaram de postura em 2018, quando ela chamou a atenção da New Balance ao vencer o torneio juvenil do French Open. Embora quisesse se tornar atleta da Nike, a marca de calçados e vestuário sediada em Boston conquistou Gauff e sua família com uma visão de longo prazo para seu futuro.
“Desde o primeiro dia, quando começamos a trabalhar com ela, dissemos que seria algo maior do que o tênis”, afirma Chris Davis, diretor de marketing da New Balance e filho do bilionário dono da empresa, Jim Davis. “Era uma oportunidade de ser o rosto da marca.”
Rapidamente pareceu que a New Balance havia acertado na loteria. Em 2019, um ano após se tornar profissional, a jovem de 15 anos saiu da fase classificatória de Wimbledon e chocou o mundo do tênis ao derrotar Venus Williams (irmã de Serena) na primeira rodada da chave principal, além de vencer mais duas partidas contra veteranas experientes. A partir dali, as expectativas por um título de Grand Slam só aumentaram.
Ponto de virada
Gauff teve uma série de derrotas dolorosamente próximas, perdendo a final de duplas do US Open de 2021 e, no ano seguinte, ficando com o vice-campeonato tanto em simples quanto em duplas no French Open. “Demorei muito para superar aquilo”, relembra. “Não sabia se algum dia voltaria a me ver naquela posição.”
Mas a virada não demorou. Em 2023, lutou até chegar à final de simples do US Open e, diante de uma torcida ensurdecedora no Arthur Ashe Stadium, em Nova York, protagonizou uma virada milagrosa contra Aryna Sabalenka para conquistar seu primeiro grande título.
Ela aproveitou o embalo fora das quadras, lançando no ano passado seu segundo tênis exclusivo com a New Balance e fechando acordos lucrativos com parceiros como Fanatics, a marca de cuidados capilares Carol’s Daughter e, em um contrato que inclui participação acionária, a Naked Juice. Em janeiro, também investiu na liga feminina emergente de basquete Unrivaled.
Os próximos passos de Coco Gauff
A próxima fase do plano de Gauff vai além de ampliar compromissos com marcas: ela credita ao pai a visão de um momento em que assumiria um papel mais ativo nos negócios. Serena Williams, uma das mulheres self-made mais ricas dos Estados Unidos, com patrimônio estimado em US$ 350 milhões (R$ 1,91 bilhão), abriu um caminho possível como investidora de venture capital. E acompanhar Osaka, que deixou a IMG para fundar a Evolve, e o bilionário Federer criar sua própria agência teve um impacto profundo em Gauff.
“Acho que existe um certo nível de liberdade quando você aposta em si mesma.”
Coco Gauff
Ela já está testando essa teoria. Sua paixão por contar histórias levou à parceria com a Religion of Sports, que começou a se desenhar depois que seu pai se encontrou com Gotham Chopra no Super Bowl, em fevereiro. Embora a colaboração ainda não tenha resultado em projetos — e um grande documentário sobre sua vida provavelmente esteja a anos de distância —, eles testaram a parceria alguns meses antes do anúncio oficial ao trabalhar juntos em uma campanha para a Naked Juice. Gauff também não esconde o desejo de um dia produzir um longa-metragem.
Chopra, que já trabalhou com atletas estrelados como Brady, LeBron James e, claro, Williams, ainda não passou tanto tempo observando Gauff, mas já se mostrou impressionado com sua intuição artística. “Ela tem uma vibe de alma antiga”, diz. “Sinceramente, com atletas mais jovens, é mais difícil contar histórias porque eles têm menos perspectiva. Nesse sentido, ela é diferente.”
Chopra é apenas o mais recente de uma longa lista de pessoas a enxergar o potencial de Gauff. Há sete anos, por exemplo, depois de sua primeira visita aos escritórios da New Balance, ela enviou um cartão de agradecimento a Chris Davis, o CMO, que guardou o bilhete por acreditar fortemente que a então adolescente de 14 anos se tornaria famosa. Quando Gauff venceu o US Open em 2023, Davis lhe enviou por mensagem uma foto do cartão, um gesto que ela apreciou. “Isso começou desde o primeiro dia com ela”, diz ele.