A luz sempre foi uma das ferramentas mais poderosas da história da arte. Poucos artistas, porém, a dominaram com tanta intensidade quanto Rembrandt van Rijn. Quase quatro séculos depois de sua produção, o mestre holandês volta ao centro das atenções com a exposição “Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra”, em cartaz na CAIXA Cultural São Paulo a partir de 29 de julho.
A exposição reúne 69 gravuras originais do século XVII, organizadas em torno dos eixos “o humano” e “o divino”, e propõe uma imersão na faceta menos conhecida, porém igualmente revolucionária, de um artista que transformou não apenas a pintura, mas também a gravura.
Ao combinar obras históricas com recursos tecnológicos e experiências sensoriais, com destaque para a iluminação do espaço, a exposição convida o público a redescobrir um dos maiores nomes da arte ocidental. Para compreender a dimensão desse legado e o processo de construção da mostra, a Forbes Life conversou com o curador italiano Luca Baroni.
Forbes Brasil: Rembrandt é frequentemente lembrado como pintor. O que torna sua produção de gravuras um capítulo tão revolucionário na história da arte?
Luca Baroni: Graças à sua excepcional habilidade técnica e ao profundo compromisso com a gravura, Rembrandt elevou a água-forte ao mesmo status artístico da pintura. Em suas mãos, ela deixou de ser principalmente um meio de reprodução para se tornar uma forma autônoma de expressão.
Suas gravuras alcançaram um prestígio extraordinário e, na Holanda do século XVII, podiam atingir valores comparáveis aos das pinturas. Sua reputação internacional foi construída, em grande medida, sobre suas águas-fortes, pelas quais ele permanece celebrado até hoje. Existe, em muitos aspectos, uma história da gravura antes de Rembrandt e outra depois dele.
FB: Dentre as 69 gravuras da exposição, quais você considera mais importantes para compreender a genialidade de Rembrandt e por quê?
LB: Considero *A Modelo do Artista no Ateliê* particularmente marcante por sua extraordinária modernidade. Rembrandt iniciou a matriz, mas a deixou inacabada. Ainda assim, ela foi publicada sob seu nome e tornou-se uma das obras mais admiradas de sua produção gráfica. Seu estado incompleto nos permite ver a imagem emergindo e compreender o processo criativo do artista.
Aqui, o tema não é mais apenas a figura representada. O ato de criar a imagem torna-se parte da própria obra de arte. Rembrandt antecipou, assim, uma ideia profundamente moderna: a de que o processo, a experimentação e o gesto artístico podem ser tão significativos quanto o resultado final.
FB: O domínio da luz e da sombra é geralmente associado às pinturas do artista. Como ele alcançava o mesmo impacto emocional utilizando apenas tinta preta sobre papel?
LB: Na história da gravura, Rembrandt é frequentemente descrito como o mestre do preto. Ele alcançava gradações tonais, profundidade atmosférica e contrastes de luz e sombra que tinham poucos precedentes nesse meio.
Em certos aspectos, ele traduziu para a gravura a revolução que Caravaggio trouxera à pintura: uma linguagem emocional baseada na interação dramática entre a escuridão e a luz. Por meio de preparações cuidadosas da matriz, sucessivas mordeduras (banhos de ácido), ponta-seca, retrabalhos seletivos e métodos de impressão altamente sofisticados, Rembrandt obtinha pretos profundos e aveludados, além de uma gama excepcional de tons. Esses efeitos conferiram às suas gravuras uma identidade reconhecível e o estabeleceram, desde o início de sua carreira, como um dos maiores gravadores de sua época, e talvez de todos os tempos.
FB: O que distingue as gravuras de Rembrandt daquelas produzidas por outros artistas do século XVII?
LB: Sua extraordinária humanidade. Ele possuía um virtuosismo técnico notável, mas a técnica nunca foi um fim em si mesma; era um meio de explorar a complexidade da experiência humana. Quer retratasse figuras bíblicas, comerciantes, mendigos, idosos ou membros de sua própria família, ele abordava seus temas com a mesma intensidade psicológica. Ele não os idealizava; revelava suas emoções, vulnerabilidades, presença física e individualidade. É por isso que suas gravuras ainda parecem contemporâneas. Além de seu brilhantismo técnico, elas nos convidam a reconhecer a nós mesmos nas pessoas que retratam.
FB: Em uma sociedade marcada por profundas disparidades sociais, qual era o significado de retratar mendigos, idosos e pessoas comuns com a mesma dignidade concedida à elite?
LB: A atenção de Rembrandt aos mendigos e às pessoas marginalizadas deve ser compreendida dentro do contexto social da República Holandesa. No início do século XVII, as autoridades de Amsterdã introduziram medidas cada vez mais rigorosas contra a vadiagem e a mendicância pública, buscando remover os mendigos das áreas centrais e mais prósperas da cidade.
Eram pessoas que a sociedade tentava controlar, marginalizar ou tornar invisíveis. Rembrandt, por outro lado, escolheu olhar para elas e torná-las visíveis. Ele representava seus gestos, cansaço, idade, pobreza e vulnerabilidade sem privá-las de sua individualidade. Concedia-lhes a mesma seriedade que dedicava a patronos ricos, estudiosos e figuras bíblicas.
Para Rembrandt, a dignidade não dependia de riqueza ou status social; era uma qualidade intrínseca da existência humana. Em algumas obras, a distinção entre o mendigo e a figura sagrada chega a tornar-se instável: os pobres e os marginalizados podem evocar Cristo, a Sagrada Família ou a experiência universal do sofrimento.
FB: Fale-nos sobre a decisão de dividir a exposição em “o humano” e “o divino”
LB: A distinção entre o humano e o divino nunca teve a intenção de ser uma divisão rígida. Na obra de Rembrandt, o humano e o divino estão constantemente entrelaçados. Suas figuras bíblicas vivenciam dúvidas, ternura, medo, sofrimento e compaixão. Ao mesmo tempo, seus retratos e imagens de pessoas comuns possuem uma dignidade quase sagrada. O divino nunca é distante ou abstrato, enquanto o humano nunca é meramente comum. Cada dimensão ilumina continuamente a outra.
FB: Para alguém que não conhece a obra de Rembrandt, qual é a principal mensagem que um visitante deve levar da exposição?
LB: Prefiro deixar essa resposta em aberto. Não acredito que os curadores devam dizer aos visitantes o que eles devem pensar ou sentir. No entanto, espero que os visitantes saiam com a consciência de que os grandes mestres do passado nunca estão verdadeiramente distantes. Rembrandt viveu há quatro séculos, mas sua obra continua a nos falar com uma extraordinária franqueza. Não acredito que exista simplesmente arte antiga e arte moderna. Existem artistas e existem verdades humanas. Quando um artista é verdadeiramente genial, sua obra transcende os períodos históricos e fala a cada nova geração como se tivesse sido criada ontem.
SERVIÇO:
Rembrandt – O Mestre da Luz e da Sombra
Visitação: 29 de julho a 27 de setembro de 2026
Dias e horários: terça a domingo, das 9h às 18h
Local: CAIXA Cultural São Paulo
Endereço: Praça da Sé, 111, Centro – São Paulo, SP, próxima à estação Sé do metrô
Classificação: livre para todos os públicos
Entrada gratuita