Miles Davis (1926-1991) inventou o conceito de cool; tanto que foi ele a anunciar seu nascimento, com o álbum Birth of the Cool (1957). O trompetista e compositor mudou o curso da música ao desafiar convenções e redefinir o que o jazz poderia ser, com improvisação modal e uma sonoridade que ia na contramão da intensidade frenética do jazz popular.
Sua influência não só alcançou gerações de artistas pelo mundo, como transformou completamente a atmosfera dos clubes com músicas mais leves e líricas. O som acelerado deu lugar à tensão criada pelo silêncio e pelas notas esparsas, estilo que ficou conhecido como cool jazz, em sua homenagem.
A discografia de Davis é a própria linha do tempo da evolução do gênero, indo de Birth of the Cool e Kind of Blue (o álbum de jazz mais vendido de todos os tempos) até o jazz fusion, com a inclusão de instrumentos elétricos – estando In a Silent Way e Bitches Brew na linha de frente.
Mas, muito além disso, Davis se consolidou como um ícone da moda, o que, para ele, era uma forma de expressão tão poderosa quanto a música. Vestindo roupas de pele de cobra ao volante de carros esportivos luxuosos, ele tinha uma missão: atrair todos os olhares.

De alfaiataria italiana a casacos de franja, Davis é antônimo de minimalismo
O charme indistinguível de Davis reside em sua singularidade. Quem se arriscar a reproduzir seus outfits precisa ter em mente que não se tratava apenas de peças de roupa, mas de um estilo de vida que girava em torno disso: seu apartamento, seus carros, relógios e penteados.
Davis contou em sua autobiografia que herdou seu gosto pela moda da mãe, que sempre usou e abusou de chapéus, casacos e diamantes glamourosos. Mas, mesmo influenciado desde a infância, ele optou por construir sua identidade visual ao passo que desenvolvia seu estilo musical.
No início da carreira, na década de 40, Davis se inspirava em um visual inglês moderno: ternos da Brooks Brothers, camisas de gola alta abotoadas e butcher boy shoes. Mais tarde, seu estilo evoluiria para blazers, gravatas de tricô e mocassins Bass Weejuns, em uma elegância descontraída que viria a ser conhecida como Ivy League.

No final da década de 50, ele se tornou ícone da moda na Inglaterra, após o lançamento do álbum Milestones. Na capa do disco, Davis aparece usando uma camisa verde de botões, modelo que logo se tornou febre entre homens “cool”, incluindo Charlie Watts, que iniciava sua carreira nos Rolling Stones.

Mas uma das associações mais fortes aconteceu durante a era Bitches Brew (1970), que desbravava um novo modelo boêmio extravagante. As composições eram marcadas por camisas indianas largas, peças de pele de cobra (feitas pela estilista Andrea Aranow), calças de camurça superjustas (feitas por Stephen Burrows) e botas de cano alto importadas da Suécia. Misturas entre diferentes estampas, cores e tecidos também eram recorrentes.
Os suéteres justos e casacos com franjas, concebidos por Burrows e Bobby Breslau, jamais poderiam passar despercebidos – uma variedade de cores marcante.

Seu estilo era único não apenas pela combinação, mas pela confecção: Miles imaginava muitas das próprias roupas e pedia que mãos talentosas lhes dessem vida.
Foi na última década de sua vida que ele descobriu marcas e grifes de estilistas asiáticos, como Issey Miyake, Yohji Yamamoto e Kohshin Satoh. Além de usar as roupas em ensaios e turnês pelo Japão, Miles chegou a desfilar em Nova York para a coleção de Kohshin Satoh, ao lado de Andy Warhol, em 1987.

E, se estamos falando de marca registrada, não tem como deixar de fora os óculos de sol. Foi na década de 70 que Davis começou a apostar em modelos grandes e vanguardistas, com armações nada discretas que acompanhavam seu estilo musical descolado.
Ele adotou armações de designers como Philippe Chevallier – modelos tartaruga com lentes grandes – e Jean Paul Gaultier, que às vezes pareciam até óculos de proteção de tão grandes. Na sala de concertos Zénith, em 1986, por exemplo, ele vestiu óculos futuristas da Porsche Design.

A paixão pelos relógios Breitling
Antes que relógios funcionais se tornassem símbolos de estilo, Davis já usava o Breitling Navitimer ref. 806 Mk5, então considerado um instrumento profissional para a aviação. Uma das poucas constantes em seu visual, o modelo aparece em registros do músico desde o final dos anos 1960 até perto de sua morte, em 1991.

Para celebrar o centenário de Davis, em maio de 2026, a Breitling apresentou o Navitimer B09 Chronograph 41 Tribute to Miles Davis, edição limitada que reproduz o relógio do trompetista. O estojo, inspirado nos tradicionais de trompete, tem revestimento azul em referência ao álbum Kind of Blue e traz, na parte interna da tampa, um disco com a inscrição “Miles Davis Edition”.

Mesmo 35 anos após sua morte, Davis ainda vive. Não só através de sua música, que saiu dos discos de vinil para os fones de ouvido, mas de uma estética que segue inspirando estilistas, designers e artistas.