Qual livro está esperando para ser aberto na sua estante? A partir de hoje, a Forbes Brasil ajuda a responder a essa pergunta com o novo Forbes Book Club. Quinzenalmente, grandes nomes da atualidade, relevantes em diferentes áreas de atuação, vão compartilhar as páginas que marcaram suas trajetórias e moldaram suas visões de mundo.
Para inaugurar o espaço, nossa primeira convidada é Bruna Marquezine. Consolidada como um dos principais nomes da dramaturgia nacional contemporânea, ela tem expandido seu ofício dentro e fora do Brasil.
Na literatura, a atenção da atriz tem um foco claro: a escrita feminina. Suas leituras mergulham na complexidade humana e nas diferentes formas de afeto – um reflexo direto de seu momento profissional. O amor, não à toa, guia uma de suas indicações, dialogando com seu trabalho mais recente, a série “Amor da Minha Vida”, cuja segunda temporada estreia nesta semana no Disney+.
Na produção, Bruna vai muito além da protagonista Bia, uma jovem lidando com as cobranças da vida adulta e com suas próprias contradições amorosas. A atriz usou o projeto para assumir novas posições na engrenagem criativa: participou da idealização, colaborou no roteiro e, desde a primeira temporada, assina a direção de algumas cenas.
“A atuação é meu primeiro amor, mas amo a experiência de dirigir e de estar envolvida no processo criativo. Estar tão imersa em todas as etapas me ajuda a entender a minha personagem com mais nuances e mais complexidade”, conta em entrevista à Forbes Brasil.
Da tentativa de definir o amor até as dores mais silenciosas da existência, as escolhas de Marquezine para o Forbes Book Club revelam um olhar sensível e atento para a literatura feminina. Confira a seguir:
#1. “Tudo Sobre o Amor” – Bell Hooks
No primeiro volume de sua Trilogia do Amor, Bell Hooks se propõe a elucidar o que é o amor, seja nas relações familiares, românticas ou de amizade e vivência religiosa.
“Eu mesma tenho vivido esse processo de desmistificar o amor e várias coisas a meu respeito. A Bell Hooks fala muito disso. A humanidade tem essa fixação com o amor, mas ele não é uma coisa só, é diferente para cada pessoa. O amor é um conceito que se modificou ao longo dos anos; o amor que os meus avós viviam é diferente do que eu busco e quero pra mim”, conta a atriz.
Indo contra a ideia de que o amor é sinal de fraqueza e irracionalidade, a obra defende que ele é, na verdade, uma ação capaz de transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que dominam nossa cultura.
“Eu achei muito interessante a visão e esse approach dela a respeito do amor e o quanto do amor é o sentimento, quanto é uma construção da nossa sociedade”.
#2. “A Hora da Estrela” – Clarice Lispector
Uma das obras mais aclamadas de Clarice, “A Hora da Estrela” retrata a vida de Macabéa, uma mulher que mal tem consciência de existir. Depois de perder uma tia mais velha, a única pessoa que a conectava com o resto do mundo, ela decide viajar para o Rio e recomeçar.
A partir daí, a obra transforma em palavras sentimentos tão inerentes do ser humano: o amor, a traição, o desamparo, a esperança e o afogamento da alma.
“Eu amo a Clarice Lispector. De aniversário, minha irmã me deu um livro com todas as cartas dela. Eu gosto muito da escrita e eu a admiro muito enquanto mulher e pessoa, muito visionária e provocativa, mas com uma humildade, não provocativa num lugar agressivo ou desrespeitoso”, diz.
Por trás de um narrador fictício, Rodrigo S.M., Clarice projeta na obra suas angústias e medos pouco antes de falecer, por meio de personagens que em nada se parecem com ela – indo na contramão de muitas de suas obras anteriores.
#3. “Véspera” – Carla Madeira
Em Véspera, Vedina, uma mulher emocionalmente abalada, abandona seu filho na rua em um momento de descontrole. Imediatamente arrependida, volta para buscá-lo, mas não encontra quaisquer vestígios de sua presença.
A partir daí, Carla Madeira explora, com idas e vindas no tempo, as rachaduras de sua família: um pai alcoólatra, uma mãe controladora, irmãos gêmeos tensionados pelas diferenças.
“Eu gosto de como a Carla cria histórias que envolvem o público de uma forma que você deixa de fazer um jogo de valor. Você já não está mais preocupado se o personagem está agindo bem ou mal; você está tão envolto na história que só aceita, só absorve daquilo”, conta Bruna. “Ela não é uma escritora que se esconde nas palavras, ela está muito presente ali; são os ensinos dela, que ela coloca entre uma fala e outra dos personagens”.

A relação de Bruna com a escritora vai além das páginas. O livro ganhou uma adaptação anunciada pela HBO Max, que terá em seu elenco a atriz carioca, ao lado de Gabriel Leone. A série, que deve ter oito episódios, ainda não tem data de estreia confirmada.
“Eu sou muito fã da Carla Madeira e do trabalho dela. Eu devorei Tudo é Rio, e para mim é difícil sentar e devorar um livro; quando isso acontece é meio que uma catarse, eu entro num transe, e a Carla é uma das escritoras que causa isso em mim”, diz ela. “Eu também me apaixonei por Véspera, que tive a oportunidade de dar vida a uma personagem dela, então esse livro vai sempre me marcar”.