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Como Oskar Metsavah Busca Transformar o Brasil em Linguagem Universal

Médico de formação e artista por essência, fundador da Osklen fala sobre legado: “A marca mostrou ao mundo que o Brasil pode ser luxo”

10 min

Empreendedor, criativo e esteta, Oskar Metsavaht atua em diversas frentes que conectam sustentabilidade, cultura e inovação. Fundador da Osklen e do Instituto-E, é Embaixador da Boa Vontade da UNESCO para Sustentabilidade e para a Década dos Oceanos (2021-2030), com presença ativa em fóruns internacionais sobre meio ambiente e economia criativa. 

Ainda assim, ele não gosta de se definir como “multitask”, embora manifeste muitas habilidades ao mesmo tempo. “Talvez seja da minha personalidade. Para mim, a expressão é essencialmente artística”, resume. Quando perguntam sua profissão, ri da dificuldade em preencher o campo de formulários de hotel: “Nessa viagem, acho que sou médico. Na outra, designer. Agora, artista. Aqui, surfista. Mas, no fundo, minha essência é de artista, mesmo tendo uma formação acadêmica em medicina.” Ele recorda uma definição antiga que sempre o marcou: “Aristóteles dizia que a medicina é a arte feita a partir das ciências. Acho isso bonito. A cura é, em si, uma arte.”

Raízes e formação

Gaúcho de nascimento, filho de uma professora de filosofia e história da arte e de um médico fundador da faculdade de medicina de Caxias do Sul, Oskar cresceu em um ambiente marcado pelo pensamento crítico e pela cultura. Em Paris, onde se especializou em traumatologia esportiva, viveu experiências que seriam decisivas para sua trajetória. A convivência com a irmã, artista plástica, e o contato com os ateliês de bordado – como o Lesage – abriram-lhe as portas para o universo da moda.

“Quando voltei, queria mostrar o que aprendi, vi e vivi em Paris. E também a roupa que tinha feito para encarar o frio – um casaco que reunia ciência, ergonomia e estética – que usei em minhas expedições nos Alpes e nos Andes. A Osklen nasceu daí, em 1989, como uma aventura. Eu tinha 29 anos.”

Até 1997, conciliou a carreira médica com o crescimento da marca. Trouxe de Paris uma formação inovadora em biomecânica, que permanece até hoje como pilar criativo. “Por isso, a ergonomia está presente nas peças da Osklen – nos calçados, nas linhas de vestuário. Além da estética e dos materiais, existe sempre um olhar de funcionalidade e movimento.”

DivulgaçãoOskar Metsavaht em uma imersão artística na aldeia Ashaninka Apiwtxa, no Acre, em 2015

Do Rio ao mundo

Nos anos 1990, percebeu que sua vida – dividida entre esportes de montanha, surfe, viagens à Amazônia e a efervescência cultural do Rio – poderia se traduzir em um lifestyle. “Entendi que era isso que eu expressava. Sustentabilidade já estava presente no meu trabalho desde então, embora não fosse ainda um tema em evidência. Hoje, aos 64 anos, percebo que meu olhar é justamente o de ressignificar coisas simples, reinterpretar iconografias da nossa cultura.” 

Como um antropólogo esteta, captou cedo a mudança de percepção: “Quando o Brasil começou a se abrir para o mundo, percebi que aquilo que fazíamos aqui era admirado lá fora. Foi quando pensei: nós somos a coisa mais contemporânea que existe.”

Ipanema

Embora não seja carioca de nascimento, ele se reconhece carioca de coração. Vive no Rio desde 1984 e fez da cidade seu grande laboratório criativo. Ipanema, em especial, tornou-se símbolo e inspiração. “A calçada de Ipanema é uma metáfora do nosso tempo: o equilíbrio entre urbano e natureza, o preto do asfalto contraposto ao branco da areia. É a síntese do estilo de vida contemporâneo que a gente vive desde os anos 1990.”

