A RD Saúde, grupo que engloba as marcas Raia e Drogasil, está apostando que o futuro da farmácia passa menos pelo balcão e mais pela experiência. O grupo inaugura nesta quarta-feira (5), no Itaim Bibi, em São Paulo, sua primeira loja conceito, um modelo que amplia o espaço dedicado à beleza, incorpora serviços antes restritos a consultórios dermatológicos e reposiciona a farmácia como um centro de descoberta de produtos, e não apenas de reposição.
A unidade terá 364 metros quadrados – quase o dobro do tamanho de uma farmácia de grande porte da rede – e destinará mais de 65% da área ao universo de beleza e cosméticos. O espaço reunirá cerca de 12 mil produtos, sendo que 2.500 são inéditos, com destaque para marcas de beleza asiática, linhas profissionais para cabelos, fragrâncias e dermocosméticos que até então não faziam parte do portfólio físico da companhia. O projeto remete ao layout das lojas da Sephora, com espaços amplos para experimentação e exposição de produtos.
A iniciativa marca a criação de um novo formato de loja, e não de uma flagship. A diferença é estratégica. Enquanto uma flagship costuma funcionar como vitrine institucional ou laboratório de marca, a loja conceito foi desenhada para ser replicada. A companhia já trabalha na abertura de uma segunda unidade nos próximos meses e vê o projeto como parte da estratégia de expansão nacional.
A farmácia deixa de ser apenas um ponto de venda
A principal mudança não está apenas no tamanho da loja, mas na jornada de compra. O consumidor poderá realizar um diagnóstico digital da pele em equipamentos semelhantes aos utilizados em consultórios dermatológicos. A partir dessa análise, receberá recomendações personalizadas de produtos, apoiadas por inteligência artificial, e poderá concluir toda a compra no mesmo ambiente.
Além disso, a unidade contará com consultoras especializadas em beleza, serviços farmacêuticos e espaços dedicados à experimentação de fragrâncias, maquiagem e produtos para cuidados pessoais. “Ela deixa de ser apenas um ponto de venda para se tornar um ponto de experiência”, afirma Daniel Campos, CMO da RD Saúde.
A proposta é integrar diagnóstico, orientação especializada e compra em uma única jornada, algo que, segundo a empresa, responde a uma característica específica do consumo de beleza: a necessidade de experimentar antes de decidir.
Enquanto medicamentos costumam seguir uma lógica de reposição e conveniência, categorias como perfumes, maquiagem e skincare dependem de textura, aroma, teste e aconselhamento.
Um movimento que começou ouvindo o consumidor
O projeto nasceu depois de uma série de pesquisas conduzidas pela companhia para entender como evoluíam os hábitos de consumo em beleza.
Segundo Campos, um consumidor médio das grandes capitais compra cerca de 16 itens de beleza por mês. Ao mesmo tempo, esse mercado se tornou mais fragmentado, com novas marcas, ingredientes e categorias surgindo em ritmo acelerado.
A empresa identificou que muitos clientes já recorriam à Raia e à Drogasil para dermocosméticos, mas precisavam complementar suas compras em perfumarias, lojas especializadas ou no comércio eletrônico para encontrar produtos profissionais para cabelos, cosméticos coreanos, japoneses ou perfumes importados.
A partir dessas pesquisas, a companhia passou a mapear quais categorias tinham maior demanda reprimida e validou cada hipótese com consumidores antes de incorporá-la ao novo formato. “O cliente queria encontrar tudo em um único lugar”, diz o executivo.
Um retorno às origens, com um novo desenho
O conceito resgata uma estratégia que já fez parte da história do varejo farmacêutico brasileiro. Antes de ser adquirida pela RD Saúde, a rede Onofre havia construído sua reputação justamente combinando medicamentos com um espaço robusto dedicado à beleza, inspirado em grandes cadeias internacionais como a CVS, nos Estados Unidos.
A nova aposta guarda semelhanças com aquele posicionamento, embora em uma escala mais ampla. “O modelo da Onofre tinha inspiração em referências americanas. Existe uma semelhança nesse aspecto”, reconhece Campos.
A diferença, agora, é que a experiência deixa de estar concentrada apenas na exposição de produtos. Ela incorpora serviços, tecnologia e atendimento consultivo como parte da proposta de valor.
Tendência global
Antes de desenvolver o conceito, executivos da RD Saúde estudaram operações nos Estados Unidos, Austrália, África do Sul e Emirados Árabes Unidos, mercados onde grandes redes farmacêuticas vêm ampliando significativamente a participação da categoria de beleza dentro das lojas.
A lógica é semelhante em todos eles: usar a confiança construída na venda de produtos de saúde para aumentar a participação em categorias de maior margem e maior frequência de compra.
Esse movimento ganha relevância em um momento em que o comércio eletrônico assume boa parte das compras recorrentes. Para Campos, justamente por isso a experiência física passa a ter um papel diferente. “Cerca de 70% das nossas vendas ainda acontecem nas lojas. O ambiente físico continua sendo fundamental porque a descoberta de novos produtos acontece principalmente nele.”
IA conecta a experiência física ao digital
A loja conceito também funciona como porta de entrada para uma nova plataforma digital de beleza da companhia. O diagnóstico de pele realizado na loja alimentará recomendações personalizadas que poderão ser acessadas posteriormente pelos aplicativos da Raia e da Drogasil, permitindo que o consumidor continue comprando pelos canais digitais.
Segundo a empresa, a inteligência artificial será utilizada tanto para interpretar os dados obtidos nos diagnósticos quanto para personalizar recomendações, segmentar ofertas e organizar a curadoria de produtos. A estratégia procura integrar os dois ambientes em vez de tratá-los como canais concorrentes.
Uma aposta na evolução da farmácia
Ao transformar parte significativa da loja em um ambiente de experimentação, a RD Saúde amplia sua atuação justamente em um dos segmentos mais rentáveis do varejo farmacêutico.
Mais do que vender medicamentos, a empresa busca aumentar sua participação no orçamento destinado ao autocuidado, um mercado impulsionado por consumidores que procuram produtos mais especializados, novas marcas e orientação técnica durante a compra.
A escolha por lançar uma loja conceito – e não uma flagship isolada – indica que a companhia vê o projeto menos como uma ação de marketing e mais como um formato operacional capaz de ser reproduzido em escala.
Se a estratégia funcionar, a farmácia poderá ocupar um espaço que hoje é dividido entre perfumarias, lojas especializadas, marketplaces e clínicas de estética: o de um destino único para saúde, beleza e bem-estar.