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Brasil Vira Potência da Perfumaria e Atrai Gigantes do Setor

Novas grifes chegam ao país ao mesmo tempo que gigantes da indústria investem milhões de euros para conseguir uma fatia da paixão brasileira por fragrâncias

6 min

Que o Brasil é visto pela indústria global como um grande consumidor de perfumes, não é novidade. Mas agora, passou também a ser um mercado capaz de influenciar tendências, lançar marcas e ditar comportamentos. Com um setor que movimentou cerca de R$ 50 bilhões em 2025 e deve alcançar R$ 74 bilhões até 2030, segundo dados da Euromonitor deste ano, o país consolidou-se como o segundo maior mercado de perfumaria do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Esse novo protagonismo ajuda a explicar uma onda de investimentos por aqui. Marcas de luxo, como Loewe, Acqua de Parma e Guerlain, abriram suas primeiras boutiques no Brasil, com foco em suas linhas de perfumaria — todas em São Paulo.

DivulgaçãoA primeira loja da Acqua di Parma no Brasil fica no Mata Lab, em São Paulo

Já a francesa Robertet acaba de investir 15 milhões de euros em sua operação brasileira. A empresa, líder mundial em ingredientes naturais para fragrâncias, inaugurou esta semana um novo centro criativo, para desenvolvimento de novos produtos, em São Paulo.

Fundada há 175 anos em Grasse, o berço da perfumaria francesa, a companhia fornece matérias-primas para casas como Chanel e Dior e desenvolve fragrâncias completas para centenas de marcas ao redor do mundo. Se em 2025 faturou 843 milhões de euros, pretende chegar a casa do 1,2 bilhão até o fim da década. O Brasil deve ter papel importante nessa expansão: a meta é crescer entre 10% e 15% ao ano no país e dobrar o tamanho da operação latino-americana.

“Nos últimos dez anos, houve um boom da perfumaria no Brasil. O país se tornou prioridade para nós”, afirma Arthur Le Tourneur d’Ison, chief growth officer da companhia e representante da quinta geração da família Maubert, fundadora da empresa. No total, a multinacional tem capacidade de produzir em solo brasileiro 1.500 toneladas em aromas e 2.500 toneladas em fragrâncias.

A Robertet atua nos bastidores da indústria. Em alguns casos, é a que abastece as maisons de insumos premium para seus perfumes (pense em um óleo de rosas para a Chanel, por exemplo); em outros, desenvolve fórmulas completas por meio de uma equipe de mais de 40 perfumistas espalhados globalmente. No portfólio, os clientes vão de Chloé à Thierry Mugler e Byredo. Ao longo das décadas, construiu uma especialidade em ingredientes naturais e resistiu, desde os anos 1970, ao avanço das moléculas sintéticas derivadas do petróleo.

“A família preferiu continuar fazendo aquilo que sabia fazer melhor: a matéria orgânica”, explica Jérôme Bruhat, CEO da Robertet desde 2022, vindo de três décadas na L’oréal. “Nos últimos 10 anos, vimos os consumidores voltarem em busca de qualidade e ingredientes naturais.”

DivulgaçãoJérôme Bruhat, CEO da Robertet, veio a São Paulo em junho para inaugurar o novo centro criativo

O país onde perfume faz parte da rotina

Um dos sucessos recentes da empresa tem forte conexão com o lifestyle brasileiro: foi a Robertet quem assinou a fragrância do Bum Bum Cream, da Sol de Janeiro. Embora esteja presente no Brasil há 25 anos, foi na última década que o mercado local ganhou prioridade estratégica.

“O Brasil está entre os três maiores mercados de perfumaria fina do mundo”, diz Le Tourneur.

Enquanto em muitos países o perfume é um produto ocasional, no Brasil ele faz parte do cotidiano e se espalha por diferentes categorias, do sabonete ao shampoo e aos produtos para casa.

DivulgaçãoA Robertet desenvolveu as fragrâncias dos cremes e mists da Sol de Janeiro, inspirada no lifestyle brasileiro

“O consumidor brasileiro é muito sofisticado e conhece profundamente os produtos. Esse nível de maturidade não existe em muitos mercados”, diz o CEO.

Segundo ele, Brasil e Estados Unidos são hoje os países mais férteis para o surgimento de novas marcas. “Há muitos nichos e sempre existe um empreendedor por trás deles. Isso cria um ambiente extraordinário para nós.”

Essa mudança também transformou a forma de consumir fragrâncias. O perfume deixou de ser um único frasco na prateleira do banheiro e se aproxima de um ‘guarda-roupa olfativo’. “Minha mãe tinha um perfume para o verão e outro para o inverno”, conta Bruhat. “Hoje, uma consumidora jovem pode ter 10 ou 12 fragrâncias e escolher uma diferente dependendo do humor ou da ocasião.”

O movimento abriu espaço tanto para perfumes de entrada quanto para criações de luxo vendidas por centenas de euros. Hair mists, layering (a combinação de diferentes fragrâncias) e marcas de nicho ampliaram ainda mais o mercado.

Entre as tendências atuais, uma das mais fortes vem do Oriente Médio. “Para mim, a grande revolução dos últimos cinco anos foi a ascensão das notas franco-orientais”, afirma Le Tourneur. “Notas intensas, com oud, açafrão, ou matérias-primas muito marcantes.”

DivulgaçãoPerfumes árabes vivem febre no Brasil e no mundo; no nosso mercado, as buscas pelo termo cresceram 24 vezes nos últimos dois anos, de acordo com o Google Trends

Bruhat observa que até as grandes maisons mudaram sua forma de pensar: “Antes, as fragrâncias eram mais discretas e evoluíam ao longo do dia. Hoje, as grandes casas querem que o perfume seja reconhecido imediatamente.”

As próximas fronteiras das fragrâncias

Para a Robertet, o futuro da perfumaria será definido pela combinação entre tecnologia e emoção. “Os dois campos que estão mudando o jogo são a inteligência artificial e as neurociências“, diz Bruhat.

Segundo ele, a IA permite acelerar e ampliar a criatividade dos perfumistas. Já as neurociências ajudam a entender as emoções provocadas por um aroma.

“Hoje conseguimos estudar atividade cerebral, frequência cardíaca e temperatura da pele para compreender quais emoções uma fragrância desperta. É algo que está começando, mas que vai transformar a indústria.”

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