O desenho ondulado das pedras, o traçado modernista e sua força gráfica se transformaram em ícone. Para Oskar, esse imaginário não é apenas paisagem: é narrativa cultural, estética aplicada em coleções e projetos artísticos que reverberam o espírito do Rio para o mundo.

O conceito de Brazilian Soul

No início dos anos 2000, Oskar articulou a ideia do Brazilian Soul. Inspirado pela máxima de Andy Warhol – estar sempre no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas – escreveu para a Andy Warhol Foundation: “Se Warhol estivesse vivo, tenho certeza de que estaria hoje aqui, no Brasil, conosco. Gostaria de ver como ele interpretaria Ipanema, o espírito brasileiro, nossas iconografias”.

O projeto, patrocinado pela Coca-Cola, levou-o a Atlanta e depois a Nova York, onde apresentou sua tese de que a brasilidade – solar, saudável, alegre e sensual – era um contraponto ao American Dream. “Se Warhol fez a iconografia do sonho americano, eu queria propor a iconografia do Brazilian Soul.”

Ciclos de protagonismo

Oskar compara os anos 1990 e 2000 ao modernismo antropofágico de 1920 ou à Brasília de 1960. “Foram momentos em que tivemos economia forte, protagonismo cultural e visibilidade internacional.” Na virada do milênio, o Brasil voltou ao radar: Gisele Bündchen, Havaianas, fitinhas do Senhor do Bonfim e artistas contemporâneos. O auge simbólico veio na abertura das Olimpíadas do Rio, em 2016. Depois, a crise política e econômica esfriou o protagonismo.

DivulgaçãoDetalhe dos Dois Irmãos em uma janela na piscina que fica na cobertura do Janeiro Hotel, no Leblon

Mas há sinais de retomada. “Observo muito quem está vindo para cá. Vejo famílias, jovens, europeus, americanos. O Janeiro Hotel é um termômetro de coolness. E São Paulo está booming: virou potência criativa e econômica, uma metrópole global.”

O novo luxo

Para Oskar, a sofisticação contemporânea não está no consumo de luxo europeu ou americano, mas em valores intangíveis. “Isso é o luxo hoje: sermos alegres, sexies, saudáveis. Temos a terra mais fértil para alimentar o planeta e, ao mesmo tempo, esse savoir-faire brasileiro, o nosso dolce vita, o borogodó que ninguém mais tem.” Ele acredita que o Brasil pode se inserir como protagonista em um novo eixo cultural conectado à Ásia. “Podemos não ter a potência tecnológica da Coreia ou da China, nem a iconografia dos Estados Unidos ou o luxo europeu, mas temos algo contemporâneo e raro: a relação harmoniosa entre o humano e a natureza.” ARTE No Studio OM.art, seu ateliê no Jardim Botânico, Oskar apresenta Acqua, sua mostra mais recente. O ponto de partida é a água – elemento que, segundo ele, “sempre escapa, nunca se deixa prender”. Essa impermanência é o que mais o intriga.

“Na água, tudo se dissolve. Eu queria entender como registrar esse instante em que a matéria muda de estado, quando já não é mais uma coisa e ainda não é outra”, conta. Para isso, ele desenvolveu no ateliê pequenos instrumentos de vidro, moldados à mão, que usa como se fossem pincéis. “Não é sobre o controle, mas sobre o encontro. Eu busco o acaso – a forma geométrica que surge do movimento, da mistura dos pigmentos com a água.”

O vidro acabou se tornando parte da pesquisa. Sua transparência prolonga a do próprio elemento e permite que o gesto seja visto em camadas. Já nas videoinstalações, Oskar projeta essas imagens sobre superfícies líquidas ou translúcidas. “É quase meditativo. Você fica olhando e percebe nuances que escapam quando a água está em movimento.”

DivulgaçãoObras da exposição Acqua, inspirada na impermanência da água, em cartaz no OM.art, de 10 de setembro a 25 de outubro

Para ele, o trabalho não é apenas sobre o visível, mas também sobre o que se perde, o que não se deixa capturar. “É o que está entre uma cor e outra, entre a luz e a sombra, entre o toque e a ausência. A arte acontece nesse intervalo.”

