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Elkis+: a Nova Geração do Paisagismo de Luxo Brasileiro

Gilberto Elkis anuncia a filha, Caroline, como sócia e dá início a uma nova fase no estúdio que transformou jardins em símbolo de status, arte e conexão com a natureza

9 min

Se a longevidade da espécie humana começa pelos princípios biofílicos, no clã Elkis, intérprete da natureza em ecossistemas públicos ou privados, a continuidade do ser humano – e da patente – também estão garantidas. Longe de pendurar o arado ou de enfiar o pé na jaca, Gilberto, 65 anos, uma das maiores grifes do paisagismo nacional tipo exportação, acaba de anunciar a herdeira, Caroline, 36, como sócia, modernizando o estúdio rebatizado de Elkis+. “Uma simbiose de gerações que agrega um olhar mais fresh, embora bastante experiente, que soma muito nos processos criativos e executivos”, elogia o patrono.

Caroline, filha única, estudou design de interiores e artes nos EUA. De volta ao Brasil, formou-se em arquitetura e urbanismo e foi experimentar a trilha desbravada pelo pai. De primeira, não deu certo. “Não queria ficar à sombra dele”, revela sobre o voo solo que lhe renderia duas participações independentes na CASACOR SP. Oito anos atrás, atendeu ao novo chamado do “star-landscaper” e se enraizou de vez.

Passaram a assinar a quatro mãos e recentemente proclamaram a sociedade. Uma sementinha plantada ao acaso, como acontece com a polinização das abelhas. Quatro décadas atrás, esse sujeito garboso de 1,83 m e olhos muito azuis se rebelou do business familiar (o pai, médico, foi um dos fundadores do tradicional laboratório Elkis e Furlanetto, referência em análises clínicas) e atuou como modelo nos anos 1980, emplacando desde capas ao lado de Xuxa e Luiza Brunet até as legendárias (e hoje politicamente incorretas) campanhas de cigarro. Também flertou com a relojoaria antes de largar tudo para surfar na Califórnia.

Acervo pessoalGilberto e Caroline em San Diego (Califórnia)

Descobriu a paixão pelos jardins entre as espécies áridas de San Diego, ao fazer bicos como assistente de um paisagista norte-americano. Brotou a epifania: na volta ao Brasil, terra em que tudo o que se planta dá, assumiria seu côté “Jardineiro Fiel”. Tropicalizou a cartilha verde do Tio Sam, subvertendo as métricas mais cartesianas, e foi capa de jornal ao usar vitórias-régias da Amazônia em espelhos-d’água. Passou a ser requisitado por pranchetas da estirpe de Sig Bergamin e João Armentano. Elkis, o pai, acompanhou de perto a evolução do setor, operou como usina de novos talentos (Alex Hanazaki, ponto cardeal nessa seara, passou pelo seu escritório) e hoje coleciona hectares babilônicos por todo o país (e pela África, Estados Unidos e Suíça).

Seu croqui bate ponto nos principais condomínios de luxo do interior paulista (Haras Larissa, Fazenda Boa Vista, Quinta da Baroneza, Fazenda da Grama). Também carimba empreendimentos de grande envergadura urbana – sete quilômetros de revitalização da orla de Florianópolis, outros tantos alqueires de um parque linear em Arandu. Passamos uma tarde com o duo à sombra e água fresca do seu “Jardim Tropical”, na CASACOR, montado no Parque da Água Branca (SP).

Veja alguns dos trabalhos de Gilberto Elkis:

Forbes – Roberto Burle Marx dizia que “o paisagismo é a natureza reorganizada pelo homem”. Como os Elkis definem o ofício?

Gilberto Elkis – Para nós, o paisagismo é isso tudo e também é a moldura da arquitetura. Assim como nos museus, onde uma obra pequena pode ter uma grande moldura, ou vice-versa, o paisagismo enquadra e infere sentido ao espaço arquitetônico.

A arquitetura de alto padrão está passando por alguns deslocamentos urbanos, como a migração substancial das elites para condomínios do interior, que concentram projetos espetaculares. Temos visto muitas placas “Gilberto Elkis Paisagismo” por lá. Como alcançou esse público?

Gilberto – (risos) Fui pioneiro ao assinar meu nome nos tapumes das obras de São Paulo, marketing positivo que importei dos EUA. Hoje, geralmente, os clientes chegam por indicação de arquitetos e de outros clientes antigos. Muitos sonham com nossos projetos. Tenho grandes parceiros como Sig Bergamin, Dado Castello Branco, João Armentano e Ugo di Pace.

Acervo pessoalGilberto na capa da revista Nova (1981)

Afinal, fazer a grama do vizinho parecer mais verde também é uma boa estratégia de marketing…

Caroline Elkis – Sim, um projeto bem-feito sempre acaba puxando outro…

Na percepção de vocês, quando o paisagismo começou a ganhar mais protagonismo no mercado imobiliário de alto padrão?

Gilberto – No final dos anos 1990. Foi quando eu, por exemplo, trouxe influências dos EUA, como uniformes camuflados para jardineiros, e as tais placas de autoria nas obras. Mas minha participação na CASACOR ajudou também na valorização tanto da minha trajetória como na de muitos outros colegas.

