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Maratona de Berlim: Cruzar a Linha de Chegada Foi Só Parte da Conquista

A participação na prova reforçou a importância da atividade física na prevenção de doenças e como homenagem aos pacientes

4 min

O último dia 27 de setembro foi, com certeza, um dos dias mais marcantes da minha vida. Completei os 42,2 km da Maratona de Berlim com muita força e alegria, colhendo os resultados de meses de treinamento, com muito suor e propósito.

A ideia de correr essa maratona nasceu de três motivos principais. O primeiro foi levantar a bandeira do esporte como uma das mais potentes ferramentas de prevenção do câncer e de outras doenças.

Um estudo recente ajuda a dimensionar a importância de colocar o corpo em movimento. Pesquisadores europeus buscaram compreender se atividades físicas de diferentes intensidades, leve, moderada e vigorosa, estavam associadas de maneira distinta ao risco de morte. Eles também quiseram entender o que acontecia quando uma parte do tempo dedicado a atividades de menor intensidade era substituída por atividades mais intensas, mantendo constante o tempo total de atividade.

Para isso, analisaram dados de mais de 147 mil pessoas entre 40 e 74 anos, acompanhadas por quase oito anos. Nesse período, foram registradas 5.545 mortes. Os resultados mostraram que, em comparação com pessoas que não praticavam atividade física, aquelas que faziam 150 minutos semanais de atividade moderada apresentavam uma associação com risco de mortalidade 30% menor.

O benefício também apareceu entre quem praticava atividades de menor intensidade. E um dado chama atenção: apenas 12 minutos semanais de atividade vigorosa já estiveram associados a menor mortalidade. E a substituição de 15 a 60 minutos semanais de atividade de intensidade leve ou moderada por atividade vigorosa esteve associada a uma redução de 18% a 30% no risco de mortalidade.

As informações são interessantes, mas, além de estabelecer uma meta de minutos ou de intensidade, esses resultados reforçam uma mensagem em que acredito profundamente, que o movimento importa. E cada pessoa pode encontrar, dentro de suas possibilidades e de seus limites, uma maneira de se manter ativa. Não é preciso correr uma maratona para colher os benefícios da atividade física.

Essa constatação também ajuda a explicar o segundo motivo que me levou a participar da prova: mostrar que o esporte pode fazer parte da jornada de quem enfrenta o câncer. A atividade física pode contribuir para a saúde, para a qualidade de vida e para os resultados do tratamento, sempre respeitando as condições e os limites de cada paciente. Não existe uma única forma de enfrentar essa jornada, assim como não existe uma única forma de praticar esporte.

O terceiro motivo foi homenagear os pacientes que correm uma maratona todos os dias de suas vidas. Indivíduos que enfrentam desafios enormes, muitas vezes silenciosos, e que nos ensinam, com suas histórias, sobre força, resiliência e superação. São pessoas que nos inspiram e nos dão um exemplo profundo de coragem.

Por isso, quando cruzei a linha de chegada em Berlim, a medalha tinha um significado que ia muito além da conquista esportiva. Ela era a consequência de um processo. Representava meses de preparação, disciplina, escolhas, renúncias, limites respeitados e pessoas que estiveram ao meu lado durante toda a jornada.

Talvez seja justamente aí que a maratona se encontre com a vida e, de uma maneira muito especial, com a trajetória de quem enfrenta um câncer. Há um tempo para cada etapa. É preciso respeitar os limites do corpo, estabelecer prioridades, entender que nem todos os dias serão iguais e reconhecer que o caminho pode ser tão importante quanto a chegada. É preciso contar com uma equipe de apoio, confiar nos profissionais que estão ao nosso lado e seguir, um passo de cada vez.

E, acima de tudo, é preciso compartilhar as alegrias das pequenas vitórias. Nem toda conquista precisa ser uma medalha. O que importa é reconhecer o significado de cada uma delas e tudo o que foi necessário para chegar até ali.

*Dr. Fernando Maluf é médico oncologista, cofundador do Instituto Vencer o Câncer e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Santa Casa de de São Paulo.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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