A célebre região do sudeste da França conhecida como Côte d’Azur (ou Costa Azul) não tem fronteiras oficialmente rígidas, há debate sobre onde ela começa, onde termina e quais cidades realmente fazem parte do circuito mais charmoso da Riviera Francesa. Mas é fato que, ali, espremidos entre o mar Mediterrâneo e os Alpes, se encontram tesouros que valem a viagem em qualquer época do ano.
O turismo na Costa Azul despertou, mesmo, quando Nice, a capital do departamento de Alpes-Maritimes, na região da Provence, virou parada da elite europeia durante o inverno, no século 16. A cidade começou a atrair aristocratas e famílias abastadas, sobretudo britânicas, que passavam ali períodos entre dezembro e fevereiro para escapar ao frio do norte do continente. A combinação de clima relativamente ameno, luz mediterrânea e paisagem costeira era o grande atrativo. Entre os séculos 17 e 18, jovens aristocratas britânicos e de outras regiões do norte da Europa passaram a fazer o chamado Grand Tour, uma longa viagem pelo continente, considerada parte importante de sua formação cultural.
A Itália era o grande destino. Roma oferecia o legado da Antiguidade clássica; Florença, o Renascimento; Veneza, sua arquitetura, seus palácios e sua vida social. A viagem também permitia estudar pintura, escultura, arquitetura e colecionar obras de arte e antiguidades. Na época, Nice ainda não pertencia à França, fazia parte do Reino da Sardenha, ligado à Casa de Saboia. Sua posição geográfica, próxima à fronteira italiana, fazia da cidade uma espécie de porta de entrada para a península e um ponto de contato entre diferentes culturas europeias. Foi apenas no século 19, mais precisamente em 24 de março de 1860, que o Tratado de Turim, assinado entre o Reino da Sardenha e a França de Napoleão, cedeu o território de Nice à França como recompensa pelo apoio militar francês à unificação da Itália contra a Áustria, na Segunda Guerra da Independência Italiana.

Luz de Cinema
A associação da Riviera Francesa ao cinema e ao glamour ganhou força sobretudo entre as décadas de 1950 e 1960, quando o Festival de Cannes, as estrelas de Hollywood e a ascensão de Brigitte Bardot transformaram a Côte d’Azur em um dos grandes palcos internacionais de celebridades, moda e liberdade de costumes. Mas a relação entre a região e o cinema começara algumas décadas antes.
No começo do século 20, a Riviera já era conhecida como destino de inverno da aristocracia europeia. A chegada do cinema acrescentou uma nova dimensão à sua imagem: a paisagem mediterrânea oferecia luz abundante, mar, jardins e uma arquitetura que funcionava muito bem diante das câmeras.
Os irmãos Lumière filmaram cenas do Carnaval de Nice ainda em 1896. Ao longo das décadas seguintes, a região passou a atrair produções e cineastas, consolidando sua presença no imaginário visual do cinema. O grande divisor de águas foi a consolidação do Festival de Cannes, cuja primeira edição efetiva aconteceu em setembro de 1946. A iniciativa havia sido concebida antes da Segunda Guerra Mundial, em parte como alternativa à Mostra de Veneza, então marcada pela influência dos regimes fascistas.
Para Além dos Flashes
Mas nem só do bling-bling de Cannes e Saint-Tropez vive a famosa Costa Azul. Existe um roteiro menos óbvio que inclui arte, história, boa gastronomia e uma hospitalidade quiet luxury irresistível. É nele que iremos focar aqui. E o melhor: dá para aproveitar muito bem esse circuito na dita “baixa temporada”, como faziam os aristocratas ingleses nos meses de inverno. A seguir, as nossas 10 razões para visitar a Côte d’Azur também entre dezembro e fevereiro.
#1. O clima

