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Como Ruth Ware Foi de Garçonete a Best-Seller Conhecida Como “Nova Agatha Christie”

Com mais de 11 milhões de livros vendidos ao redor do mundo e adaptação para a Netflix, autora encontrou força no público feminino de thrillers

12 min

Não é surpresa que os livros de suspense tenham encontrado força no público feminino. Com as mulheres liderando os índices de leitura no Brasil e os thrillers marcando presença constante na lista de mais vendidos, o protagonismo feminino aparece tanto no consumo quanto nas próprias narrativas do gênero. Um relatório de 2021 do portal WordsRated, que analisa dados globais do setor editorial, corrobora o cenário: mais de dois terços dos consumidores de crime e mistério são mulheres.

Entre as autoras (e leitoras) do gênero, está a britânica Ruth Ware, por trás de best-sellers globais como “A Mulher na Cabine 10” — que ganhou uma adaptação na Netflix estrelada por Keira Knightley em 2025. “As mulheres têm uma probabilidade esmagadoramente maior de serem mortas por um parceiro íntimo ou por alguém de seu círculo próximo, então não é surpreendente que as histórias que tendemos a escrever reflitam mais esses medos”, diz em entrevista à Forbes Brasil.

Apontada pelo Wall Street Journal como uma “escritora genial de suspense moderno” e frequentemente comparada a Agatha Christie, a autora já foi traduzida para mais de 40 idiomas e teve mais de 11 milhões de cópias vendidas globalmente. “Meus livros sempre têm um mistério de assassinato, pistas e, geralmente, uma grande revelação ao estilo dos romances policiais clássicos”, afirma. “Mas também são uma jornada emocional com reviravoltas e revelações no estilo de um thriller psicológico.”

A virada de chave até os thrillers best-sellers

Nascida em Sussex, um condado histórico na costa sul da Inglaterra, Ware trabalhou como garçonete, livreira e professora de inglês antes de assinar seu primeiro contrato literário, há 11 anos. Enquanto isso, guardava o sonho de se tornar autora e os manuscritos debaixo da cama. “Sempre adorei ler romances policiais e thrillers, mas não comecei a escrever nesse gênero até os meus trinta anos.”

Foi a necessidade de financiar horas extras na creche dos filhos em Londres e manter algum tempo para a escrita na rotina que a fez sentar e escrever com o foco em ser publicada. “A única maneira de arranjar tempo para escrever seria fazer com que isso me rendesse dinheiro.” Seu primeiro romance, “Em um bosque muito escuro”, publicado em 2015, entrou para a lista de best-sellers do The New York Times e teve seus direitos vendidos para o cinema.

Mais de uma década e nove livros depois, a escritora de 48 anos revisita a jornalista Lo Blacklock em seu novo thriller, “A Mulher na Suíte 11”, lançado pela editora Rocco neste mês no Brasil.

A história acompanha a protagonista em uma viagem para cobrir a inauguração de um luxuoso hotel em um castelo na Suíça, onde o que deveria ser apenas a busca por uma entrevista com um bilionário recluso se transforma em uma perigosa perseguição cruzando a Europa. “Uma das coisas maravilhosas sobre o meu sucesso hoje é que isso me deu uma segurança financeira que me permite correr riscos nas histórias.”

A seguir, Ware detalha o impacto da maternidade na sua carreira como escritora, reflete sobre os medos femininos e revela os bastidores de seu processo criativo.

Confira os destaques da entrevista com a autora Ruth Ware

Forbes: Em “A Mulher na Suíte 11”, você traz de volta a jornalista Lo Blacklock, protagonista de “A Mulher na Cabine 10”. Como foi revisitar essa história depois de 10 anos, e agora com a adaptação da Netflix?

Ruth Ware: Não sabia que Cabine 10 havia recebido sinal verde para virar filme quando comecei a escrever Suíte 11. Os direitos haviam sido comprados anos antes, então eu tinha esquecido de que poderia virar um filme. Só descobri três meses depois de começar a escrever que isso estava acontecendo, e os meses seguintes foram uma série de momentos do tipo “alguém me belisca” enquanto o elenco e os detalhes eram gradualmente revelados. Tinha terminado completamente a sequência antes de conseguir assistir ao filme do começo ao fim.

De certa forma, o timing foi um grande presente, porque significava que eu poderia revisitar Lo e seu mundo completamente nos meus próprios termos. Não precisei me preocupar em fazer o mundo do livro e o mundo do filme combinarem.

Desde seu primeiro livro, você publica anualmente um sucesso atrás do outro. Como foi encontrar esse ritmo?

