Quem conheceu o frenesi do extinto Vegas nas últimas décadas talvez estranhe a previsão: para Facundo Guerra, o futuro da noite pode estar muito mais próximo de um spa do que de uma pista de dança. O empreendedor em série, mente por trás de ícones paulistanos como o Bar dos Arcos e o Blue Note, vislumbra a ascensão dos “health clubs” – espaços que unem bem-estar e socialização – como a próxima grande onda para quem busca novas formas de entretenimento.
Essa guinada no mercado espelha, de certa forma, sua própria vida. Se antes o empresário multitalento e inquieto – ele é engenheiro de alimentos, jornalista e doutor em ciência política – mantinha um ritmo industrial, abrindo de dois a três negócios por ano, hoje o cenário mudou. O argentino radicado no Brasil agora preza mais pelo tempo. “Eu não parava para aproveitar o negócio que tinha acabado de montar; já estava desenvolvendo a estrutura do próximo”, confessa aos 52 anos. “Percebi que precisava ficar mais tempo dentro da operação para garantir o plano original”.
Essa nova filosofia é aplicada em seu “caçula”, o Formosa Hi-Fi, bar de audição de alta definição inaugurado em 2025. O projeto, que levou dez anos para sair do papel, reflete a maturidade de um empresário que prefere esperar o timing e curadoria certos ao invés de faturamento ou “instagramabilidade” vazia.

Mas a desaceleração é apenas física; o radar do early adopter continua ligado. “Sempre atento aos sinais”, como ele mesmo diz, Facundo navega com destreza pelas transformações da década. Sua leitura vai muito além do entretenimento: ele adapta cardápios para a “geração Mounjaro”, reduzindo porções, e encara a Inteligência Artificial com um misto de pragmatismo e alerta sobre o futuro do trabalho.
Em entrevista exclusiva à Forbes, o empresário disseca seu momento atual de vida, faz suas apostas das tendências do momento e como é o novo futuro do empreendedorismo na era da IA. Confira os destaques da conversa a seguir.
Forbes: Como você descreveria sua fase atual de vida e de negócios?
Facundo Guerra: Estou em uma fase mais tranquila. Pela primeira vez, não tenho um novo projeto em vista. Sempre trabalhei com uma esteira de projetos: fazia o planejamento estratégico e deixava engavetado para o futuro. Agora, não tenho nada para implementar e, sinceramente, nenhuma vontade de colocar algo novo em prática. Nos últimos 20 anos, abri dois ou três negócios por ano. Eu nunca parava para aproveitar o que tinha acabado de criar; já estava imerso na estrutura do próximo. Uma vez, uma amiga me alertou: “Quando você cria o negócio, tudo vai bem, mas você sai de perto rápido demais e eles começam a perder energia”. Ela tinha razão. Preciso permanecer mais tempo dentro da operação para garantir que ela continue fiel ao desenho original. É o que estou tentando fazer agora com o Formosa.
Em duas décadas de atuação, como a cena noturna de São Paulo mudou?
Quando comecei, os clubes funcionavam como as redes sociais da época. As pessoas frequentavam um determinado espaço porque aquilo era um traço de sua identidade. Depois com o Facebook e outras redes, os clubes passaram a ser apenas pontos de encontro. Antigamente, havia um tempo de maturação; um lugar demorava de três a seis meses para “pegar”, dependendo do boca a boca. Hoje, você já abre com fila na porta, mas ninguém é fiel ou habitué. O público rotaciona por vários espaços. Hoje você se conecta com mais pessoas, mas com menos frequência e profundidade.
Você é visto como um early adopter. Como avalia o cenário para empreender hoje com a chegada da Inteligência Artificial?
Acho que hoje é mais fácil. No passado, para criar um logo, uma planta arquitetônica ou um plano de negócios, você precisava contratar especialistas e gastar dinheiro antes mesmo de o negócio existir. Hoje, com a IA, você consegue fazer tudo isso – muitas vezes de forma mais rápida e barata do que com profissionais humanos. Para a etapa de prototipagem e planejamento inicial, ferramentas como o ChatGPT são extremamente eficientes.
Isso não gera um temor para a indústria?
