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A Aposta do Cinema de Rua para Vencer a Era Digital? Charme e Hospitalidade 

Com gastronomia, bons drinks, design assinado e curadoria afiada, endereços paulistanos como o novo Cine Tutu querem dar nova cara aos cinemas como destinos culturais e de convivência

7 min

Que tal, em vez de praças de alimentação lotadas, salas imensas e uma decoração cinza sem personalidade, seu cinema tivesse poltronas floridas e design de grandes nomes da arquitetura? E ainda ter taças de vinho, bons drinks e quitutes além da pipoca à disposição?

Para atrair um público saturado de telas e convencê-lo a sair de casa, uma nova geração de cinemas de rua aposta no charme e na hospitalidade. Com filmes no streaming a um clique de distância, o desafio é oferecer algo além da projeção: um destino em si, com curadoria, gastronomia e design no centro da experiência.

Em São Paulo, o movimento de salas menores e independentes é bem ilustrado por um nome: Paulo Velasco. Sócio-fundador da Cinesala – espaço que já conquistou uma legião de fãs pela cidade –, o empresário busca há uma década (transformar a ida ao cinema em um destino cultural e de convivência.

Agora, com o recém-inaugurado Cine Tutu, amplia essa proposta para um novo endereço na Vila Madalena. A novidade aberta no começo de outubro ocupa um edifício projetado por Isay Weinfeld e combina cinema, arquitetura e gastronomia em uma sala de 114 lugares.

DivulgaçãoO foyer do novo Cine Tutu

E não para por aí. A cidade também se prepara para a abertura do Nu Cine Copan, prevista para junho de 2027, e do Cine Rosário, no Edifício Martinelli, em 2028.

O cinema não é mais só cinema

No Cine Tutu, a experiência começa antes da sessão. Na entrada, pôsteres de filmes garimpados em galerias pelo mundo dividem espaço com sofás e uma cabine fotográfica. Na sala, poltronas revestidas com tecido floral da Entreposto contrastam com cortinas de veludo verde. O cuidado com o design não é mero detalhe. Para Velasco, o ambiente precisa ser um convite para sair de casa e valorizar o tempo dedicado ao cinema.

A gastronomia é parte importante dessa equação. Em ambos os cinemas do empresário, o Barouche funciona como café-bar. O objetivo é que o público possa chegar antes da sessão, estender a conversa depois do filme ou frequentar o espaço mesmo sem ingresso.

No Cine Tutu, o cardápio inclui croissants, chocolate Mission, sorvete Pinguina e rótulos de vinhos da Argentina à França. A carta de drinks, criada por Danilo Nakamura, inclui coquetéis com açaí e guaraná, além de clássicos como Negroni e Portonic e um vermute produzido pela Vinhas do Tempo exclusivamente para a casa. Assim também como chope e cervejas artesanais de produtores nacionais, como Tarantino e Trilha.

Fran ParenteO Barouche é um dos pilares da receita do Cinesala e do Cine Tutu, com frequentadores independente da sessão dos filmes

Outro pilar de sustentação é a curadoria cuidadosa, na fronteira entre o cinema de arte e o comercial. Na era de catálogos infinitos nos serviços de streaming, isso atua como um alívio para a ansiedade da escolha. “No fundo, ajudar a escolher o que você vai ver é um serviço muito bem-vindo hoje“, avalia Velasco.

Essa combinação tem atraído uma mistura de gerações. O público saudosista divide agora as fileiras com a Geração Z. “Para uma geração que tem hoje 20 e poucos anos, o streaming sempre esteve lá. Então, o ‘novo’, muitas vezes, é você tomar um café, uma taça de vinho e sentar no sofá para ver um filme que alguém escolheu para você”.

Ligia SkowronskiPaulo Velasco: “Nosso maior concorrente não é o streaming ou o cinema de shopping. É o celular”

O combo para fazer a conta fechar

Para que esse charme analógico sobreviva em um meio tão competitivo e repleto de grandes players, é importante ser pragmático. “Parte da beleza é fazer um cinema de rua, mas a outra é ele ser saudável financeiramente”, explica Velasco, formado em administração pela FGV e um cinéfilo desde a infância.

