No momento em que você pisa no Orient Express, é rapidamente transportado para outro mundo. Mas esta não é uma jornada de escapismo; pelo contrário, é uma experiência onde você pode ver e vivenciar o mundo a partir de um novo ponto de vista.
O Orient Express foi idealizado originalmente em 1882 por Georges Nagelmackers, filho de um banqueiro belga que tinha uma vasta rede de contatos pelo mundo. Ele começou a convidar esses amigos e confidentes para a viagem de trem – a primeira do gênero -, conhecida na época como o “trem de luxo relâmpago”.
Isso transformou as viagens de trem de algo puramente utilitário em um refúgio de luxo, fazendo do trajeto uma parte da própria viagem. O formato permitia aos hóspedes dormir a bordo em cabines confortáveis e opulentas, e saborear pratos preparados por chefs renomados harmonizados com vinhos escolhidos por um sommelier, inaugurando um estilo de viagem totalmente novo para a época.

Esse tipo de viagem de trem teve seu auge durante a década de 1930. Curiosamente, um dos vagões do Orient Express – mais precisamente o Vagão de Compiègne – foi o palco da assinatura de dois armistícios. O Armistício de 11 de novembro de 1918, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, e o segundo acordo de armistício, em 22 de junho de 1940, que resultou na rendição da França na Segunda Guerra Mundial. Pode-se argumentar que, dentro do conforto e da opulência desses vagões, a ideia de dar continuidade a uma guerra realmente perde o sentido.
Mas, à medida que a tecnologia de transporte avançou e novos meios de locomoção mais rápidos assumiram o controle, a era passada dos trens mais lentos e românticos pareceu desaparecer junto com a guerra.
O Resurgimento do Slow Travel
Hoje, no entanto, o slow travel está ressurgindo como uma forma de vivenciar o mundo e saboreá-lo até a última gota. Enquanto inúmeros conflitos assolam o mundo, estar a bordo do Orient Express La Dolce Vita não é apenas uma experiência de luxo bem-vinda, mas algo que os viajantes experientes estão desejando. Tudo começa no Hotel Minerva, para onde os hóspedes são levados no dia anterior ao início da viagem de trem. Essa também é uma maneira de explorar a gastronomia das regiões da Itália de um jeito diferente.
A exemplo das refeições a bordo, todas contam com a curadoria do chef três estrelas Michelin, Heinz Beck. Sua equipe a bordo prepara todas as refeições servidas aos hóspedes. O café da manhã traz pães doces quentes, croissants, geleias e méis inspirados nos destinos que o hóspede irá visitar. Quando não estão em terra, os almoços e jantares são totalmente inspirados nos ingredientes e perfis de sabor das cidades pelas quais passarão, aprofundando a experiência personalizada em direção ao destino.
De Roma a Veneza, os hóspedes podem cruzar as rotas mais cênicas, observando como a morfologia da paisagem italiana muda ao longo da península. Da costa da Toscana ao litoral da Ligúria e, finalmente, à primeira parada: Veneza.
A Experiência Veneziana

Antes de seguir para o jantar na ilha principal de Veneza, existem algumas maneiras de aproveitar aquelas horas preciosas em terra. Primeiro, um aperitivo de cicchetti – pequenos petiscos de antepasto servidos antes do jantar que combinam perfeitamente com uma taça de Valpolicella, feito com um corte das uvas Corvina Veronese, Rondinella e Molinara. Um clássico baccalà mantecato sobre um pedaço de polenta grelhada ou frita, ou um crostini com ovo e aliche, acompanhado por uma taça do famoso Valpolicella na Cantina Do Spade, proporciona aquele momento veneziano por excelência.
Você também pode ouvir a trilha sonora desse momento tipicamente veneziano: o “Oooee!” frequentemente gritado por um gondoleiro. Esse é o chamado em voz alta que os homens que remam as gôndolas soltam uns para os outros para evitar o tráfego nos canais.
Antes de ir jantar, um passeio pela Basílica de São Marcos – cuja fundação a cidade de Veneza remonta a 1.600 anos atrás – é uma parada imperdível. De acordo com a tradição católica, Veneza foi fundada em 25 de março de 421, no exato momento em que a construção da igreja começou. E, centenas de anos depois, a Basílica continua sendo um dos monumentos mais icônicos da cidade.
Veneza é uma cidade que transborda arte, a começar pela própria arquitetura, mas os museus oferecem muito contexto a essa história. O Museu Fortuny é um dos centros de arte menos conhecidos que fez parte não apenas da história veneziana, mas também da história cultural italiana. O museu fica na antiga casa e estúdio de Mariano Fortuny, que se apaixonou por Veneza, e foi ali que ele se tornou um prolífico artista multimídia.
Os aficionados por moda e design sabem que Fortuny também se tornou um estilista renomado, criando para a namorada de Mussolini os vestidos icônicos que ela usava ao lado do fundador do fascismo. Hoje, o espaço virou até uma marca que reconstrói as peças originais da época, desde roupas até cúpulas de abajur que utilizam técnicas exclusivas para plissar e sobrepor sedas e algodões.
Depois de um passeio pelos salões da casa de Fortuny, inevitavelmente vai bater aquela fome; uma deliciosa refeição de risoto com crustáceos frescos de rio e aspargos selvagens pode ser saboreada no local Ristorante Antico Martini. Um clássico da região, fundado em 1720, o Antico Martini era frequentado por Stravinsky e Charlie Chaplin quando visitavam a cidade, e ainda mantém a elegância que Veneza continua a exalar.

Você se sente quase intimidado pela quantidade opulenta de história que esculpe cada rua de paralelepípedos e praça. Mas o trem parte em breve e você precisa correr para a estação rumo ao próximo destino, passando rapidamente por onde Casanova e Tintoretto cortejavam amantes e faziam esboços em cafés como o Caffè Florian, o mais antigo em funcionamento na Itália.
Rumo à Riviera
A próxima parada é Portofino, mas antes de você chegar, uma banda toca músicas que continuam a transportar os hóspedes por várias eras de ouro da Itália. Agora você retorna à Dolce Vita dos anos 1960, com as canções da Itália daquela década. “O Sole Mio” envolve você.
Ao chegar a Santa Margherita Ligure, é preciso fazer o que os habitantes locais fazem há centenas de anos. Um lanche com a focaccia genovesa, como se faz desde a era medieval, é obrigatório para se preparar para a caminhada ao longo da Riviera Italiana.
No alto da colina de Portofino fica o Agririfugio Molini, onde são oferecidos cursos para preparar a iguaria local: o pesto. Grandes pilões de mármore servem para amassar o manjericão fresco e os pinolis levemente tostados, com quantidades generosas de um azeite brilhante, parmesão e um dente de alho aromático.
Não é simples fazer isso como se fazia antigamente. É um processo demorado, mas o sabor e o frescor que esse molho simples, porém impressionante, traz ao trofie ou fettuccine feito na hora é de arrancar lágrimas. Porque esse prato simples transmite o que é o verdadeiro luxo hoje em dia: o nosso tempo e a chance de saborear cada garfada.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com