Talvez seja preciso voltar aos 5 anos de idade para entender por que Mariah Rovery decidiu, quase duas décadas depois de criar a marca que leva seu nome, fazer um movimento pouco óbvio para quem construiu um negócio no mercado de luxo: diminuir.
Na infância, durante as férias na praia, ela passava horas com as irmãs recolhendo conchas e furando-as com a tesourinha de unha da mãe para transformá-las em colares e pulseiras. “A gente brincava de fazer joia”, lembra. Anos depois, vieram as incursões pela 25 de Março, onde comprava acessórios para desmontar, remontar e vender. “Eu nunca vendia o acessório como comprava. Modificava completamente.”
Não houve escola de joalheria no caminho. Formada em publicidade, Mariah trabalhou em empresas como a Sony antes de transformar o impulso criativo em negócio. O capital inicial também está longe da cartilha tradicional do empreendedorismo: parte saiu do salário de estagiária; outra, de R$ 2.500 que ganhou dividindo o prêmio de uma cartela de bingo.
Criada em 2009, a marca cresceu, conquistou clientela e chegou a um dos endereços mais simbólicos do luxo paulistano. Em 2016, Mariah abriu uma loja no Shopping Iguatemi, em São Paulo. E ficou ali por nove anos.
Em 2025, decidiu fechar as portas. Não para encolher o negócio, mas para rever o que queria produzir e, principalmente, como queria produzir. Saiu a lógica de uma operação de shopping; entrou um ateliê em Pinheiros, com atendimento marcado, mais tempo para pesquisa e uma produção concentrada em peças de caráter único. Naquele momento, cerca de 70% do portfólio já era formado por joias não replicáveis.
A mudança também aproximou o trabalho de Mariah da alta joalheria que ela sempre interpretou à própria maneira. Em vez de obedecer apenas à preciosidade convencional dos materiais, pedras brutas, pérolas garimpadas, rubis, flores vitrificadas e até elementos naturais entram em composições em que a raridade pode estar justamente na impossibilidade de repetição. Hoje, a linha Gold Label da marca reúne peças com diamantes, esmeraldas, turmalina Paraíba e rubis, com criações que ultrapassam os R$ 60 mil.
Foi uma experiência ruim, aliás, que ajudou a empurrá-la para esse território. No início da carreira, ao chegar à Turquia para encontrar um fornecedor, descobriu suas criações sendo reproduzidas e vendidas no Grand Bazaar. De volta ao Brasil, entrou por acaso em uma loja de pedras e encontrou uma pirita bruta. “Olhei e falei: ‘Com uma pedra bruta, ninguém vai conseguir me copiar. Ela é única.’” Nascia ali um princípio que ainda conduz seu trabalho, o de encontrar valor naquilo que não pode ser reproduzido exatamente da mesma maneira.
Agora essa lógica ultrapassa o corpo. Mariah começou a criar o que chama de “joias para a casa”: objetos escultóricos, peças construídas a partir de materiais garimpados e intervenções em objetos encontrados pelo mundo. Um antigo porta-joias pode receber pedras ou cravações; insetos encontrados em Murano aparecem em uma peça cuja chapa leva rubis; escamas de peixe podem virar ponto de partida para um novo desenho. “Não estou presa ao material, assim como não estou presa ao material na joia”, diz.