Havia vendido “Em um Bosque Muito Escuro” em um contrato de dois livros, então já tinha que escrever um segundo romance em seguida. Enquanto tentava fazer isso, recebia ligações dizendo que o livro havia sido vendido em outro território, que os direitos para o cinema tinham sido comprados ou que a obra foi lida por Reese Witherspoon. Tudo isso deveria me fazer sentir mais confiante, mas me fez sentir cada vez pior em relação ao novo livro que eu estava tentando escrever, que se transformou em “A Mulher na Cabine 10”.

Estava tão desesperada para provar que poderia escrever outro sucesso que joguei de tudo um pouco em cima da pobre Lo. Ela mal tem dez minutos de descanso entre ser manipulada psicologicamente, quase afogada, presa e exausta. Estava desesperada para não dar aos leitores uma desculpa para largar o livro.

Felizmente, o livro foi um sucesso. Ainda maior do que “Em um Bosque Muito Escuro”. E assim, no meu livro seguinte, “O Jogo da Mentira”, acho que me permiti ir um pouco mais devagar, confiar no leitor e em mim mesma.

Com essa segurança, o que mudou nas suas escolhas criativas?

A minha escrita mudou. Sinto que meus leitores sabem que eu vou direto ao ponto, que haverá um assassinato e um mistério. E aprendi que as pessoas continuam acompanhando um personagem com o qual se importam.

Mas uma das coisas maravilhosas sobre o sucesso de Cabine 10 e dos meus livros subsequentes é que isso me deu uma segurança financeira que me permite correr riscos. Adoro inovar, me desafiar, explorar áreas que acho interessantes, mesmo que não sejam as mais sensatas comercialmente.

Como a maternidade impactou a sua decisão de apostar profissionalmente na carreira de escritora?

Antes de ter filhos, eu escrevia romances como um hobby e tinha sonhos vagos de ser publicada, mas nunca tinha feito nada a respeito. Parei de escrever por alguns anos quando tive meu primeiro filho e, no segundo, quando estava de licença-maternidade, algo reacendeu em mim. Tive uma ideia para um livro que queria muito escrever, e percebi que não teria mais tempo para isso.

Estava prestes a voltar para um trabalho muito exigente (embora apenas em meio período, porque as creches em Londres eram tão caras que me custaria mais trabalhar em período integral). Sabia, por ter tido meu primeiro bebê, que os primeiros anos seriam um turbilhão de estresse, problemas com os cuidados das crianças e tentativas de colocar o trabalho em dia.

Percebi que a única maneira de arranjar tempo para escrever seria fazer com que isso me rendesse dinheiro – idealmente o suficiente para pagar algumas horas extras de creche.

Foi isso que me fez sentar e escrever um manuscrito, não por diversão ou para mim mesma, mas com o objetivo de apresentá-lo a agentes e conseguir um contrato de publicação. Esse livro foi meu primeiro romance publicado e me rendeu o suficiente para pagar duas manhãs extras de creche por semana, o que tornou todo o resto possível.

Qual a diferença dos thrillers escritos para homens e para mulheres?

Todos nós adoramos sentir medo, mas homens e mulheres muitas vezes buscam versões muito diferentes disso. Nos romances policiais voltados para os homens, a ameaça costuma ser externa – o serial killer ou o assassino misterioso que o policial precisa rastrear e levar à justiça. Os thrillers mais focados no público masculino também tendem a ser sobre essas ameaças mais distantes e existenciais – coisas como governos corruptos ou agentes estrangeiros desonestos. Pense em James Bond e John le Carré.

Em contraste, para as mulheres, o medo costuma ser algo mais doméstico, sobre aqueles mais próximos a você – você pode confiar na pessoa com quem vive, nos seus colegas de trabalho ou nos seus amigos? Provavelmente isso acontece por conta dos maiores riscos à nossa segurança.

Os homens têm mais probabilidade de serem vítimas de violência do que as mulheres, mas quando são, geralmente é uma violência casual cometida por um estranho, vinda de uma fonte externa. As mulheres têm uma probabilidade esmagadoramente maior de serem mortas por um parceiro íntimo ou por alguém de seu círculo próximo, então não é surpreendente que as histórias que tendemos a escrever reflitam mais esses medos do que a ameaça de um desconhecido.

Qual a importância de ter protagonistas femininas nas suas histórias?

Não é algo que eu me propus a fazer desde o início. Conto as histórias que ressoam comigo e sobre as quais tenho algo interessante a dizer. Até agora, a maioria tem sido histórias protagonizadas por mulheres, mas não descartaria escrever um livro do ponto de vista de um homem. No momento, porém, não acho que terminei de escrever sobre como é ser uma mulher no século XXI, então talvez isso não aconteça tão cedo.

