Quando o ator Callum Turner pediu a mão da cantora Dua Lipa em casamento, uma peça de design chamou a atenção do mundo da moda. O anel, criado sob medida pela joalheria milanesa Eéra, reúne um aro robusto de ouro amarelo 18 quilates e um diamante central de lapidação brilhante com cerca de dois quilates. A escolha também colocou os holofotes sobre a marca italiana, que tem entre as clientes nomes como Hailey Bieber, Sienna Miller, Florence Pugh, Rita Ora e Vittoria Ceretti, e vem consolidando seu espaço entre as novas protagonistas da alta joalheria.
Em um mercado tradicionalmente associado à herança e ao simbolismo tradicional, uma nova geração de marcas tem redefinido o papel da alta joalheria. Em vez de peças reservadas ao cofre ou usadas apenas em eventos formais, elas apostam em joias capazes de acompanhar a rotina, refletir a personalidade de quem as usa e dialogar com a linguagem contemporânea da moda. Foi nesse movimento que a italiana Eéra construiu sua identidade.

Fundada em 2019 por Chiara Capitani e Romy Blanga, a marca nasceu da convergência entre duas carreiras complementares. Enquanto Capitani desenvolveu sua trajetória como designer e consultora criativa para maisons de moda, Blanga especializou-se em relações públicas, comunicação e gestão de marcas. Após anos trabalhando juntas em Milão, perceberam que compartilhavam o interesse pela alta joalheria e decidiram criar uma empresa que unisse design, artesanato e uma visão mais contemporânea do luxo. “Nossa parceria surgiu do desejo de desenvolver joias de alta qualidade, modernas, expressivas e adequadas ao uso cotidiano”, contam.
Embora tenham construído a carreira na moda, as fundadoras enxergaram na joalheria um território ainda pouco explorado e com potencial para criar objetos de valor permanente. “A moda nos ensinou como os acessórios podem fazer parte da identidade de uma pessoa, mas a joalheria oferece a possibilidade de criar objetos com valor emocional, capazes de atravessar gerações.”
Essa influência do universo fashion permanece evidente em todas as coleções da Eéra. As fundadoras afirmam desenvolver cada lançamento como se fosse uma coleção de prêt-à-porter, considerando proporção, styling, cor e versatilidade desde o início do processo criativo. “Criamos para pessoas confiantes, criativas e independentes, que utilizam a joalheria como forma de expressão pessoal.”
O principal símbolo dessa proposta nasceu de forma improvável. Durante uma viagem a Tóquio, Capitani e Blanga encontraram um antigo mosquetão em um mercado e passaram a imaginar como aquele mecanismo poderia ser reinterpretado em ouro, diamantes e pedras preciosas. O objeto utilitário transformou-se na assinatura da marca e em um elemento funcional que permite conectar, remover e reorganizar diferentes peças.
Mais do que um recurso estético, a modularidade tornou-se parte da filosofia da empresa. As clientes podem combinar brincos, correntes e pingentes de maneiras diferentes, incorporando inclusive joias tradicionais que já fazem parte de seu acervo.

Toda a produção continua concentrada em Vicenza, um dos principais polos joalheiros da Itália, onde as peças são confeccionadas artesanalmente. Ao mesmo tempo, a marca investe em processos tecnológicos próprios. As aplicações especiais de esmalte, por exemplo, dão origem às cores vibrantes que se tornaram uma de suas assinaturas visuais. Para a dupla, tradição e inovação não competem entre si: são elementos complementares.
A visão das fundadoras reflete uma transformação mais ampla no comportamento do consumidor de luxo: muitos clientes passaram a buscar joias menos associadas à demonstração de status e mais ligadas à expressão individual, à versatilidade e ao significado emocional. É uma mudança já identificada como a nova direção do mercado de luxo, e Capitani e Blanga adotaram a noção de que luxo hoje significa autenticidade, excelência artesanal e originalidade. Como empreendedoras, defendem que construir uma marca independente exige manter uma identidade consistente, mesmo em um mercado global cada vez mais competitivo. “Permanecer fiéis à nossa visão criativa é mais importante do que seguir tendências.”
A expansão internacional da Eéra tem sido apoiada por colaborações com marcas de moda e pela adoção espontânea de suas peças por artistas e personalidades. Ainda assim, as fundadoras afirmam que essas parcerias nunca foram um objetivo em si, mas consequência das relações desenvolvidas ao longo de suas trajetórias na indústria.
Quando não estão trabalhando, as duas continuam buscando referências nas viagens, como Tóquio e Los Angeles, além da arquitetura, da arte e do design industrial. Entre suas maiores influências estão Maison Margiela, Cartier, Marcel Duchamp e Ettore Sottsass, nomes que ajudam a explicar a estética da marca, que aposta no equilíbrio entre funcionalidade, experimentação e sofisticação. De tal modo que até um simples mosquetão possa se tornar um objeto de desejo.
*Reportagem publicada na edição 143 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.