Com máximas de 14 graus e mínimas de 5 ou 6 em média, o inverno na Riviera Francesa costuma ser ameno, relativamente ensolarado e muito mais tranquilo do que o verão, embora não seja necessariamente quente. A região tem um inverno mediterrâneo: os dias podem ser agradáveis para passear à beira-mar, almoçar ao ar livre e explorar vilarejos históricos, mas as noites são mais frias, e períodos de chuva e vento fazem parte da estação. É justamente esse clima que ajudou a transformar cidades como Nice, Antibes e Vence em destinos de artistas e da aristocracia europeia, mesmo no inverno, entre os séculos 16 e 19. Pense em levar corta-ventos, jaquetas leves e aquele tricô curinga para ter à mão em caso de brisas mais frias.
#2. O acesso

Com voos regulares e diretos partindo de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador ou Recife rumo a Paris, a Air France é a companhia mais indicada para o seu roteiro na Côte d’Azur – se puder, viaje nas novas cabines Premium Economy ou Business repaginadas; vale a experiência. O voo entre a capital francesa e Nice é curto, dura aproximadamente 1h30; o aeroporto de Nice é de fácil acesso e está a apenas 6 quilômetros do centro. As cidades da Riviera Francesa ficam próximas umas às outras e é bem possível usar Nice como base para visitar os arredores.
#3. A gastronomia “nissarde”

Nice abriga excelentes restaurantes, de diferentes tipos de cozinha. Entre os mais tradicionais está o centenário Acchiardo, no centro antigo da cidade, comandado pela quarta geração da família que dá sobrenome ao estabelecimento. Os carismáticos irmãos Raphaël e Jean-François recebem os clientes e tiram os pedidos no salão de construção medieval, enquanto a irmã Virginie comanda a cozinha. No menu prevalecem clássicos locais como a salada niçoise, a pissaladière – parente da focaccia, coberta por cebolas caramelizadas, anchovas e azeitonas pretas – e a socca, espécie de panqueca fina feita com uma mistura simples de farinha de grão-de-bico, água, azeite de oliva e sal. Mas a influência italiana da região também aparece, em pratos como a saltimbocca, as lasanhas e o coelho à bosaiola. Prove um pouco de tudo, os irmãos farão o impossível para atender aos seus desejos e te guiar pela melhor experiência.
Na animada região do porto de Nice está a Tina Trattoria, a elegante casa de massas do casal de chefs argentinos Lorenzo Ragni e Florencia Montes. Eles também comandam o restaurante Onice, dono de uma estrela no Guia Michelin. Neste, trabalham com menus degustação de cinco ou sete etapas, valorizando ingredientes sazonais. Já no Tina, que aparece na seleção do Guia Michelin (Michelin Selected), a proposta é mais descontraída, inspirada na cozinha tradicional do Piemonte e da Lombardia, com massas artesanais e clássicos italianos. Prepare-se para comer o melhor cacio e pepe da sua vida.
#4. O Hotel du Couvent

O Hôtel du Couvent merece ser visitado porque é um dos projetos de hotelaria mais interessantes da Riviera Francesa nos últimos anos. E não apenas pela beleza: o hotel representa uma maneira diferente de interpretar o luxo na Côte d’Azur, menos ligada à ostentação e mais próxima da história, da arquitetura, da gastronomia e de uma certa arte de viver mediterrânea.
Instalado em um antigo convento do século 17 – foi construído em 1604 –, no coração da cidade velha de Nice, é um lugar que combina patrimônio histórico, design contemporâneo e uma atmosfera de tranquilidade surpreendente para quem está em uma das regiões mais movimentadas do litoral francês. A transformação arquitetônica contou com a participação do indiano Studio Mumbai, em colaboração com o francês Studio Méditerranée. Os interiores ficaram a cargo do escritório francês Festen. O resultado é um exercício de equilíbrio entre rusticidade e sofisticação. Madeira, pedra, cal, tecidos naturais, mobiliário de inspiração vintage e uma paleta de cores discretas compõem ambientes que parecem ter sido construídos ao longo do tempo, e não decorados de uma só vez.
É uma estética que dialoga com o chamado quiet luxury. Existe uma identidade arquitetônica genuína, profundamente conectada à história do lugar. Entre oliveiras, laranjeiras, figueiras, ervas aromáticas e pequenas hortas, os espaços externos recuperam a vocação contemplativa do antigo convento. Parte das ervas e dos ingredientes cultivados ali abastece a própria operação gastronômica do hotel. É uma conexão interessante entre paisagismo, sustentabilidade e cozinha de território.
Há também uma piscina externa de 20 metros, com vista para os telhados da cidade e para o Mediterrâneo, e um belo spa inspirado nos antigos banhos romanos, com circuitos de águas em diferentes temperaturas.
#5. A mostra Chagall Couture no Museu Nacional Marc Chagall, em Nice