Você publicou seu primeiro thriller aos 38 anos. O que a atraiu e a fez perceber que havia espaço nesse gênero para as suas histórias?

Sempre adorei ler romances policiais e thrillers, mas não comecei a escrever nesse gênero até os meus trinta anos. Escrevi durante toda a minha adolescência e juventude, mas nunca me ocorreu tentar escrever romances policiais. Foi apenas quando uma amiga disse que adoraria ler um romance sobre um assassinato em uma despedida de solteira que, de repente, pensei: “Também adoraria ler isso. E acho que esse livro não existe, então talvez eu devesse escrevê-lo.” Dez anos depois, mal posso acreditar que demorei tanto para descobrir as alegrias de um whodunnit (o clássico mistério de ‘quem matou?’) cheio de reviravoltas.

O que mais amo é a conexão íntima entre o escritor e o leitor. Claro que isso existe em toda a ficção, mas em um romance policial, em particular, você está constantemente pensando no seu leitor, tentando adivinhar o quanto eles já desvendaram, até onde você pode provocá-los, o que eles já sabem ou podem suspeitar.

Ser frequentemente comparada a Agatha Christie traz mais validação ou pressão ao assinar um novo contrato ou iniciar um novo manuscrito?

No começo, fui pega de surpresa e fiquei um pouco intimidada. Mas com o passar dos anos, encaro isso apenas como um grande elogio. Adoro Christie e acho que ela é a grande arquiteta de tramas do gênero, particularmente quando você considera o quão prolífica ela era. Não acho que um dia alcançarei a sua marca de escrever um livro em três dias, mas, por outro lado, os livros dela são consideravelmente mais curtos que os meus.

Por que você acha que os mistérios que você ambienta na Europa se conectam com pessoas do mundo todo?

As pessoas adoram viajar sem sair da poltrona e os meus livros dão a elas essa oportunidade. É parte do motivo pelo qual amo ambientá-los em lugares interessantes. É claro que você pode escrever um enredo fascinante ambientado em um conjunto habitacional, mas eu sempre sinto que se vou passar um ano vivendo em algum lugar na minha imaginação, que seja em um lugar divertido.

Quando você está escrevendo um livro, como é a sua rotina?

Tento manter o horário comercial quando escrevo. Por muito tempo, espremia a minha escrita entre o meu trabalho diário, as crianças pequenas e as responsabilidades com a casa. Quando finalmente pude largar o meu emprego, prometi a mim mesma que manteria um horário de trabalho, e tentaria deixar as noites e os fins de semana para a minha família. Ainda respondo e-mails e uso as redes sociais no celular, e também estou sempre pensando nos meus enredos e personagens, mas o livro em que estou trabalhando mora no meu computador de mesa no meu escritório – e tento manter as coisas assim.

Da faísca de uma ideia até o manuscrito final, como funciona o seu processo criativo?

De qualquer lugar e de toda parte. Pode ser algo que alguém me diz casualmente, uma conversa que ouvi sem querer em um restaurante, um artigo de jornal, alguma preocupação bizarra. Às vezes, eu amo uma ideia, mas ela não tem o “tamanho de um livro”, falta algum elemento ou ângulo para torná-la substancial o suficiente para sustentar um enredo inteiro. Nessa situação, pode levar um tempo até eu encontrar as peças que faltam. O momento em que sei que a ideia é a certa é quando fico animada para escrevê-la.

Geralmente começo com uma premissa, um elenco de personagens e um cenário – e um destino ao qual estou tentando chegar. Normalmente, é um assassinato. Como vou do ponto A ao ponto B é algo que vou descobrindo ao longo do caminho, e muitas vezes encontro algumas reviravoltas surpreendentes no trajeto.

Que conselho você daria para mulheres que querem começar a escrever hoje?

Apenas faça. Nunca haverá um momento perfeito, apenas o momento em que você conseguir colocar no papel algumas palavras. Não se preocupe em deixar tudo perfeito. Acho que me preocupei por tempo demais com o que as outras pessoas iriam pensar dos meus livros.

Olhando para o futuro, que histórias você ainda quer escrever?

De jeito nenhum posso contar isso. Alguém pode chegar lá na minha frente. Digamos apenas que tenho algumas ideias guardadas que adoraria escrever, e a crença de que a próxima trama brilhante possa estar logo ali virando a esquina, esperando para ser descoberta.

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