Do ponto de vista de risco, não; só me ajuda. Porque consigo automatizar determinados serviços de fluxo de processo, compras, marketing…da porta pra dentro é possível ser muito mais eficiente. O meu temor é de não ter cliente. As vagas de entrada dentro das empresas, como estágio e trainee, estão desaparecendo. Você tem uma geração saindo da universidade sem ter o primeiro emprego. Me preocupo em não ter uma classe média robusta o suficiente para consumir o serviço que eu ofereço.
Como o setor se adapta a novas realidades de consumo, como a chamada “geração Mounjaro”?
Já pensamos nisso no cardápio do Formosa. Temos muitas porções para compartilhar, mas o tamanho individual diminuiu, assim como o teor alcoólico dos drinks. Percebemos que muitos pratos voltavam para a cozinha quase intocados; as pessoas davam duas garfadas e já estavam satisfeitas. A gente pensou: vamos começar a diminuir o tamanho das porções para evitar desperdício e deixar o prato um pouco mais acessível.

O Bar dos Arcos completou 7 anos. Qual foi o impacto dele na cena de coquetelaria da cidade?
Quando começamos, no final de 2018, São Paulo tinha poucos bares de coquetelaria avançada, como o SubAstor e o Frank. O Arcos entrou nessa segunda onda. O sucesso foi um conjunto de fatores: a arquitetura, a cenografia com balcões retroiluminados, o fato de estar embaixo do Theatro Municipal, a qualidade da coquetelaria. Além disso, tivemos um posicionamento social importante: ele já nasceu como um bar de liderança feminina e até criamos protocolos de segurança para as clientes. Se a mulher vai ao banheiro, colocamos uma tampinha de papel em cima do drink como proteção, por exemplo.
O que podemos esperar dos próximos anos dos Arcos?
Continuaremos nos renovando e servindo como uma porta de entrada para quem vem de fora. Tenho muito orgulho de o Bar dos Arcos ter se tornado um ponto turístico essencial. Assim como o visitante vai à Casa do Porco, ao Mercadão ou ao Mocotó, ele passa pelo Arcos. Sinto orgulho de representar o que São Paulo tem de melhor a oferecer, seja para o gringo ou para o turista de outros estados.
Falando em tendências, o que está surgindo agora que chama sua atenção?
Eu fico muito atento aos sinais. Na gringa, algo que tem me chamado a atenção é o surgimento dos health clubs: espaços de bem-estar que unem academia, networking, entretenimento e bar. É uma espécie de Soho House misturada com spa. São locais multifuncionais onde a elite busca cuidar da saúde mental e do corpo, entendendo que o ato de socializar também faz parte desse cuidado.
E onde você busca inspiração para criar seus lugares?
Eu viajo, mas muito mais para observar o que fazem de errado e não repetir os mesmos erros. Se você for para os bares líderes na gringa, não verá nenhum deles nos meus negócios. A gente não copiou nada. No Formosa, por exemplo, fugimos do fetiche pela caixa de som vintage que todo listening bar tem. Uma caixa da década de 70 não é tecnicamente melhor que uma de 2025. Usamos uma tecnologia de som distribuída, vinda de salas de orquestra. No fim das contas, faço as coisas para mim. Se o local não for histórico ou não merecer ser resgatado, eu nem me envolvo.
Qual erro mais te ensinou?
Os erros que cometi aconteceram quando fui orientado apenas pelo dinheiro. Lembro de um café que abri no espaço da Gazeta, na Paulista. Foi um fracasso; vendemos para o Starbucks em seis meses. O erro foi não tratar o negócio como meu. Eu entrei como sócio-investidor, criei o conceito e o nome, mas deixei a operação na mão de terceiros. Outro risco é a inovação fora de tempo: às vezes, você chega cedo demais e não há público pronto para consumir aquilo. O projeto do Formosa, por exemplo, já existia há 10 anos exatamente como é hoje, mas só agora fez sentido executá-lo.
Você se cansou de viver na “economia das experiências”?
Sinceramente, não penso muito nessa palavra “experiência”, mas busco entregar algo memorável. Acredito que isso acontece porque nos preocupamos muito com cada detalhe, pensando o negócio como um fractal: cada pequena parte diz respeito à intenção original. Nada está ali à toa, seja no Bar dos Arcos ou no Blue Note. Essa coesão narrativa cria uma atmosfera envolvente, uma espécie de ruído positivo no qual as pessoas mergulham, mesmo sem perceber conscientemente cada detalhe.
Como “rei da noite paulistana”, qual cidade tem a melhor noite do mundo, fora São Paulo?
Berlim e Tóquio.