A exposição Chagall Couture. Un hommage à l’artiste fica em cartaz até 23 de maio de 2027, no Musée National Marc Chagall. A mostra foi concebida em dois momentos:
- 10 de outubro de 2026 a 18 de janeiro de 2027: criações inspiradas nas gravuras de Les Âmes Mortes, de Gogol, e nas cores do ciclo Le Message Biblique.
- 6 de fevereiro a 23 de maio de 2027: trabalhos inspirados nas Fábulas de La Fontaine e em figuras do Message Biblique.
A mostra reúne 76 peças, entre figurinos e acessórios de cabeça, criadas por estudantes de design e figurino do Lycée Les Coteaux, de Cannes, a partir da obra de Chagall.
#6. O medieval 5 estrelas de Èze

Èze é uma charmosa comuna e vilarejo medieval localizado a 12 quilômetros de Nice. Suas ruelas de pedra sobem em direção ao jardim botânico construído no topo de uma antiga fortaleza e reservam locais renomados da alta gastronomia e hotéis históricos. O Château Eza e o La Chèvre d’Or abrigam restaurantes estrelados e oferecem experiências únicas.
O Château Eza é um pequeno hotel de luxo instalado em um conjunto de edifícios históricos no coração da vila medieval. Seu charme está justamente na escala intimista e na arquitetura antiga, com fachadas de pedra, passagens estreitas, terraços suspensos e ambientes que parecem fazer parte da própria paisagem de Èze. Seu restaurante tem uma estrela Michelin e oferece cozinha francesa e mediterrânea contemporânea, com belas apresentações e vista panorâmica para o mar.
O Château de la Chèvre d’Or talvez seja o mais célebre dos dois estabelecimentos e uma verdadeira instituição da hotelaria de luxo francesa. Instalado em diferentes construções históricas espalhadas pela vila medieval, o hotel tem uma característica singular: seus quartos, suítes, jardins, piscinas e restaurantes estão distribuídos por diferentes níveis e recantos de Èze, integrando-se organicamente à arquitetura do vilarejo. O restaurante tem duas estrelas Michelin, é comandado pelo chef Tom Meyer com uma proposta gastronômica mais elaborada e criativa.
#7. A Capela do Rosário, em Vence

A Capela do Rosário (Chapelle du Rosaire) é uma das obras mais extraordinárias do pintor e escultor Henri Matisse e um dos encontros mais interessantes entre arte moderna, arquitetura e espiritualidade do século 20. Mais do que decorar uma igreja, o artista concebeu praticamente todos os elementos do edifício, dos vitrais ao mobiliário, passando pelos murais e pelas vestimentas litúrgicas.
Ainda em Vence, aproveite para visitar a Cathédrale Notre-Dame-de-la-Nativité, uma igreja histórica no centro antigo de Vence que abriga uma obra particularmente interessante de Marc Chagall: o mosaico Moisés salvo das águas (Moïse sauvé des eaux).
#8. A estupenda Villa Ephrussi de Rothschild

