Pesquisa, impacto ambiental positivo e beleza, tudo em uma só instalação. Foi com essa premissa que nasceu a Caravela, uma estação flutuante que produz algas em seu interior, desenvolvida pelas empresas brasileiras Furf Design Studio e Infinito Mare. Concebido como uma intervenção escultural urbana que despolui ambientes aquáticos, o projeto acaba de ser consagrado no iF Design Award 2026 – considerado o “Oscar” do setor – como Melhor Design de Produto do Mundo, ao lado de gigantes como Apple, Samsung e Ferrari.
Em um realidade que a poluição da água deve criar uma crise hídrica até o final do século, a Caravela propõe uma solução baseada na própria natureza. A estrutura funciona como uma incubadora: uma estação flutuante que estimula o crescimento de algas nativas em seu interior. Essa vegetação, por sua vez, desenvolve uma camada protetora (uma espécie de gordura) capaz de capturar poluentes na água, como metais pesados. Além da limpeza, a biomassa gerada torna-se uma rica fonte de dados sobre o ecossistema.
“Ao colocar a caravela na água, ela estimula o crescimento dessas algas, que consomem a poluição da água e guardam essa informação na biomassa”, explica Bruno Libardoni, fundador e CEO da Infinito Mare, que participou da criação. “A minha equipe vai até a estrutura, colhe o material e leva para o laboratório para quantificar quanto dessa alga cresceu, quais espécies e quanto dos poluentes elas foram capazes de remover”.

A conquista do iF Design Award coroa o final de um capítulo que se iniciou há sete anos e marca o começo de um novo. Segundo Libardoni, a premiação traz não só o reconhecimento, como também a atenção de investidores para a ampliar o impacto do projeto.
“Para nós, ganhar esse prêmio não é sobre brilhar, é sobre iluminar essa causa, afirma Mauricio Noronha, cofundador da Furf com Rodrigo Benner, ambos já listados como Under 30 da Forbes, em 2018. “Estamos mostrando que precisamos cuidar das águas e conseguimos usar o design como ferramenta para materializar inovações que podem causar um impacto maravilhoso”.

Design e ciência: a dupla perfeita
A união entre design e ciência começou de forma despretensiosa. Em um baile funk no Rio de Janeiro em 2019, entre uma dose ou outra, o plano de criar um projeto para salvar as águas surgiu. “Os meninos da Furf perguntaram se não podíamos criar um projeto para salvar as águas. E eu falei: ‘Já existe essa utopia, mas ela é muito feia’. E eles disseram: ‘Deixa a gente fazer o nosso papel”, lembra o fundador da Infinito Mare.
Um mês e meio depois, o conceito da Caravela nasceu como solução dupla de impacto social e ambiental. Para a Furf, o design atua como a ponte para materializar e potencializar o poder da ciência, necessária para tirar soluções brilhantes de dentro de “bolhas científicas” e trazê-las para o convívio da sociedade.

Na prática, cada detalhe do design da Caravela tem um propósito. A cor azul foi escolhida para obter o menor impacto na paisagem e no processo de fotossíntese das algas, enquanto o formato da estrutura em vórtex permite a entrada de correntes de ar e o constante movimento propicia a formação de algas. “Criamos [designs] como um poeta escreve uma poesia. Você vê que cada palavrinha que é escolhida para escrever, ela tem um porquê de estar ali”, diz Noronha.
Como uma estrutura exposta a todo tipo de condição ao ar livre, o design também priorizou a resistência e a menor interferência ambiental possível, como polímero reciclável, cordas e metais. “Ela é extremamente simples de fabricar e de montar e desmontar”, destaca o designer.

Caravela, a utopia se concretizando
Os resultados práticos já validam a tese. Com o início da operação oficialmente em dezembro de 2024 e o primeiro contrato comercial firmado em abril de 2025, atualmente o projeto já conta com seis unidades instaladas e ativas nas cidades do Rio de Janeiro, Niterói e Porto Alegre. Em cada localidade, o monitoramento e estudo do impacto das caravelas são feitos em parceria com universidades locais, além de laboratórios contratados.
Em 2025, quatro caravelas instaladas na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, mostraram resultados impressionantes. Com três meses de operação, mais de 250 milhões de litros foram filtrados (o equivalente ao volume de 104 piscinas olímpicas), cerca de três quilos de metais foram removidos e 34 quilos de carbono azul foram capturados.
O impacto vai além do ambiental e alcança a comunidade. Da mesma forma que o design possibilita uma ponte entre o mundo científico e a sociedade, Luciana Batista, cofundadora e Diretora de Operações da Infinito Mare, ressalta os esforços comunicacionais e educacionais para conectar o projeto com a população local. Entre os resultados das caravelas de BH, 126 crianças foram impactadas por ações educativas na região.
“Tentamos deixar o mais próximo das pessoas e tentar comunicar com a linguagem daquela cidade”, cita Luciana. Em Porto Alegre, por exemplo, unidades montadas no Lago do Guaíba – cuja inundação atingiu proporções históricas em 2024 – podem trazer um novo sentido de esperança para as pessoas em relação ao lago.
Essa aproximação cultural da população com os ecossistemas aquáticos pode influenciar diretamente no maior cuidado e conscientização. Bruno Libardoni conta que seu próprio interesse e preocupação com os corpos aquáticos nasceu ainda na infância, quando começou a praticar o surf aos 8 anos de idade.

“Estamos há cinco anos cuidando da criança na escola. Ela vai se tornar uma cidadã que cuida da água. Ela entra na universidade, e se oferecemos uma bolsa para a análise dos efeitos da Caravela, estamos formando aluno no nível superior. Aí começamos a desenvolver uma cultura”, aspira ele.
Para o futuro, a meta dos criadores é atingir a economia circular perfeita: desenvolver um biopolímero a partir das próprias algas cultivadas no interior da estrutura para fabricar as próximas unidades da Caravela. Uma utopia que, a cada litro de água filtrado, se torna mais real.