Por décadas, a perfumaria foi guiada por códigos divisivos de gênero: florais e adocicados para elas, notas intensas e amadeiradas para eles. Hoje, porém, pensar assim parece cada vez mais ultrapassado.
Muito antes de os perfumes sem gênero se tornarem uma tendência, a Chanel já ensaiava essa mudança. Em 1926, a maison lançou o Bois des Îles, uma fragrância construída em torno do sândalo e considerada um dos primeiros grandes amadeirados femininos da história. Quase um século depois, as notas de madeira vivem um novo auge no mercado. Antes associadas ao universo masculino, elas ganharam espaço entre as mulheres e se consolidaram como uma das principais tendências da perfumaria contemporânea, impulsionadas pela busca por fragrâncias mais sofisticadas e autorais.
Os números provam. Segundo o relatório Woody Perfume Market, da DataIntelo, o segmento global de fragrâncias amadeiradas deve crescer a uma taxa média anual de 5,8% até 2032, impulsionado principalmente pelo público feminino. O estudo ainda revela que o segmento feminino representa uma parcela relevante desse avanço, impulsionado pela versatilidade dessas fragrâncias.
“Hoje, vemos uma quebra clara de códigos tradicionais. As fragrâncias deixaram de seguir regras rígidas de gênero e passaram a explorar territórios mais amplos”, confirma Louise Turner, perfumista da Givaudan que já criou fragrâncias para Carolina Herrera, Chloé, Maison Martin Margiela, Boss e o brasileiro Boticário, com o Her Code.

Ingredientes como sândalo, vetiver e patchouli, historicamente associados aos perfumes masculinos, passaram a compor fragrâncias mais autorais e sensoriais. Além disso, com novos métodos de extração, novas notas de madeira aparecem: é o caso da Akigalawood, com uma faceta mais refinada e menos rústica, segundo Louise.
“Os amadeirados trazem uma sofisticação moderna e uma assinatura mais envolvente, que conversa com mulheres que desejam se expressar de forma autêntica”, diz. De acordo com a especialista, a força dessa família olfativa está em sua arquitetura, que permite “construções mais estruturadas e envolventes”. Se combinadas a notas florais ou frutadas, criam “fragrâncias femininas modernas, equilibradas e extremamente versáteis”
No Brasil, a tendência já influencia diretamente as estratégias da indústria, impulsionada pelo avanço da perfumaria de nicho e de luxo. Paulo Roseiro, diretor executivo de perfumaria do Boticário, afirma que o movimento deixou de ser apenas comportamental e virou plano de negócio. “Temos a ambição de ampliar o portfólio de amadeirados femininos da empresa, com crescimento acima de 50% de receita nessa frente com as marcas Liz e Her Code”, afirma.
Para entrar na onda, veja a seguir seis perfumes amadeirados para conhecer:
Cedrus Intense (Chloé) — R$ 615
Criado por Quentin Bisch e Louise Turner, mistura bergamota e notas verdes com couro, vetiver, âmbar e sândalo australiano. Elegante e sofisticado.

Paradiso (Roberto Cavalli) — R$ 866
Um floral amadeirado almiscarado. Mandarina, jasmim, cipreste e pinheiro criam uma composição ensolarada e mediterrânea.

Beauté du Diable (Les Liquides Imaginaires) — R$ 2.780
Fragrância de nicho com notas de gin, absinto, ylang-ylang, madeira guaiac e vetiver do Haiti. Intensa e pouco convencional.

Willow & Amber (Jo Malone London)
Une salgueiro branco, madeira de cashmere, vetiver, âmbar e baunilha em uma interpretação suave e aconchegante dos amadeirados.

Atmah (Caron)
Com Ambrofix, madeira de âmbar, vetiver, baunilha e almíscar, aposta em uma construção rica e envolvente, típica da perfumaria de nicho.

Her Code Eau de Parfum (O Boticário) — R$ 245
Combina frutas vermelhas e jasmim com uma base cremosa de sândalo. O resultado é uma fragrância quente.
