No dia 5 de julho, Bruna Ianhez compartilhou com seus mais de 2 milhões de seguidores o maior desafio da sua vida: correr uma das provas mais difíceis da América do Norte. Desgaste físico, bolhas nos pés, frio intenso e até alucinações por causa da privação do sono fizeram parte da jornada da influenciadora digital, que se tornou a primeira e única brasileira a completar a Quebec Mega Trail, ultramaratona de 135 km disputada no Canadá.
Foram anos de preparo para lidar com trajetos longos, somados a sete meses de treino específico para enfrentar os terrenos sinuosos do Quebec. A largada aconteceu na noite de sexta-feira (3), e a linha de chegada foi cruzada 37 horas depois, carregando nas costas a bandeira do Brasil.
“Essa prova me mostrou que os nossos limites são muito maiores do que imaginamos”, conta a influenciadora em entrevista a ForbesLife.
“Meu papel é incentivar aquela pessoa que às vezes está no sedentarismo ou com depressão a dar o primeiro passo. Quero que as pessoas sintam essa energia boa e conheçam o poder transformador da corrida”, explica a corredora, que agora é também embaixadora oficial da Fila.
A jornada até o km 139
A Quebec Mega Trail integra o circuito internacional World Trail Majors e é considerada uma das competições de trail running mais desafiadoras do mundo, devido ao frio intenso, terrenos acidentados e cerca de 80% do percurso feito sobre pedras, lama e travessias. Em um dos momentos mais difíceis da trilha, Bruna conta que parou em um posto de recuperação e, ao encontrar o marido, perdeu as forças.
“Eu desabei e comecei a chorar porque ainda faltavam quase 60 quilômetros e eu já não tinha mais força. O físico tinha ido embora, o que restava era querer muito terminar. Ele disse: ‘Você vai conseguir’”. Daí em diante, ela mudou o foco: não pensava no quanto ainda faltava para a linha de chegada, mas sim para o próximo posto. “Um passo de cada vez”.

Em provas de longa distância, é comum ter locais estratégicos de apoio e suporte para corredores e equipes, que disponibilizam banheiros, água, isotônicos e atendimentos básicos. O problema é a distância entre eles. No caso de Quebec, são, ao todo, 10 postos a cada 13km, em média, um do outro.
Bruna revela também que os desafios podem ser ainda maiores para as mulheres, que além de terem uma fisiologia diferente, podem enfrentar questões como dores do ciclo menstrual, indisposição ou inchaço. Na edição deste ano, elas eram só 41 dos 315 competidores do Quebec Mega Trail.
A privação de sono também é um fator crítico. Com mais de 100 quilômetros percorridos, a influenciadora conta que começou a ter alucinações, vendo rostos onde não havia ninguém.
Foi na natureza e nas pessoas ao seu redor que ela encontrou motivação para continuar: um arco-íris ajudou a liberar a tensão e o medo do desafio logo no início da prova. Já de madrugada, após 75 quilômetros percorridos, ela percebeu a presença de uma aurora boreal no céu, fenômeno raro para a época do ano naquela região do Canadá.
“Muitos anos da minha vida eu via o esporte como performance e isso acabava impactando minha vida também. Hoje eu entendi que existe um equilíbrio que é muito mais saudável. Você aprende a não olhar para o problema e o medo, mas a olhar para outras coisas que podem te trazer paz de espírito, bons sentimentos. E a corrida é muito disso. Se você pensa só no negativo, aquilo te consome, mas se você olha para a paisagem e para as pessoas ao redor, aquilo muda o seu dia e retifica o seu objetivo”, afirma.
O mantra de Bruna é “1% melhor todos os dias”, algo que ela carrega consigo para a vida, e que compartilha com seus seguidores na plataforma #TeamBru, onde incentiva a prática de atividades físicas e a adoção de hábitos saudáveis.

Da engenharia às pistas de corrida
A jornada da ultramaratonista nem sempre foi óbvia. Formada em Engenharia de Produção e pós-graduada em Gestão de Negócios, Bruna trabalhou na indústria metalúrgica, atuou na China por um período e depois assumiu a empresa da família ao lado do pai, ficando na área por 14 anos.
“No meio disso, eu sempre compartilhei minha rotina de treinos nas redes sociais: compartilhava o que comia, o que usava, como treinava. Quando eu recebi uma mensagem de alguém falando que o meu conteúdo transformou o dia daquela pessoa, aquilo ali me trouxe um significado muito grande”, conta. Na época, seu foco era o crossfit, mas com o tempo foi migrando para a corrida.
Quando aquilo começou a ganhar força, ela decidiu se dedicar inteiramente às corridas. “Eu era engenheira, mas não estava mais feliz, eu não estava mais rendendo no meu trabalho”, explica. Para ela, o que separa as pessoas que realmente mudam de vida das que se sentem presas em uma rotina é o medo do que pode acontecer.
“Eu tive esse medo também. Mas a sensação de você dormir, colocar a cabeça no travesseiro sabendo que está realizado, não tem preço”, afirma.

Uma das maiores missões da influenciadora é inspirar mulheres a serem autênticas onde estiverem, reflexo de sua jornada sempre cercada de homens. A sensação de precisar provar sua capacidade, segundo Bruna, a acompanha desde o início da trajetória profissional, da faculdade de Engenharia com só quatro mulheres na turma a equipes profissionais compostas quase exclusivamente por homens.
Nas ultramaratonas, o cenário se repete: de acordo com a atleta, as mulheres costumam representar cerca de 20% dos inscritos. “Hoje, a maioria das provas são predominantemente masculinas, mas as mulheres estão ganhando um espaço incrível. A mulherada se arruma, coloca lookinho, acessório no cabelo. Estamos vindo cada vez com mais força. As mulheres têm que entender que a gente pode, sim, ser forte e ser sensível ao mesmo tempo, sem perder o nosso valor”.