Estávamos fazendo as primeiras feiras internacionais quando participamos da Zona Maco (Mexico Arte Contemporáneo). E foi um fiasco, pois devido a uma greve, ninguém conseguia chegar à feira. Sem público, havia bastante tempo para trocas com outros marchands e conhecer artistas das galerias vizinhas. Foi daí que nasceu a ideia – e começou a se formar a rede de parcerias com galerias estrangeiras – que daria origem ao Roesler Hotel. E agora vamos para aquela que consideramos a 30ª edição!
O intuito era criar um projeto de experimentação e intercâmbio: convidar artistas de fora do Brasil, que eram representados por essas galerias que eu tinha conhecido na Cidade do México, para virem ao país. Quando comecei minha carreira de galerista representando José Cláudio no Recife, em 1976, meu desejo era unir os Brasis. Eu sempre busquei promover a conexão, o intercâmbio. E, lá no México, pensei justamente isso: em fazer uma ligação dos estrangeiros com o Brasil.
Eu me perguntava: o que acontece quando um artista vem para o Brasil? Conhece outros artistas, conhece a cidade para mostrar, de alguma forma, o seu país, a sua sociedade. O que ele deixa aqui? O que leva com ele? Será que isso poderia abrir caminho para a galeria também em outros lugares? Então, em 2004, começamos essa experiência: o Roesler Hotel, um programa destinado a promover o intercâmbio entre curadores e artistas estrangeiros e brasileiros, e, consequentemente, um diálogo com outras galerias.
O propósito era funcionar como uma ponte: trazer o artista a São Paulo, possibilitar seu contato com a cidade e, em contrapartida, apresentar no espaço da galeria nomes e obras ainda pouco conhecidos do público brasileiro.

O programa ganhou mais projeção e realmente se consolidou com a expansão da área física da galeria em 2012, quando duplicamos a área expositiva e foi inaugurado o Roesler Hotel 20: Lo bueno y lo malo, exposição coletiva com curadoria de Patrick Charpenel, então diretor da Colección/Fundación Jumex. Entre os artistas participantes estavam Alejandro Cesarco, o coletivo Claire Fontaine, Danh Vo, Fernando Ortega e Moyra Davey, entre outros.
A edição seguinte foi o Roesler Hotel 21: Buzz, exposição coletiva dedicada aos desdobramentos e às convergências da Op Art, com curadoria de Vik Muniz. A mostra reuniu mais de 80 obras de mais de 60 artistas como Abraham Palatnik, Bridget Riley, Fred Tomaselli, Gyula Kosice, Iván Navarro, Josef Albers, Marcel Duchamp, além de muitos outros.
Em 2013, com curadoria do belga Tim Goossens, a 23ª edição do Roesler Hotel — Dark Paradise — apresentou uma versão expandida da exposição originalmente concebida para a Clocktower Gallery, em Nova York. Em 2019, o Roesler Hotel 29 — Reflexões sobre espaço e tempo — teve curadoria de Agnaldo Farias e foi realizada em parceria com a galeria francesa Kamel Mennour, trazendo muitos artistas nunca antes expostos no Brasil, como Alicja Kwade e Hicham Berrada.

Ao longo dos anos organizamos mostras individuais e coletivas reunindo importantes artistas contemporâneos, emergentes e consagrados — como Alberto Baraya, Sutapa Biswas e Melanie Smith — e curadoria assinadas por nomes como Estrellita Brodsky, Mathieu Poirier, Moacir dos Anjos, Victoria Noorthoorn e José Roca. E assim chegamos à 30ª edição do Roesler Hotel — que, como sempre, acontece na galeria de São Paulo –, com curadoria de Magalí Arriola. Mexicana, ela foi diretora do Museo Tamayo, na Cidade do México. Descobrimos também que a Magalí já tinha um texto publicado num catálogo impresso da galeria, da exposição de Niki de Saint Phalle, em 1998. A vida dá essas voltas!
A mostra, intitulada Speaking in Tongues, parte da imagem do oráculo: podemos formular perguntas como se o destino fosse singular e legível, quando, na verdade, sabemos que sempre há espaço para a interpretação. O oráculo fala “em línguas” e, com a mostra, Magali reativa a especulação, o sonho e outras formas de subjetividade como estratégias para resistir à urgência de cristalizar o futuro.
Magalí reúne obras que falam por meio de criaturas reais e imaginárias, figuras mitológicas — a coruja, a serpente, um gato preto, ursinhos de pelúcia. A seleção atravessa gerações e geografias: de Antonio Dias e Carlito Carvalhosa a Dan Graham, passando por artistas mais jovens como Carlos Bunga, Tania Pérez Córdova, Jonathan Torres e Adriano Amaral. Há um trabalho de Petrit Halilaj feito especialmente para mim, em 2020 — um gesto que me tocou muito.

O Brasil exerce enorme fascínio nos artistas, o que facilita a aceitação de convites para expor. Mas o Roesler Hotel nunca foi apenas sobre trazer uma exposição de fora. A intenção era fazer com que artistas e curadores passassem algum tempo aqui, conhecessem a cidade, estabelecessem relações e criassem novas redes.
Talvez seja essa a permanência mais bonita do projeto. As exposições terminam, as obras seguem outros caminhos, mas os encontros continuam produzindo desdobramentos. Trinta edições depois, o Roesler Hotel ainda é aquilo que imaginei quando voltei do México: uma ponte.
*A exposição com curadoria de Magalí Arriola abre neste sábado, dia 29 de agosto; em paralelo, é inaugurada a primeira individual de Sheila Hicks na galeria.
*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.