Para ele, o pulo do gato do novo cinema de rua é não depender exclusivamente da bilheteria. Embora ela ainda represente a maior fatia da receita, a estratégia é a diversificação dos negócios. Patrocínios e parcerias com marcas (atrás da comunidade engajada dos cinéfilos), locação para eventos e operação gastronômica contribuem para a conta fechar.

O empresário diz receber mais de 400 propostas de eventos por ano, mas ele bem seletivo, dando prioridade das salas para os filmes. O Cinesala recebe entre 100 mil e 120 mil pessoas por ano; para o Cine Tutu, que tem menos lugares, Velasco espera uma taxa de ocupação elevada.

Velasco conta com alguns nomes para viabilizar seus projetos. O Cinesala foi fundado em 2014 por ele junto com o futebolista Raí (seu também parceiro na empresa de gestão de talentos Raí+Velasco) e Adhemar Oliveira, um dos maiores exibidores do país pelo Grupo Espaço de Cinema. Já no novo Tutu, detém 70% da operação, enquanto o resto é dividido entre três investidores-conselheiros: Alfredo Setubal, sócio da Editora Todavia; a pesquisadora Mariana Lucas, professora de Cinema e Audiovisual na FAAP; e Marcos Nisti, sócio-fundador da Maria Farinha Filmes.

Renato ParadaOs sócios do Cine Tutu, da esquerda para direita: Alfredo Setubal, Marcos Nisti, Mariana Lucas e Paulo Velasco

Na corrida por relevância, o empresário vê que a disputa pela atenção do público não acontece contra os grandes complexos de shopping ou os catálogos infinitos do streaming. “O nosso maior concorrente é o celular”, decreta ele. “Acho que a pessoa sair de casa e ver a beleza em compartilhar uma tela, ao invés de ficar tendo uma experiência sozinho passando o dedo para cima o tempo inteiro, é o que mais compete com a gente”.

Uma tendência que toma o Centro

O movimento não é exclusivo apenas da zona oeste da cidade. A recuperação de salas históricas amplia os cinemas de rua também para o Centro de São Paulo.

Fechado desde 1986, o icônico cinema projetado por Oscar Niemeyer no térreo do edifício Copan tem previsão de reabertura para junho de 2027. Rebatizado de Nu Cine Copan, após patrocínio do Nubank e projeto da Viva do Brasil, o espaço abriu mão dos antigos 1.200 lugares fixos para abrigar uma moderna sala de 442 assentos com tela de LED de 17 metros. Além dos filmes, a estrutura prevê um palco para shows, peças e sessões com trilha sonora ao vivo.

DivulgaçãoNu Cine Copan abrirá as portas em 2027

A alguns quarteirões de distância, no Edifício Martinelli, o Cine Rosário, inaugurado em 1929 e desativado em 1955, tem reabertura prevista para 2028. O Grupo Tokyo planeja investir R$ 25 milhões no espaço dentro do arranha-céu, que terá programação de clássicos, cópias em película, retrospectivas, debates e sessões especiais, além de outras apresentações artísticas. A capacidade será menor que a original, para atender às exigências atuais de acessibilidade, conforto e segurança.

Os dois projetos conectam a recuperação do patrimônio à criação de novos pontos de encontro no centro. Também mostram que não existe uma fórmula única para o futuro dos cinemas de rua: alguns partem de edifícios históricos; ou outros, como o Cine Tutu, constroem uma identidade contemporânea.

DivulgaçãoProjeto conceitual do restauro do Cine Rosário

Velasco, por outro lado, não trata a expansão como uma corrida. Ele conta que visita o espaço do Cine Tutu desde setembro de 2020 e que a concepção e as negociações levaram mais de dois anos. A busca por novos endereços continua, mas a ideia é crescer sem padronizar os projetos, respeitando a história e as características de cada lugar.

“A padronização facilita muita coisa, mas não é nisso onde está o nosso coração”, decreta ele. Enfim resta esperar o que mais de interessante ele deve rodar.

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