Todos nós sabemos a importância de manter a pele hidratada e protegida com filtro solar diário. Mas, à medida que os consumidores se tornam mais bem informados sobre a saúde da pele, surge uma nova conversa sobre como protegê-la dos estressores ambientais do dia a dia.
Para a indústria da beleza, isso está criando novas oportunidades de negócios. De acordo com um relatório da Mintel publicado em setembro deste ano, os consumidores associam cada vez mais a proteção diretamente à saúde da pele, à qualidade cutânea e a menos sinais visíveis de danos. A proteção deixou de ser um benefício especializado para se tornar uma expectativa. “Espera-se que qualquer produto que promova a saúde da pele também a proteja”, afirma a Mintel.
“À medida que os consumidores se informam mais sobre a saúde da pele, a barreira passa a ser vista como a base da resiliência, e não apenas como proteção”, cita o relatório, acrescentando que, além de blindar a pele contra agressores ambientais, entende-se que uma barreira saudável ajuda a minimizar irritações, reduzir a sensibilidade e prevenir a perda de água transepidérmica (TEWL). “Fortalecer a barreira está se tornando a nova definição de pele saudável“, diz a Mintel.
O estudo também aponta que as conversas dos consumidores sobre o tema cresceram 88% nos últimos dois anos. Conforme o interesse no assunto aumenta, o foco na proteção da pele se expande – o que, somado à busca por longevidade, está abrindo um diálogo mais amplo sobre a saúde da pele a longo prazo.
Pele sob pressão
A formuladora de cosméticos e fundadora da Amranthé, Rita Lagzdina, acredita que proteger a pele do estresse ambiental se tornará cada vez mais um pilar fundamental de skincare, ao lado da hidratação e da proteção solar diária.
“Nossa pele está constantemente exposta a fatores que podem desafiar sua resiliência natural, como radiação UV, poluição, variações de temperatura, baixa umidade, estresse oxidativo e os efeitos cumulativos do estilo de vida moderno”, afirma ela, explicando que, embora o protetor solar continue sendo essencial contra a radiação UV, a proteção ambiental é um debate muito mais amplo.
Lagzdina me conta que a linguagem do consumidor mudou visivelmente. “Barreira cutânea” deixou de ser um conceito predominantemente dermatológico para entrar no vocabulário diário de skincare. O discurso está deixando de ser apenas “O que vai fazer minha pele parecer mais jovem?” para se focar em “Como posso manter minha pele saudável e resistente com o passar do tempo?”.

O que está prejudicando a sua pele?
Para muitos, pegar um avião ou entrar em um escritório com ar-condicionado tornou-se parte da rotina diária, mas ambos podem comprometer a saúde da pele. O sol, a poluição e o clima extremo estão entre os principais vilões, mas existem outros agressores também, como me explicou o dermatologista Dr. Andrew Park.
“Vejo tantos produtos novos de skincare chegando ao mercado e tantas rotinas caseiras promovidas por influenciadores ou celebridades – e presencio muitos danos à pele decorrentes desse processo”, afirma ele, acrescentando que, quando as pessoas aplicam ativos em excesso, a pele pode sofrer uma esfoliação exagerada, fazendo com que a barreira cutânea fique extremamente danificada.
Ela acredita que as pessoas, ao menos em seu consultório, têm a falsa ideia de que o toque da pele indica o quão saudável ela está. Elas acham que “se a pele parece tinindo de limpa, se passa aquela sensação de repuxado, isso significa que está superlimpa e supersaudável. Mas, muitas vezes, isso é um engano”, explica, ressaltando que essas sensações não indicam uma pele saudável a longo prazo.
Novas descobertas
Uma nova pesquisa publicada recentemente pela CeraVe, realizada com 6 mil consumidores em toda a Europa, aponta um descompasso entre a preocupação com o estresse ambiental e o uso efetivo de produtos formulados para reforçar a barreira cutânea.
Segundo o estudo, 81% afirmam que proteger a pele de fatores ambientais além da radiação UV é importante, mas apenas 22% usam produtos voltados para a proteção da barreira cutânea. Os dados também mostram que 50% relatam ressecamento associado ao ambiente ou às mudanças climáticas, 47% dizem que a pele está mais sensível do que há cinco anos e 90% estão preocupados com pelo menos um fator ambiental que afeta sua pele.

Nada Baalbaki, vice-presidente global associada de direção científica e comunicação médica da CeraVe, diz que os resultados foram surpreendentes. “Sinceramente, fiquei surpresa ao ver que 81% das pessoas reconhecem que deveriam ir além da proteção solar”, disse ela. “Acho que isso mostra o quanto avançamos na conscientização das pessoas sobre a necessidade de cuidar da pele.” Ela ressaltou, porém, que ainda considera necessário continuar informando sobre as atitudes práticas que podem tomar.
Perguntei a Baalbaki o que acontece com a barreira cutânea em nível biológico, e ela explicou que, quando a pele fica estressada, ela reage. “O que é o esperado, especialmente quando a barreira não está funcionando em seu potencial máximo”, disse ela. “Com isso, a pele começa a se reparar, e é por isso que é fundamental usar produtos que deem suporte à barreira cutânea – não apenas para deixá-la menos estressada, mas também para que consiga responder melhor quando for agredida.”
“A maioria das pessoas passa por um pouco de estresse devido a exposições ambientais e climáticas todos os dias”, diz Baalbaki, “e é isso que vai se acumulando e com o que a pele precisa lidar.”
Para que a pele seja saudável, explica ela, as ceramidas (moléculas que compõem mais de 50% da camada mais externa da pele) precisam estar organizadas e estruturadas, sem brechas. “As ceramidas agem como os tijolos e a argamassa da sua pele. Elas retêm a água internamente e bloqueiam a entrada de irritantes e agressores externos.” Mas escolher as ceramidas certas também faz diferença; Baalbaki descreveu que as ceramidas possuem estruturas distintas que se encaixam como peças de um quebra-cabeça, e que utilizam especificamente as ceramidas 1, 3 e 6-II porque “são elas que permitem que a barreira cutânea se forme de maneira adequada”.

O futuro do skincare
Perguntei a Sophie Smith, cofundadora da Grand Aesthetics, se o conceito de barreira cutânea se tornará algo popular no grande público, e ela respondeu que isso já é uma realidade: “Antes, os clientes me procuravam querendo um glow rápido antes de um evento; hoje, após 15 anos cuidando da pele de pacientes, ouço eles perguntando como mantê-la saudável”.
Ela acrescentou que o mercado de luxo lidera esse debate, mas os princípios são simples e acessíveis: higienização suave, protetor solar diário e nada de esfoliação em excesso. “Assim que as pessoas entendem que uma barreira fortalecida é a base de todo o resto, não há como voltar atrás. Isso não é uma modinha; é uma mudança de mentalidade”, afirmou.
Baalbaki concorda e diz acreditar que estamos no caminho certo.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com
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