Que livro te acompanharia numa travessia pelo Atlântico? Quinzenalmente, o Forbes Book Club convida nomes de diferentes áreas a mostrar suas estantes e contar quais leituras marcaram suas trajetórias. A convidada da vez é Tamara Klink.
Navegadora, arquiteta naval e escritora, ela cruzou o Atlântico sozinha aos 24 anos, seguindo os passos do pai, Amyr Klink, primeiro homem a atravessar o Atlântico Sul em um barco a remo, em uma viagem de 100 dias. Desde então, Tamara não parou mais: em 2025, cruzou o Ártico entre a Groenlândia e o Alasca, por uma rota conhecida como Passagem Noroeste. Em julho deste ano, partiu novamente do Alasca para uma travessia solo com destino ao Atlântico, buscando conectar os oceanos Pacífico e Atlântico.
Suas expedições também inspiraram livros. Em seu quinto título, “Bom Dia, Inverno” (2026) Tamara relata os oito meses em que viveu sozinha em um veleiro cercado pelo mar congelado da Groenlândia, entre 2023 e 2024. Para essa jornada, partiu da França em junho de 2023 levando mantimentos básicos e, claro, livros. Entre as leituras que a acompanharam estavam “Cartas a um Jovem Poeta” e “Walden”.
“Navegar é caro, lento e perigoso. E ainda assim é uma fonte de prazer. Se minhas histórias abrirem fresta pra alguém – no mar ou em terra -, já valeu”, conta em entrevista à Forbes Brasil.
Nas indicações que compartilha com o Forbes Book Club, a poesia divide espaço com ensaios que exploram a relação entre o ser humano e a natureza. Confira a seguir:

#1. “O Livro das Semelhanças” – Ana Martins Marques
Uma das principais obras de poesia da contemporaneidade, “O Livro das Semelhanças” explora a relação entre a palavra e o mundo, utilizando da metalinguagem. “É um livro divertido e esperto, onde os poemas brincam com o próprio esqueleto de um livro de poemas e mapeiam a linguagem”, explica Tamara.
A obra é dividida em quatro seções: Livro (que discute os elementos de um texto); Cartografias (que investiga mapas e territórios); Visitas ao Lugar-comum (que trabalha com o cotidiano) e O Livro das Semelhanças (que aprofundas as analogias entre as coisas e o mundo).
#2. “Antidote au Culte de la Performance” – Olivier Hamant
Em tradução literal, “Antídoto ao culto da performance”, a obra aborda sobre a armadilha da performance, retratando a forma como a sociedade moderna associa eficácia e eficiência a um valor moral e, quando levada aos limites, torna os sistemas humanos e ecológicos frágeis.
“O pesquisador parte de exemplos da natureza para analisar o paradoxo da busca extrema pela performance: à curto prazo traz bons resultados, mas nos torna mais frágeis em momentos de crise. Um antídoto é a robustez”, diz Tamara.
Ao contrário das nossas máquinas, os sistemas biológicos não buscam a otimização absoluta, mas apoiam-se na robustez, que se baseia em multiplicidade de caminhos e margem de erro, entre outros fatores. A obra ainda não foi publicada no Brasil.
#3. “Escute as Feras” – Nastassja Martin
Neste relato de viagem, a antropóloga francesa Nastassja Martin viaja à Rússia em busca de famílias do povo even, que vive no coração das florestas siberianas. A narrativa muda de forma quando algo inesperado acontece: o encontro com um urso. É a partir dessa experiência – e de sua sobrevivência a ela – que Nastassja traça uma reflexão sobre o humano e o natural.
“Um relato vertiginoso que parte do encontro entre a antropóloga e um urso para romper as fronteiras entre o mito e realidade”, reflete Tamara.
Se no português não há como explicar o que um encontro como esse causa, a palavra miêdka, do idioma even, consegue: a pessoa se torna, dali em diante, tanto urso quanto humano. Mulher-urso, urso-mulher.