A seguir, Mariah Rovery fala à Forbes Brasil sobre sua trajetória, a decisão de deixar o shopping, a busca por um luxo menos associado à escala e a expansão de seu universo criativo da joalheria para a casa.
FB: Você não tem formação em joalheria. De onde veio esse interesse?
MR: Eu sou publicitária, então não tenho nenhuma formação em joalheria. Há pouco tempo comecei a me perguntar: “Gente, de onde veio isso?”. Minha família não trabalhava com joias, não era uma família super-rica que ganhava joias do pai ou tinha uma tradição nesse sentido.
Faço uma terapia junguiana que tem uma coisa chamada sandplay. Um dia, olhei para umas conchas e me deu uma emoção muito forte. Falei: “Nossa, entendi”. Quando eu era criança, meus pais, minhas irmãs e eu ficávamos catando conchinhas na praia. Passávamos o dia fazendo furinhos nelas com a tesourinha de unha da minha mãe. Fazíamos colares, pulseiras. Brincávamos de fazer joias. Eu devia ter uns 5 anos.
FB: Mas antes de viver de joias você construiu uma carreira na publicidade.
MR: Trabalhei em agência, indústria farmacêutica, Sony, consultoria de marca. Quando estava na Sony, uma chefe descobriu que eu desenhava e comecei a fazer presentes, retratos. Aquilo voltou a mexer muito comigo. Eu me sentia criativa trabalhando no marketing, mas queria fazer alguma coisa com as minhas mãos.
Minha irmã estava morando em Milão e fui visitá-la. Não sei por quê, mas fui com uma ideia fixa de que faria uma marca de joias. Voltei e desenhei uma coleção inteira. Um namorado me apresentou a pessoas da joalheria, conheci um ourives com quem trabalho até hoje e comecei a ir atrás de tudo. Completamente sem conhecimento. Acho que tenho uma característica muito forte de coragem. Gostei? Vou fazer.
FB: E é verdade que o primeiro investimento veio de um bingo?
MR: É verdade. Eu era estagiária e fui ao Bingo Imperatriz. Dividi uma cartela cujo prêmio era R$ 5 mil e ganhei. Fiquei com R$ 2.500. Comecei minha marca com um pouco do dinheiro que tinha do estágio e com o dinheiro do bingo. Devia ter uns R$ 4 mil ou R$ 5 mil.
Comecei fazendo eventos no salão de festas do meu prédio, participando de feiras aos finais de semana e eventos beneficentes. Fui construindo minha clientela enquanto continuava trabalhando no mercado.
FB: Por que você resolveu fechar a loja do Iguatemi?
MR: Abri a loja em 2016 e fechei a loja do Iguatemi em 2025. Acho que atender com hora marcada no ateliê é muito importante porque é outro tipo de atenção. É parar tudo para estar com aquela pessoa. É ouvir, conseguir endereçar uma ideia, criar num fluxo de paz. Não significa criar menos ou trabalhar menos. É trabalhar em outro ritmo.
As pessoas vivem numa aflição em que tudo precisa ser feito, produzido, vendido, é preciso contratar mais pessoas. São todos excessos. Eu fechei tudo, tirei os excessos e faturo mais do que faturava no meu ateliê. Isso, para mim, é luxo.

FB: A cultura japonesa que você conheceu durante a sua viagem na mesma época teve influência nessa decisão?
MR: Muito. A cultura japonesa me mostrou que existem coisas que levam dias, gerações. E eu vou querer fazer joia na batida de fritar um ovo? Não vou. É joalheria. É um trabalho artesanal. Se eu ficar com um maçarico em cima do meu ourives, o que ele vai conseguir me entregar de qualidade?
Preciso ter tempo para ir a uma feira. Fui para Hong Kong dois anos seguidos para garimpar as pérolas e as pedras mais especiais que já vi na minha vida. Pesquisa depende de tempo.
FB: Então sua ideia de luxo hoje passa mais pelo tempo do que necessariamente pelo preço?
MR: Acho que o tempo é o luxo da nossa geração. Você vê as pessoas viajando mais, buscando experiências. E existe uma massificação de tudo. Está tudo cada vez mais igual.
Mesmo para quem tem muito dinheiro, hoje é difícil se diferenciar. Porque as pessoas que têm muito dinheiro muitas vezes são as que mais querem parecer umas com as outras. Existe um código: todo mundo quer usar o mesmo relógio, a pulseira de prego, o solitário de diamante, a Birkin.
Para mim, luxo é poder ter experiências de vida e transformá-las em coisas mágicas. São relações verdadeiras construídas com tempo de qualidade. É poder conhecer coisas novas, mesmo que sejam muito simples.
FB: Você achou clientes de alta joalheria que compactuam com esse pensamento?
MR: Sim. Já aconteceu de uma cliente ver uma lagarta virando borboleta na casa dela, me trazer um casulo e falar: “Cria disso o que você quiser”. Quer confiança maior do que essa? É isso que quero: transformar o ordinário em extraordinário.
FB: Qual foi a peça mais especial que você já criou para uma cliente?
MR: Não vou citar a peça, mas tenho clientes que me pedem para garimpar pedras especiais em uma feira de Hong Kong. Com elas faço peças que podem ir de 100 a 500 mil reais. E são únicas como pérolas lapidadas como um diamante.

FB: E agora esse raciocínio está saindo do corpo e chegando à casa. Por quê?
MR: Senti vontade de fazer essas joias para a casa. Não estou presa ao material, assim como não estou presa ao material na joia. Acho que é uma nova janela de expressão. Nesta coleção ainda existe uma conexão grande com os materiais da joalheria, com os banhos, mas é o meu universo.
Já fiz peças com pedras. Tenho um viveiro com insetos que garimpei em Murano e a chapa é cravejada com rubi. Agora estou garimpando porta-joias pelo mundo para fazer intervenções neles.
Tenho um da década de 1970, um ovo pintado à mão. Comprei outro na Turquia, feito com osso de camelo. Pode ser que eu queira cravejar. Não existem barreiras. Gosto de me sentir livre para criar o que sentir naquele momento.