Não se espante com o apelido que o deixou famoso. A fome que rendeu a Eddy Merckx a alcunha de “O Canibal”, é fome de vitória. Entre o fim da década de 1960 e meados dos anos 1970, Édouard Louis Joseph Merckx, ou apenas Eddy Merckx, redefiniu os limites do esporte. Com um recorde de 525 vitórias, incluindo 11 Grand Tours, 19 Monumentos do ciclismo e três campeonatos mundiais, o belga construiu uma trajetória que permanece como a principal referência de excelência na modalidade.
Conhecido como “O Canibal” por disputar cada prova com a mesma intensidade, independentemente do favoritismo, Merckx atribui sua longevidade competitiva menos ao talento do que à disciplina, à coragem e à capacidade de superar os próprios limites.
Em entrevista à Forbes Brasil, o ex-ciclista relembra como transformou uma paixão descoberta aos 16 anos em uma carreira histórica, reflete sobre os momentos de adversidade que fortaleceram sua determinação e defende que, mesmo em uma era marcada por tecnologia, dados e avanços científicos, nenhuma inovação substitui o trabalho diário.
Esse legado agora ganha uma homenagem da Breitling. A marca suíça apresenta uma edição especial da coleção Top Time dedicada ao ciclista. Lançada na década de 1960, a linha combina design retrô-moderno com desempenho contemporâneo e, nesta versão, recebe um mostrador amarelo e a inscrição “Eddy Merckx Tribute” gravada no verso da caixa, e celebra a trajetória que continua inspirando atletas meio século depois.

“Para nós, é importante que toda parceria seja autêntica e tenha uma história que valha a pena ser contada. Eddy Merckx é o exemplo perfeito. Dar vida a esse legado por meio de um relógio parece algo genuíno, porque nossas histórias estão conectadas por uma paixão compartilhada por performance, precisão e superação de limites”, diz Renato Meier, diretor da Breitling para LATAM e Caribe.
Confira a entrevista a seguir:
Forbes Brasil: Para os leitores que talvez estejam ouvindo seu nome pela primeira vez, quem era o jovem Eddy Merckx e o que fez você acreditar que poderia se tornar um dos maiores ciclistas do mundo?
Eddy Merckx: Descobri as competições de ciclismo aos 16 anos, depois de praticar futebol e basquete. Muito rapidamente, a bicicleta tornou-se muito mais do que um esporte, uma verdadeira paixão.
Em 1961, conquistei meu primeiro título de campeão da França na categoria de iniciantes. Três anos depois, em 1964, em Sallanches, venci o Campeonato Mundial Amador. Essa vitória marcou uma virada decisiva na minha vida. Ela me fez compreender que eu poderia enxergar o ciclismo como uma carreira profissional e viver da minha paixão.
Entrei para o ciclismo profissional em 1966. Já nessa primeira temporada, minha vitória na Milão-San Remo, uma das provas clássicas de maior prestígio do ciclismo mundial, confirmou que eu estava apto a competir com os melhores. Posteriormente, também tive a imensa satisfação de estabelecer um novo recorde mundial da hora, na Cidade do México, um desafio tão rigoroso quanto simbólico.
FB: Você ficou conhecido como “O Canibal” por sua determinação em lutar por cada vitória, mesmo quando já era o favorito. Essa mentalidade nasceu com você ou foi desenvolvida ao longo da carreira?
EM: O ciclismo é um esporte em que nada é garantido. É preciso enfrentar os elementos como o vento, a chuva e, às vezes, até a neve, dominar as dificuldades do percurso e suportar longas horas de esforço. Mas a maior batalha continua sendo aquela que travamos contra nós mesmos.
Para vencer, é preciso saber superar os próprios limites, buscar o mais profundo de nossos recursos e manter, em todas as circunstâncias, a vontade de vencer. Esse espírito competitivo sempre esteve no centro da minha personalidade.
FB: Qual foi o período mais difícil da sua carreira e o que ele lhe ensinou sobre resiliência?
EM: Como todo esportista, vivi momentos difíceis e adversidades. No entanto, cada provação fortaleceu minha determinação. Nunca deixei de acreditar nas minhas capacidades, nem de trabalhar para voltar ao mais alto nível.
Ao longo de toda a minha carreira, competi com a mesma paixão que tinha no início. A bicicleta ocupou um lugar essencial na minha vida. Ela me proporcionou emoções intensas, alegrias inesquecíveis, belos encontros e a extraordinária oportunidade de realizar o sonho que eu tinha quando era criança.
Olhando para trás, percebo a sorte que tive por viver essa extraordinária aventura esportiva. O ciclismo me deu tudo: uma carreira, lembranças inesquecíveis e, acima de tudo, a convicção de que alguns dos mais belos sonhos podem se tornar realidade quando dedicamos os esforços necessários para realizá-los.
FB: Você competiu em uma época sem a tecnologia e os dados disponíveis para os atletas de hoje. Na sua visão, quais qualidades mentais continuam sendo essenciais para atletas de alta performance?
EM: Ao longo das décadas, o ciclismo evoluiu profundamente. Os avanços tecnológicos transformaram as bicicletas, os equipamentos e os métodos de treinamento. As pesquisas em laboratório permitiram melhorar a aerodinâmica dos equipamentos, enquanto a preparação física, o acompanhamento médico e os treinamentos em altitude contribuíram para ampliar os limites de desempenho.
Mas, apesar de todos esses avanços, uma coisa permanece inalterada: nenhuma inovação jamais substituirá a vontade, a coragem, a disciplina e o trabalho diário do atleta. São essas qualidades que permitem superar as dificuldades, alcançar o mais alto nível e realizar grandes feitos.