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João Pimenta Subverte Alfaiataria e Quer Que Homens Se Divirtam Mais com a Moda

Na SPFW 61, estilista desafia a rigidez do black tie ao apresentar blazers-bodies, paletós transformados em macacões e detalhes da alfaiataria propositadamente expostos

5 min

Dos grandes nomes da moda masculina contemporânea, João Pimenta respira alfaiataria. Ele a respeita, valoriza e enaltece há pelo menos 20 anos. Mas também quer desafiá-la. É o que o estilista deixou claro em sua nova coleção, apresentada nesta quinta (15) no São Paulo Fashion Week 61. 

Pimenta já é referência quando o assunto é alfaiataria. Não gosta de desenhar, nem de planejar muito no papel: adepto da moulage, seu processo é direto no manequim, moldando o tecido simultaneamente às suas ideias. Nas mais de duas décadas de carreira, fez seu nome com modelagens estruturadas, cortes precisos e silhuetas inovadoras. Mas nos últimos anos, uma preocupação o aflige: existe um desencontro profundo entre a alfaiataria clássica e a moda.

“O alfaiate tradicional é quase o contrário da moda. Ele não quer inovações, não quer diversidade de têxteis, não quer mostrar o que está dentro daquela roupa”, reflete em entrevista à Forbes Brasil em seu ateliê, em Pinheiros.

Gustavo Scatena – @agfotositeJoão Pimenta: “O homem precisa descobrir que a moda é uma diversão”

O preço do tradicionalismo, no entanto, é o apagamento. O ofício está desaparecendo à medida que velhos mestres partem sem renovar suas técnicas e sem se abrir para o novo. A resposta de Pimenta? Afrontar e enaltecer, o grande fio condutor dos mais de 50 looks apresentados na SPFW. 

Marcelo Soubhia/ @agfotosite

O avesso e o black tie desconstruído

Se a regra da alfaiataria clássica é esconder suas técnicas, João Pimenta decidiu arrancar esse véu. Na passarela, os recursos internos como as entretelas, as ombreiras, as crinas e os alinhavos foram trazidos para o lado de fora, transformando-se na própria decoração (e charme) das peças.

“Estamos tirando o véu da alfaiataria, revelando os seus truques e mostrando os seus recursos. Tudo o que deveria estar por dentro da roupa está fora. O bordado, na verdade, é o que estaria escondido”, explica. “Está quase tudo no lugar, mas também fora”.

Marcelo Soubhia/ @agfotosite

A ousadia também vem nas silhuetas. Ombros supergigantes, maxi blazers e calças cujas pregas foram invertidas (dobradas para o lado de dentro) aparecem para desafiar os códigos clássicos da moda masculina.  

Esse desafio estético encontrou sua inspiração inicial no jazz, especialmente do movimento do gênero musical nos anos 1940 no Rio de Janeiro. Junto com a elegância inquestionável do homem preto da época, o designer mirou no traje de gala masculino por excelência para esta coleção: o black tie. Mas, em suas mãos, a formalidade ganhou novas e ousadas proporções.

“Brincamos de reconstruir essa roupa de gala. Então temos o homem vestido de gala com bermuda, com short estilo hot pants e com macacão, por exemplo”. As proporções também sofreram um “twist” criativo: a gravata borboleta foi esticada até se tornar uma “gravata-palito”.

Gustavo Scatena – @agfotositeGravata-palito

Já a gravata tradicional ganhou uma nova função utilitária, amarrada no pescoço e presa na cintura para se transformar em um colete. Há ainda modelagens pensadas para o clima tropical, como o paletó de manga curta e camisas com abotoamento nas costas.

A peça que mais chamou atenção, no entanto, foi o paletó transformado em body. A ideia nasceu de uma necessidade prática (evitar que a camisa saísse de dentro da calça), mas evoluiu para o blazer. 

Pimenta sabe que a peça dificilmente ganhará as ruas em massa, mas o propósito na passarela é outro. “Eu não acho que os homens vão querer sair por aí de body. Mas o desejo é abrir o leque de possibilidades. Muitas vezes você faz uma coisa para um desfile que é muito ‘fora da casinha’, mas serve de reflexão. Até onde podemos inovar?”, questiona.

João Pimenta convida à diversão

Essa quebra de paradigmas transformou a grife de João Pimenta em uma referência para quem busca o básico com twist. Ao subverterem signos rígidos, suas roupas acabaram atraindo organicamente um público agênero e feminino. Seu trabalho se viu consolidado na fluidez como consequência da boa modelagem.

Na busca da subversão, o designer também carrega uma provocação direta ao comportamento masculino. Para ele, o homem ainda precisa aprender uma lição valiosa: a de que a roupa é um estado de espírito, e não uma definição de caráter. “As mulheres tiram muito mais proveito da moda, se divertem, estão anos-luz à frente. Se ela acorda masculinizada, veste um paletó; se acorda mais infantilizada, veste uma roupa mais girlie”, explica.

A moda masculina, por outro lado, ainda esbarra em comportamentos mais endurecidos e inseguros. “O homem acha que a roupa define coisas. Ele está muito preso ao medo de que o que está vestindo reflita quem ele é, quando, na verdade, reflete apenas o que ele está sentindo naquele momento”.

O desejo de João Pimenta? Que o homem possa entender que usar uma cor ou um estilo não define quem você é. “O dia que o homem descobrir que a moda é uma grande diversão, vai ser muito legal”, decreta o estilista.

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