Ativismo e cultura oceânica

Oskar fala dos oceanos com entusiasmo e senso de urgência. Desde que assumiu a missão de Embaixador da Boa Vontade da UNESCO, dedica-se a integrar a cultura oceânica ao cotidiano das pessoas. “É preciso ir além dos cientistas, dos ambientalistas. A cultura oceânica tem que estar na moda, na música, no cinema, no design, na sala de aula. Só assim se torna parte da vida.”

Ele trabalha com o Instituto-E na elaboração de um currículo pedagógico que leva a temática dos oceanos às escolas, em um movimento pioneiro para introduzir a educação oceânica no ensino básico brasileiro, previsto para ser implementado ano que vem na grade escolar. Colocando o Brasil como o primeiro país do mundo a incluir a cultura e a educação oceânica em seu currículo escolar oficial, através do MEC.

No horizonte está o Ocean Summit 2027, que terá o Rio como sede. Oskar imagina um evento que vá além da conferência oficial: um festival global, aberto, que ocupe a cidade com exposições, intervenções artísticas e experiências imersivas. “Quero que seja um momento em que ciência, cultura e sociedade se encontrem. O Rio é uma blue city, um lugar onde a relação com o oceano se expressa em todas as dimensões.”

Amazônia

Na Osklen, a Amazônia sempre foi mais do que inspiração: foi território de experimentação e de vanguarda. A marca foi pioneira em transformar o couro de pirarucu – antes descartado como resíduo da indústria pesqueira – em matéria- -prima de moda sofisticada e sustentável. “O pirarucu é um peixe que faz parte da cultura alimentar da região amazônica. A pele era considerada um desperdício. Quando percebemos que poderia ser curtida de maneira responsável, virou símbolo de um novo luxo brasileiro: ligado à natureza, mas traduzido em design contemporâneo”, explica Oskar.

Essa escolha não foi apenas estética. Trabalhar com o couro de pirarucu significou, desde o início, ativar uma cadeia produtiva que envolve comunidades ribeirinhas, garante renda local e ajuda a preservar a espécie por meio do manejo controlado. O material, com sua textura única e geometria quase arquitetônica, rapidamente se tornou ícone da Osklen.

DivulgaçãoNa página ao lado, Oskar em seu ateliê no Jardim Botânico

Futuro e legado

Aos 64 anos, Metsavaht reflete sobre o tempo e o que deseja deixar. “Quando você entra nos 60, muda a perspectiva. Deixa de olhar apenas para o que ainda vai fazer e passa a pensar: o que já fiz? O que é importante organizar para deixar como herança cultural?”

Ele divide esse legado em três dimensões. A primeira, íntima, são os filhos – herança biológica e cultural. “Eles cresceram comigo e com a Nazaré em um estilo de vida particular: natureza, esportes, arte, negócios sempre discutidos à mesa. Cada um segue o seu caminho, mas carrega essa visão de mundo.”

A segunda dimensão é espiritual e artística: sua produção como artista visual, cineasta e ativista. A terceira, empreendedora: a Osklen. “A marca sofisticou nossa cultura, uniu minimalismo, brasilidade e sustentabilidade, mostrou ao mundo que o Brasil pode ser luxo”, resume. Para registrar 30 anos dessa história, Oskar prepara o projeto Elements of Style – livro, documentário e exposição. “É o legado conceitual que quero deixar.”

Ainda assim, admite um arrependimento: ter entregado o controle da Osklen a um grande grupo. “Foi meu maior erro. A empresa ficou anos nas mãos de executivos que não entendiam que moda é cultura. Isso prejudicou a marca. Aprendi que não basta ter sócios – é preciso saber com quem se compartilha o controle.”

Entre moda, arte, sustentabilidade e oceanos, sua narrativa é múltipla, mas costurada por um mesmo fio: transformar o Brasil em linguagem universal. “Meu legado é esse: mostrar que o nosso estilo de vida pode ser entendido como luxo, como cultura, como sofisticação contemporânea.

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