Quando decidiu trocar o futebol pelo esqui alpino, Lucas Pinheiro Braathen (Forbes Under 30) já tinha em mente que seria o melhor esquiador. Ele tinha apenas 9 anos quando cedeu aos pedidos do pai para dar uma chance ao esporte nas montanhas da Noruega, onde cresceu.
Ali, sobre a neve e o clima ameno, ele conseguiu encontrar uma forma de fazer coexistir dentro de si sua identidade brasileira – por parte da mãe, Alessandra – e norueguesa – por parte do pai, Bjorn. “Nas montanhas foi a primeira vez em que me senti no lugar certo”, diz.
Vestindo a camisa do Brasil, Braathen fez história ao conquistar a primeira medalha de ouro para o país nos Jogos Olímpicos de Inverno, vencendo a prova de slalom gigante em Milão-Cortina 2026. Ele é considerado o primeiro sul-americano a conquistar uma medalha de ouro no evento multidesportivo.
Mas, determinado, Lucas não pretende parar por aqui. Com horas extensas de treino diário, ele está disposto a conquistar sua próxima barreira: se tornar campeão geral da Copa do Mundo. “É a próxima oportunidade para eu escrever história nesse esporte pelo Brasil”.
E está se preparando para isso. Atualmente no Rio de Janeiro (bem longe das montanhas), Braathen garante que está mais focado do que nunca. “Eu busco crescimento em muitos lugares fora das pistas, e o Brasil oferece exatamente isso. Na preparação para a pré-temporada, eu pratico muitas atividades para crescer como esquiador, mas também como pessoa. Eu estou pedalando, correndo, surfando, indo à academia e andando de patins”, contou em coletiva de imprensa realizada em agosto. O atleta vinha treinando nas instalações do Comitê Olímpico, na Barra da Tijuca.
E não só de esqui vive o esquiador. Atividades como acrobacias, dança, slackline, bicicleta e monociclo oferecem atributos de equilíbrio, coordenação motora e orientação espacial, que são tão valiosos no seu nicho.
Seu gosto pela dança vem de suas primeiras fontes de inspiração: em casa, onde cresceu envolto em música. Desde criança, criava coreografias para apresentar para a família, como uma forma de se expressar – a mesma que viria a encontrar no futebol, durante suas passagens pelo Brasil, e depois no esqui.
Entre as sessões de treinamento, que levam de duas a quatro horas, Braathen preenche seu tempo em reuniões e projetos criativos e comerciais – ele é fundador da marca de skincare Octo . “Eu tento achar uma horinha ou duas para minha vida pessoal, que eu quase não tenho durante a temporada de competições”, conta.

Da Noruega para a América Latina
Se o formato do esqui alpino em si é simples, o segredo está na velocidade. “É a Fórmula 1 na neve”, descreve.
A diferença entre as disciplinas – Slalom, Slalom Gigante, Super G e Downhill – está no tamanho das curvas e na distância entre as bandeiras. Essa complexidade de elementos exige que Braathen esteja preparado para diferentes tipos de climas, cenários, relevos e formações de neve.
Para isso, durante sua estadia na América do Sul, ele mudou sua base de preparação na neve para alguns países vizinhos, como a Argentina, em Ushuaia. “Estamos sempre buscando muitos elementos e diferenças no nosso dia a dia durante a pré-temporada. No Ushuaia argentino, chegamos a 400 metros de altitude e, por causa da proximidade com o mar, o ar é muito úmido. Isso tem um efeito bem particular na neve, fica escorregadia”. Outros fatores incluem também a baixa iluminação, que, segundo Braathen, é um dos maiores desafios para os atletas na Copa do Mundo.
A próxima parada dele é no Chile, em Valle Nevado e Portillo, para buscar o contrário do que encontrou na Argentina: mais de 3 mil metros de altitude, uma neve muito mais seca e sol direto sobre a montanha. Esse tipo de pista, conta, é considerado agressivo: a neve responde muito mais rápido do que quando está escorregadia.
“A demanda física é muito pesada para esquiar nessa altura. A demanda de respiração não dá para comparar”, conta. “Isso é um aspecto do crescimento físico que também estamos buscando, porque a primeira competição na Áustria é em um glaciar, a 3 mil metros de altitude”, conta.
Além disso, as pistas no Chile são muito maiores do que na Argentina, o que está de acordo com os objetivos de Braathen de se tornar o campeão geral da Copa do Mundo. “O Chile oferece um terreno ótimo para preparação na disciplina de Super G, a terceira disciplina, que eu vou começar a estudar mais”.
Um dia de treino com Lucas Braathen
Sua estrutura de planejamento diário é pensada a longo prazo. “Não estou focando apenas nos Jogos Olímpicos, mas no atleta que eu sou hoje e no que eu quero me tornar amanhã, a caminho de chegar aos Alpes Franceses em 2030 e ganhar mais ouro para o Brasil”.

Sua rotina de treino é muito dependente da época do ano. Durante a preparação para a pré-temporada no Chile, Braathen começa o dia entre 5h30 e 6h da manhã. A primeira coisa que faz é tomar café da manhã e seguir para o yoga. “Me permite deixar todas as responsabilidades e focar 100% em esquiar”.
É só então que começa a subida para a montanha, onde fica por cerca de 2 ou 3 horas. Ao todo, são três treinadores e técnicos de esqui austríacos, além de uma fisioterapeuta.
O almoço é planejado pela iraquiana Thumn Al-Rawe, sua “treinadora de cozinha”, como Braathen chama. Normalmente, ele compartilha das mesmas refeições da equipe e gosta de experimentar coisas novas. Em dias de provas, porém, opta por comidas menos pesadas, que levam em conta fatores como altitude e clima.
Após o almoço, começa a segunda sessão de treinamento físico. Todos os dias, Braathen é acompanhado por um serviceman, que cuida do equipamento e das roupas para esquiar. “Junto a uma equipe completa, fazemos uma análise de como foi a experiência com o novo equipamento, quais as mudanças que queremos levar para a montanha no próximo dia. Também analisamos o jeito que eu estava esquiando nesse dia, para alinhar os objetivos”.
Após o jantar, Braathen adota uma regra de não fazer business e não atender a ligações. Gosta de ficar sozinho na calmaria, ou então de falar com a família e a namorada. Depois disso, é só dormir. “É um dia completamente cheio, do início até o fim, tudo servindo um propósito de crescimento.”
Para ficar de olho na próxima temporada
Mesmo depois de se tornar campeão da Copa do Mundo em duas disciplinas e levar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, Braathen ainda tem ambições para sua carreira. Ele quer se consolidar na terceira disciplina, o Super G, e se tornar campeão geral da Copa do Mundo.
“Agora é a hora de levar o Brasil para o mundo e representar a nossa diversidade; que os brasileiros tenham o poder de conquistar qualquer coisa”, finaliza.
Acompanhe o calendário da próxima temporada de esqui alpino.
- Copa do Mundo: com etapas na Europa e na América do Norte, de outubro de 2026 a março de 2027.
- Campeonato Mundial: Crans-Montana, na Suíça, entre 1º e 14 de fevereiro de 2027.
- Finais da Copa do Mundo: Sun Valley, nos Estados Unidos, entre 18 e 25 de março de 2027.