Caroline – Acho que ainda estamos num ponto de virada. Por muito tempo, o paisagismo foi visto como um complemento – algo que se fazia no final da obra, quase como uma decoração verde. Hoje, felizmente, as pessoas estão começando a entender que o paisagismo é projeto, é estrutura, é saúde, é clima, é bem-estar. E mais: é identidade, memória e cultura.

Gilberto, você está em pleno vigor aos 65 anos de idade. Imagino que o anúncio da Caroline como sócia não tenha nada a ver com uma aposentadoria próxima…

Gilberto – Jamais. Amo o que faço, mas busco mais qualidade e proximidade com a natureza. Trabalhar com isso é uma conexão espiritual para mim. Hoje nossos projetos estão 80% fora da capital. Ali nossa energia vai sendo armazenada, acumulada, potencializada. A natureza cura.

Camila TuonGilberto Elkis: “Busco mais qualidade e proximidade com a natureza. Trabalhar com isso é uma conexão espiritual para mim”

E como funciona a hierarquia do estúdio que acaba de ganhar nome novo?

Caroline – No Elkis+, o Gilberto segue na criação; cuido do backstage criativo, além de execução, compra de plantas, obras, viagens, orçamentos e relações com clientes.

Caroline, você sempre quis ser arquiteta ou passou pela sua cabeça fazer outra coisa?

Caroline – Sempre tive a influência do meu pai e da minha mãe [designer têxtil e de interiores]. Mas, quando criança, queria ser pediatra.

Então, quase houve interferência de outro galho famoso na árvore genealógica da família…

Gilberto – Verdade (risos). Meu pai era médico, sócio do Elkis e Furlanetto, mas eu não queria fazer aquilo. Nasci e cresci em uma São Paulo mais verde e arborizada, sempre gostei de plantas. Aos 5 anos de idade, fazia experiências com feijões germinados no algodão, tentando enganar o crescimento deles, direcionar os galhos. Já tinha interesse em fenômenos como fototropismo e geotropismo. Quando fui morar fora e trabalhei com um paisagista norte-americano, tive certeza do que faria.

Caroline – Como cresci fora do Brasil, adorava acompanhar o trabalho do meu pai nas férias. Morei em San Diego até os 5 anos. Depois voltamos para São Paulo por um curto período. Então, fomos para Nova York, onde fiquei até os 26. Estudei Elementary School, High School e College por lá. Ao voltar, cursei arquitetura e urbanismo em Santos.

Após formada, você trilhou uma carreira solo prestigiada. Quando decidiu trabalhar com o seu pai?

Caroline – A primeira tentativa com ele foi em 2012, mas não queria ser apenas “a filha do Gilberto Elkis”. Precisava criar minha própria identidade e desenvolver projetos autorais, inicialmente focados em interiores. Em 2013, participei da CASACOR e segui até me sentir segura para retomar na hora certa.

Parece que, após a sua entrada, os projetos ganharam um “it” feminino…

Caroline – Diria que antes eram muito verdes, ricos em texturas, mas agora têm acolhimento extra, mais cores e um toque feminino.

Camila TuonCaroline Elkis: “Nosso lugar é no presente – com raízes profundas e galhos abertos para o que está por vir”

Nesse processo todo de renovação, qual continua sendo a peça-chave no seu tabuleiro?

Gilberto – Os jardineiros, com certeza. Eles transmitem a energia e o cuidado necessários para a vegetação crescer. Plantas sentem essa “intenção”: precisam de água e nutrientes, claro, mas precisam, sobretudo, de amor. Sem isso, não há jardim que vingue. E a água, é claro. Começou com uma viagem a Minas Gerais, quando, ainda criança, fiquei fascinado pelo monjolo e pelo seu movimento hipnótico. Água é vida, purificação, regeneração.

Por falar em água, vocês também estão por trás de grandes obras públicas que vêm aí, incluindo uma certa Beira-Mar…

Caroline – Fizemos a nova orla de Florianópolis, com parque sustentável que integra natureza, lazer e urbanidade. Mais do que revitalizar, o objetivo é ressignificar a relação entre cidade e mar, oferecendo espaços de bem-estar em meio à vegetação nativa. A Elkis+ assina esse projeto unindo técnica, poesia e propósito: transformar a orla em um espaço vivo, afetivo e conectado com o futuro das cidades – são sete quilômetros ao todo! Também estamos desenvolvendo um parque linear em Arandu (SP).

Qual foi o projeto mais extravagante que vocês já realizaram?

Gilberto – Um que não acaba nunca (risos). É uma fazenda no interior paulista. A proprietária prefere viver na casa do caseiro a abrir mão do jardim, que construímos continuamente há mais de 20 anos – é um jardim que não tem fim, estamos sempre modificando ou adaptando algo nele.

Caroline, como você quer posicionar o estúdio nessa nova fase?

Caroline – Queremos que a Elkis+ seja reconhecida como um escritório de paisagismo que une passado e futuro com verdade. O “+” é essa soma: da experiência do Gilberto com a minha visão contemporânea; do conhecimento técnico com o olhar poético; da conexão com a terra com a leitura do tempo em que vivemos. Nosso lugar é no presente – com raízes profundas e galhos abertos para o que está por vir.

Camila TuonPai e filha passeiam pela CASACOR escoltados pelos dois yorkshires da família: Chica e João
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