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A Revolução da Presença: por Que os Offline Clubs Viraram o Novo Luxo Urbano

Em um mundo saturado pela hiperconexão e pela presença pela metade, resgatar o valor do encontro sem telas tornou-se o mais recente manifesto cultural e social

4 min

A gente passa o dia conectado e, ainda assim, anda cada vez mais difícil se conectar de verdade.

Não é preciso consultar grandes pesquisas para perceber essa mudança. Basta observar a dinâmica de uma mesa de restaurante, a atmosfera de uma festa ou qualquer encontro entre amigos. O celular está ali, onipresente, fincado no centro da experiência social. A conversa flutua enquanto respondemos a uma mensagem, checamos uma notificação, registramos o momento para as redes ou acompanhamos, em tempo real, o que outras pessoas estão fazendo em algum outro lugar.

A tecnologia expandiu nossas redes, encurtou distâncias e viabilizou encontros inalcançáveis no passado. Mas também cobra um preço alto: criou uma espécie de presença pela metade. Estamos simultaneamente em múltiplos lugares e, por isso mesmo, raramente habitamos por inteiro o espaço que escolhemos estar.

Essa sensação de saturação digital ajuda a explicar a ascensão global dos chamados offline clubs. Nascido em capitais cosmopolitas como Amsterdã, Nova York e Londres, o movimento reflete uma necessidade urgente da cultura contemporânea: trocar o scroll infinito por algumas horas de convivência real, analógica e sem interferências digitais. O que parecia uma excentricidade transformou-se em um luxo raro — o luxo da atenção plena.

Em São Paulo, essa tendência ganhou um formato sofisticado com o on,live, sarau idealizado pela chef e comunicadora Gigi Vilela ao lado de Lourenço Bustani e Victor Cremasco, sócios da consultoria Mandalah.

A proposta une literatura, música, alta gastronomia e debates provocativos sobre temas contemporâneos, reunindo um público de cerca de 50 pessoas por edição. A regra de ouro é clara e inegociável logo na entrada: os celulares são guardados em bolsas lacradas ou caixas especiais, permanecendo inacessíveis até o fim da experiência.

Bruno Maxon,live desconstrói a ideia de estar “online”

O próprio nome carrega o conceito do projeto. O on,live desconstrói a ideia de estar “online” para direcionar o foco ao que acontece ao vivo. A vírgula no nome não é um mero detalhe estético: ela simboliza uma pausa — um respiro necessário para pensar, falar e ouvir de verdade, como define Victor Cremasco.

O projeto, que começou organicamente em reuniões intimistas na casa de amigos, consolidou-se em um novo patamar quando o time da Mandalah somou forças à iniciativa. A primeira edição nesse novo formato ocupou o espaço Janela, em Pinheiros, sob o tema “Relações Humanas”, com abertura da atriz Denise Fraga e uma plateia diversa composta por artistas, empreendedores, jornalistas e lideranças criativas.

Na edição recente, os participantes debruçaram-se sobre uma provocação provocativa e necessária: “A arte salva. E quem salva a arte?”. Um time multidisciplinar de escritores, músicos, atores, cineastas, artistas plásticos, curadores e comunicadores reuniu-se para debater o papel e o resgate da arte nos dias de hoje.

Para além do charme do sarau, o que realmente chama a atenção é o fato de precisarmos institucionalizar e criar espaços intencionais para algo que costumava ser a matéria-prima natural da vida em sociedade: conversar sem interrupções, conhecer alguém sem a prévia checagem de um perfil no Instagram e ouvir sem dividir o olhar com o brilho de uma tela.

A questão central não é demonizar os smartphones nem transformar a desconexão em mais um slogan ou tendência fútil de comportamento. Nossas vidas e nossos negócios passam pelas telas e continuarão passando. O ponto fundamental é avaliar o quanto o mundo digital avançou sobre os espaços que antes pertenciam exclusivamente ao afeto, ao debate e ao encontro genuíno.

Bruno MaxA proposta une literatura, música, alta gastronomia

Nunca tivemos tanto acesso e visibilidade sobre a rotina alheia. Sabemos os destinos das viagens, o cardápio do almoço, os ambientes que frequentam e até o posicionamento político de pessoas a milhares de quilômetros. Ao mesmo tempo, os índices de solidão e isolamento atingem recordes mundiais.

Por isso, guardar o celular por algumas horas deixou de ser apenas uma regra curiosa de evento. Virou o ativo mais valioso da experiência: a oportunidade de estar, finalmente, 100% presente.

*Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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