A Villa Ephrussi de Rothschild, em Saint-Jean-Cap-Ferrat, é uma das propriedades mais extraordinárias da Riviera Francesa. Construída durante a Belle Époque, combina arquitetura inspirada nos palácios renascentistas italianos, uma coleção de arte e antiguidades e nove jardins temáticos com vistas privilegiadas para o Mediterrâneo. É um daqueles lugares que ajudam a entender a relação histórica entre a aristocracia europeia, a arte, o luxo e o estilo de vida da Côte d’Azur.
#9. O glamour Art Déco do hotel Belles Rives, em Antibes/ Juan-les-Pins

Mais do que um hotel cinco estrelas à beira-mar, o Hôtel Belles Rives é um pedaço vivo da história do glamour da Côte d’Azur, ligado à literatura, à Art Déco e à atmosfera de liberdade e sofisticação que marcou os anos 1920 e 1930.
Sua história tem um personagem central: o escritor americano F. Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby, que viveu na Villa Saint-Louis, propriedade que se transformou no hotel. É justamente essa conexão que faz do Belles Rives um lugar tão especial.
O hotel preserva uma identidade Art Déco bastante característica, com referências aos anos 1930, mobiliário de época, mármores, ferro trabalhado, cromados e elementos decorativos que remetem à estética dos grandes hotéis da Riviera. A decoração, a localização e a própria história da propriedade ajudam a criar uma atmosfera de elegância clássica, um tanto cinematográfica, que remete ao período em que a Côte d’Azur se tornou sinônimo de sofisticação internacional. São 43 quartos e suítes, muitos deles com vista para o Mediterrâneo. O edifício está inclusive registrado no inventário francês do Patrimônio do Século 20.
Dica 1: reserve uma mesa no Bar Fitzgerald no final da tarde e tome um drinque diante do Mediterrâneo, com a paisagem das ilhas de Lérins ao longe.
Dica 2: Para um almoço leve ao ar livre, caminhe 300 metros até o hotel Juana, dos mesmos donos e com as mesmas características Art Déco, e instale-se confortavelmente no pátio do restaurante Paseo. O clima é mais trendy e informal, mas não menos elegante.
#10. O Museu Picasso, em Antibes

O Musée Picasso, instalado no imponente Château Grimaldi, em Antibes, é uma das visitas culturais mais interessantes da região. Não apenas por abrigar um conjunto importante de obras de Pablo Picasso, mas também pela relação muito particular entre o artista, o edifício histórico e a paisagem mediterrânea que marcou uma fase especialmente fértil de sua produção. Picasso viveu ali por dois meses, entre setembro e novembro de 1946, acompanhado de sua então companheira, Françoise Gilot.
Ao deixar Antibes, Picasso depositou na cidade 23 pinturas e 44 desenhos produzidos durante sua temporada no castelo. Em 1948, acrescentou à coleção 78 peças de cerâmica realizadas no ateliê Madoura, em Vallauris. Em 1966, o Château Grimaldi recebeu oficialmente o nome de Museu Picasso, tornando-se o primeiro museu dedicado ao artista.
#11. O mercado no centro da cidade antiga de Antibes

Visitar o mercado de Antibes é uma das maneiras mais agradáveis de conhecer o cotidiano e a cultura gastronômica da cidade para além de suas praias e endereços sofisticados. Instalado no coração do centro histórico, sob a estrutura coberta do Cours Masséna, o Marché Provençal é um pequeno retrato da Provence: colorido, perfumado e repleto de produtos que traduzem a generosidade da região.
Dica: vá pela manhã, de preferência antes das 11h, quando o movimento está animado e as barracas estão abastecidas. O mercado funciona geralmente das 7h30 às 13h, de terça a domingo, fechando às segundas-feiras entre setembro e maio. Aproveite para bater perna pelas charmosas ruelas do Vieil Antibes e pequenas praças ao redor. É justamente nessa combinação de mercado, arquitetura antiga e vida de bairro que está boa parte do charme da cidade. Irresistible!
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